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CAPA – 8ª edição – Artigo: “O cais como metáfora de transposição da finitude em “Campo de Areia” de Léo Cote” – Daúde Nossi Amade

By Redação no fevereiro 25, 2021
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O cais como metáfora de transposição da finitude em “Campo de Areia” de Léo Cote
Daúde Nossi Amade
“Só há verdade possível sob a condição de uma travessia do lugar da verdade como lugar nulo, abandonado, desértico. Toda verdade corre o risco de que só haja o lugar indiferente, a areia, a chuva, o oceano, o abismo.” – Alain Badiou, Pequeno manual de inestética

1. O livro Campo de Areia foi lançado em Setembro de 2019 e nele reunem-se dois cadernos de poemas em 101 páginas (I. Caderno de gravuras e II. Caderno das inclinações geométricas). Como um conjunto, sem tanto rigor analítico, estes cadernos escrevem-se nos limites entre o material e o imaterial da mundivisão poética de um ser que se deixa sentir para que, como um epicurista, transforme temores e perturbações de seu íntimo temporizado em um espaço, este campo de areia – Moçambique –, em amuletos para a sua existência pensada com prazer.
Léo Cote (1981, Maputo), o autor, é graduado em Linguística e Literatura pela Universidade Eduardo Mondlane, já trabalhou como professor e, actualmente, trabalha como revisor linguístico. Campo de Areia é sua terceira obra de poesia, sendo antecedida por Carto poemas de Sol a Sal (2012) e Poesia Total (2013).
O objectivo desse ensaio é de analisar as digressões transpositórias do cais como metáfora da finitude em Campo de Areia. No entanto, porque os poemas que envolvem a imagem do cais encontram-se reunidos no Caderno das inclinações geométricas, o foco será dado a esta secção, não se tratando, portanto, de uma leitura global da obra.
2. A metáfora (gr. metaphorá) consiste no processo de nomear algo mediante a transposição de características de uma outra coisa; os aspectos que primitivamente e de modo comum pertencem a um objecto são “transpostos”, “transportados” ou “transferidos” para dar suporte à expressão semântica de outro objecto, tal que o segundo objecto é referido como fosse o primeiro. A ser assim: o que significa transpor o sentido das palavras? Ricoeur navegará em torno do significado que se oculta por detrás do conceito “transpor”, indicando que o processo metafórico como transposição é uma espécie de clara movimentação para o lado ulterior e oculto do sentido segundo a palavra emprestada. Onde, no lugar em que uma palavra dirige-se para significar algo antes não pertencente ao seu universo:
(…) (1) a metáfora é um empréstimo; (2) que o sentido emprestado opõe-se ao sentido próprio, isto é, pertencente originariamente a certas palavras; (3) que se recorre a metáforas para preencher um vazio semântico; (4) que a palavra emprestada toma o lugar da palavra própria ausente se esta existe (RICOEUR, 2000, p.31).
É dentro destas concepções da metáfora que o conceito cais será transposto no lugar de expressão da finitude em Campo de Areia. A palavra “cais” significa originariamente parte da margem do rio ou porto destinada ao embarque e desembarque de mercadorias e passageiros. No modo mais digno de entender, o cais é o que reúne e recolhe à outra margem tudo que se existencia, finita ou infinitamente, entre humanos (suas angústias, afectos e desafectos, partidas e permanências) e bagagens.
Acolhendo os que vêm ou recolhendo os que se vão, o cais torna-se um lugar particularmente envolvente, atravessando-nos com seu ar de representação da finitude, seja da vida, seja dos instantes que dela se depreendem. E no cais, espelhando-se metaforicamente a finitude humana para com as coisas que ficam, através da nostalgia da partida, separação, vazio e tédio que ela invoca, referencia-se invariavelmente e de maneira mais ou menos explícita a ideia da morte. Clareia-se a imagem fatalista da morte com o cais que deixa vazia a margem como quando se abre o vai e vem dos barcos e ficamos detidos mediante o “campo de areia” a contemplar pelas águas a barca que se vai com o que outrora, há instantes passados, esteve em nós ou mesmo fomos nós.
3. Se quisermos ir mais a fundo acerca do vínculo entre a finitude e o cais, conforme se entrevê na obra do filósofo alemão Martin Heidegger, Ser e tempo (2005, p.46), a finitude do Homem liga-se-lhe às demais Coisas existentes e mexe com sua consciência porque se questiona acerca da existência do seu Ser e de todos afectos que o envolvem ao mundo vinculativamente; isto ocorre sem que o cais enquanto ponte divisória coloque o Ser de uma parte e as Coisas de outra; e, ainda, porque no universo humano nada se dá nos planos da infinitude, para além da necessidade, tudo se move no “campo de areia” e está fadado ao perecer, à finitude. Diante do Ser que seus afectos e necessidades mudam, porque não vive numa morada tão calma e luminosa, as angústias e medos vêm com o passar do tempo, com as viagens que se abrem diante das águas do cais que é a digna imagem do nosso quotidiano de eternas partidas.
No cais, esse hall de partidas e vindas, de encontros e desencontros, tudo se confunde com o tédio, nostalgia, tristeza, morte e viagens, onde uma parte de nós se vai e a outra fica apoucada, nesses instantes de finitude, divisoriamente definidos entre as margens, o campo de areia e o campo aquático, essencialmente.
4. Cabe agora fazer uma colocação a partir do cais que recolhe a linguagem poética de Léo Cote na sua poesia, ou seja, cabe uma colocação a partir da ideia do cais como transposição expressiva da finitude em sua poesia.
Os poemas que invocam a imagem do cais no Campo de Areia falam, cada um e de cada vez, com linguagem própria; tomam como totalidade essa metáfora para exprimir o que ali está impronunciado. Assim, ainda que usando da imagem do cais, os poemas que participam do Caderno das inclinações geométricas nenhum deles e nem como um conjunto diz tudo e esgota a poesia da finitude. É como se o cais fosse abertura das mil e uma faces do dizer poético sobre os mundos-de-vida, este instante pré-finito que se desdobra no verso.
A ideia aqui ensaiada não procederá de forma geométrica à leitura dos textos do Campo de Areia, a escolha será arbitrária. No entanto, conduz-se somente pelo intuito de voltar nossa atenção ao lugar do cais na poesia de Cote.
O primeiro poema que invoca o cais está na página 68, é dedicado a uma das entidades pessoanas, Ao Álvaro de Campos, e diz nas primeiras frases:
Às horas silenciosas de angústias no cais reflectido
e instável
(…)
Essa frase nos traz a representação da ausência do movimento ou da azáfama que faz o cais ganhar sentido de campo de trânsito, de impermanência. Através do “cais reflectido” diante das horas silenciosas abre-se um mórbido questionar inquietante sobre a falta de alguma coisa. As horas quietas porém inquietantes representam os inevitáveis momentos da noite do logos, onde nos abrimos para um diálogo introspectivo acerca das nossas perdas, nossas angústias e medos. E que, assim sendo, para o eu-poético, esse pensar deixa em nós:
(…)
a saudade de qualquer coisa que nos angustia
ou o que é o tédio
(…)
O cais é, aqui, momento de pensamento, é o tropo de tudo que nos faz re-pensar, coagulando o tédio, esse aborrecimento e enfado que nos é característico quando nos confrontamos com o silêncio e invocamos as angústias presentes em nós. É um pensar que se fia seja por aqueles que se vão pelos cais e nós que ficamos pelo campo de areia, seja pelas lutas diárias ou pelos sonhos mal-conseguidos. Ou ainda, a questão invocada nas mil e uma noites em que a razão sem razão busca responder: qual o sentido da vida?
5. Mas o que diz “cais”? Como havia dito, é parte do embarque e desembarque entre mercadorias e pessoas, mas sobretudo o cais é o que nos separa ou nos une – de uma ideia ou uma realidade material –, o que nos pesa e desassossega, pior que as bagagens que trazemos para dentro do barco. Pois que o cais desvincula um determinado momento vivido ou afecto que antes se gerara. Como cais, ou seja, o que lhe distingue do “campo de areia”, esse espaço que nos coloca na mesma margem do real e material, o traço distintivo de sua essência é o “instável”. Neste sentido, ele está sempre a caminho de fazer ou desfazer caminhos, colocar em rebuliço o coração sereno de um cultor do epicurismo, seguindo na marca distintiva de sua dimensão semântica, isto é, embarcar e desenbarcar, afastar e aproximar. Justamente aqui uma questão aproxima-se da goela: para que sentimento convocam os passos imaginados ou experimentados deste “cais” em Campo de Areia? Um outro poema, presente na página 73, responde-nos:

Ainda que toda estrada fosse dar ao cais
pouco dela restaria
talvez restasse apenas a frescura
de ela ter de cumprir o seu destino
(…)
O cais é representação da finitude também aqui. Mas então! O processo existencial é tido como o estar-diante-de-uma-estrada, esses lugares que nos levam às paisagens, ao sossego, à libertação presente de estarmos com os nossos e connosco mesmos, ao movimento, às cores que fazem as paisagens viverem. Porém “pouco restaria” dessa estrada percorrida a não ser a imaginada frescura que procede o cais vazio e as horas silenciosas. Como seu único destino, o cais cumpre o propósito da desunião deixando-nos na experimentação de uma singular saudade do que antes se viveu pela “estrada” da vida. Os versos falam de “destino”. O destino aqui mencionado é a inevitável catástrofe que se abre após que se atinge o cais, instaurando o sentimento de decadência do ser-para-morte. Ao destino, que cujo percurso abre-se partindo da “estrada”, o poeta reconhece:

Sim, há um cansaço involuntário das coisas
de ficarem velhas e morrerem
por nelas as horas passarem
por não se ter como viver essa morte
por todos os artifícios inúteis não lograrem
desembainhá-la

O poema acima encontra-se na página 78. Aqui se percebe que o cais como finitude destinada a ser percorrida, em seus instantes apriorísticos gera “um cansaço involuntário das coisas” para os que ficam diante de sua margem. Em pleno campo de areia, o terreno sólido, contemplando os que partem deixando o cais, ficamos tomados por uma subtil e singular feição de esperimentação do tédio, pela impossibilidade de determo-nos em um e único momento de vida, o sereno, por exemplo. E, por isso, vemos as coisas ficarem velhas e morrerem, pois quem as mantinha renovadas, serenas e prazerosas foi-se com elas. Então, o que fica em nós? A vontade de seguir pelo cais às vezes é tanta, mas fica em nós latente e impossibilitada visto que não é só querer morrer há que poder morrer materialmente e não viver a morte. Explico-me mediante a máxima de Epicuro: “…quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos” (EPICURO, 2002, p.29).
Porque não transcendemos à morte ainda em vida, assim como ensina o epicurismo, que Cote vigia em seus versos, vigora em nós a monocromia da vida, tingindo de tons acres os dias. O colorido da existência rui com o cais e nós ficamos presos ao campo de areia, ao quotidiano, que portanto:

é por ser triste o dia
que a alma sonha triste
sem um acordo íntimo
com o que há na vida
de alegre a florir sem ter coração

A estrofe acima compõe a parte inicial do poema da página 100, o último que nos convoca ao cais como finitude. É nele que depois de assumida a inglória de se ter que ficar à margem do cais, canta-se o sagrado quotidiano como assunção do habitat perante o Amor-fati, isto é, à entrega ao nosso destino e não mais como exasperação em meio a tempestade de sentimentos pelo que partiu.
6. Nos poemas com a imagem do cais no Cadernno das inclinações geométricas é resumido o destino de quem fica a experimentar a vida pelos repetidos dias tristes que se eternizam em nosso chão-quotidiano, a nossa margem antes do cais, como vivências de um jardineiro que habita no inóspito jardim. Este lugar onde as cores já não pulsam, porque perderam seu coração. Enfim, não é hermética a alusão no Campo de Areia de que as experiências do dia-a-dia projectam-se como sonhos de crianças na noite da razão, em desacordo eterno com a idade adulta das “planícies irregulares” da existência. E Cote assume que inesfavelmente o que fica, ante a in-logos de um demiurgo, é a irregularidade presente nas nossas necessidades em
(…)
um campo a alargar-se
no espectáculo da vida
Esse espectáculo de desrazão e desrealização das necessidades humanas em que o Homem jamais cultuará plenamente. Assim encerram o Campo de Areia os dois versos acima.

Referências
COTE, Léo. Campo de Areia. Maputo: FFLC, 2019.
EPICURO. Carta sobre a felicidade: (a Meneceu). Trad. Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore. São Paulo: UNESP, 2002.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo (parte II). Trad. Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.
RICOEUR, Paul. A metáfora viva. Trad. Dion Davi Macedo. São Paulo: Loyola, 2000.

Redação

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