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8ª edição – Artigo: “A quem interessa um autor? Sobrevivência e anatomia de um fantasma” – Carina Lessa

By Redação no fevereiro 25, 2021
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A quem interessa um autor?

Sobrevivência e anatomia de um fantasma

Carina Lessa

“Sing, my Angel of music” – O fantasma da ópera

“Sou o sonho de tua esperança,

Tua febre que nunca descansa,

O  delírio que te há de matar!…

(Álvares de Azevedo)

O autor vem das trevas impuras, debruça o corpo e levanta orgulhoso a espada sanguenta. Teu orgulho é o meu corpo: o delírio mortal a quem a brancura óssea se reconfigura pela anatomia de um fantasma. Em tempos pandêmicos, cabe dizer que só se é um verdadeiro artista se antes você puder ser humano e a necropolítica[1] chegou à arte. Virou uma maneira também de desumanizar o artista. A política da morte pelo Estado adota o extermínio como divisão e categorização sociais. A política se impõe como ordem de força e de coação, enclaves sociais que, podemos dizer, se expandem para todas as formas de exercer a cidadania e a pessoalidade.

Observem que, quando falo em cidadania, retomo os Direitos Humanos reivindicados pelo pós-guerra. Sabemos que o termo vem desde a Grécia Antiga, a demarcar um direito à localidade, mas o pós-segunda guerra (com a criação da ONU) nos ofereceu também o direito à universalidade. Lembremos ainda que já no início daquele século a própria autonomia das Relações Internacionais enquanto ciência já reivindicava o traço imprescindível da diplomacia e conversa entre os países e povos – ainda que saibamos da ilusão envolvida pela hegemonia política estadunidense, mas é debate para outros intentos. O fato é que temos estabelecida uma cidadania universal pela ocorrência de diversas disputas de poder que também puderam alçar novos voos à Literatura quando daquele momento. Vai daí o encontro temporal também com as ideias de Saussure e dos Formalistas Russos. Cidadania Universal e Cidadania Pessoal. Conteúdo e Forma.

A pandemia foi o pico do debate em torno da sobrevivência. Dos corpos orgânicos em relação aos regimes ditatoriais que impregnam os discursos político-partidários; dos corpos orgânicos em relação ao vírus desconhecido; dos corpos orgânicos em relação à quarentena; por fim, dos corpos orgânicos regidos pela escrita cibernética. Eu pergunto a vocês: a quem interessa um autor?

A necropolítica, mais do que uma questão estatal de regimes autoritários, chega no Brasil como uma sequência de pontos de interrogações pautados pela falha na Educação. Lives, debates e também Literatura (como mestre de todas as ciências) ganham cidadania cibernética vultosa. Necessidade de sobrevivência. A negação das pesquisas científicas, a falta de financiamento destas, torna-se ameaça constante e perigosa. O estímulo à vacina que se convencionou nos primeiros anos de vida, como forma de prolongamento da vida jovem, passa pelo desinteresse no momento em que os mais afetados são os idosos e os acossados por doenças de risco. Seleção natural a favor de regimes ditatoriais. Os mais jovens caminhamos numa corrida contra o tempo, na qual (desprovidos dessa força de resistência quase secular) reivindicamos vacinas e novas escrituras.

A história da seleção natural, promovida não só pelas políticas do aniquilamento, mas também pelo imperativo do velho como verdadeiro e único detentor da sabedoria, requisitava a morte como forma institucional de sobrevivência. Logo, matar o patriarca ou a matriarca, o professor ou a professora, o autor ou a autora, significava sobreviver na Lei do mais forte. Cheguemos então à necropolítica na arte, aquela que desumaniza o artista. Mbembe vai trabalhar a partir do conceito de biopolítica em Michel Foucault para pensar a política do Estado com expressão de morte, como uso de força e privação da liberdade. Aproprio-me então do conceito de Mbembe e penso Foucault em reflexões no ensaio O que é um autor?

A função autor com o pré-requisito institucional surgido como mote de acusação revela a emergência do preceito jurídico, do direito de advogar uma causa num jogo entre direitos e deveres. Roger Chartier leitor de Foucault[2] afirma que o objeto comum entre ambos seria “a maneira como o texto aponta para essa figura que lhe é exterior e anterior, pelo menos aparentemente”. Pensemos em como se daria o modo de existência e circulação do discurso dessa figura inexorável em sociedade. Uso a expressão “inexorável” com intuito previsto. Conceituado assim, o leitor passa pela história com duas alternativas: matar ou morrer. Segue então o embate que instaurou o óbito do ditador em leituras precipitadas a partir de Roland Barthes. Debruçadas somente em caracteres discursivos, históricos e culturais, seria necessário matar o detentor de uma mensagem a ser sublimada. Seria necessário ao leitor requisitar o lugar de fala. Cheguemos ainda à instituição do cânone, lugar de validação dos mortos perpetrados pelos vivos. Pois bem que ao leitor foi dado o lugar de fala e de criticidade, em tal conta que se duvida de tudo e de todos e, pasmem, inclusive da ciência. Esta linha mestra da voz e do diálogo, da existência do corpo e da vida.

Se o século XXI e a pandemia negociam novos valores (inclusive econômicos), o leitor haveria mesmo de sofrer um piparote, como dissera Machado de Assis? Para quê tanta conversa com tal entidade ficcional se nada que ele pensa interfere no curso da narrativa? Novos leitores então (como sobreviventes em processo de seleção natural) tornariam novos os textos, precavidos de novas formas em estado de construção das próprias autorias? A materialidade do texto seria divisória como a atestar uma ficção unívoca consigo mesma, em apropriação do “Eu” estável daquele que escreve? O autor como ficção pertence, de fato, somente àquele “Eu” que escreve? (Lembremos novamente de Borges)

Peguem das reflexões machadianas em torno do autor morto que escreve as memórias póstumas e visitem comigo o camarote nº 5 de O fantasma da ópera[3]. O romance nos informa que a morte, ali, estava em toda parte. “Ela também transbordava da terra, que regurgitara o excesso de cadáveres.” (2019, p. 86). Digo isso, sem ainda entrarmos no camarote, para avisar que nas terras onde a cantora de ópera Christine caminhava na juventude o odor chamativo das rosas vermelhas era intenso e parecia milagroso – mesmo em tempos de neve.

Christine, segundo os olhos do amigo de infância, possui “a ternura melancólica” que seus olhos expressam com clareza. O senhor Daaé, pai da moça, já havia discorrido muitas vezes sobre o Anjo da Música:

Nunca vemos o Anjo, mas ele se faz ouvir para as almas predestinadas. Isso se dá, geralmente, nos momentos em que elas menos esperam, quando estão tristes e abatidas. Então o ouvido subitamente percebe harmonias celestes, uma voz divina, e nunca mais se esquece disso. As pessoas que são visitadas pelo Anjo são como que inflamadas por ele. (2019, p. 80)

A menina, já então órfã, cresce acreditando um dia formar o dueto para quem doará a própria voz, passando por sucessivas mortes como ela mesma diz. Convido vocês a entrarem no camarim nº 5 porque é de lá que muitos podem escutar e sentir a presença do Fantasma, que lá habita, e a quem a visão é assentida somente à Christine – que afirma recebê-lo em seu camarim diariamente para as aulas. Ao conhecer a história, Raoul, amigo de infância enamorado da moça, tenta removê-la da ideia sobre os encontros misteriosos com o Fantasma. Estaria ele certo? Raoul quase nos convence sobre escutar a voz do Fantasma – escolheria este ir ao encontro do “rival” por vingança ou continuaria preocupado em trançar as malhas do seu gênio?

Não gostaria de lhes entregar o fim da narrativa, apesar de prever que muitos já a conheçam. Pergunto-me: o gênio da música deveria de fato abandonar a voz da cantora de ópera? Seria Christine uma moça ingênua, pura e idealizada, tal qual os moldes românticos, ou o narrador ganha a forma do fluxo de consciência de Raoul?

Nos apropriemos de relance do narrador impiedoso com a Paris que o cerca:

Quem não tiver aprendido a pôr uma máscara de alegria sobre suas dores e o disfarce da tristeza, do desgosto ou da indiferença sobre sua alegria íntima nunca será um parisiense. Se você descobrir que um de seus amigos está prostrado, não tente consolá-lo: ele dirá que já foi reconfortado. E, se acontecer algo de bom para ele, evite felicitá-lo: como acredita ter boa sorte natural, ele ficará admirado que alguém lhe fale sobre isso.

No camarote ou no camarim, Christine espera o Fantasma para subir no palco, prepara-se. Por quanto tempo irá durar a extensão de sua morte? Ela o aguarda, sente-se escolhida. A quem interessa a morte do autor? Pergunto-lhes. Em instinto de sobrevivência, o autor já não é mais o que assina, mas aquele capaz de se apropriar de um “Eu” outro: narrador-observado. Estaria o Fantasma-autor, como um escritor das memórias, entregue ao dueto? Christine confiaria a sua voz ao rosto sem máscara?

O vírus pandêmico, em seleção natural, reverte os sentidos. Reivindica novos laços familiares. Desprovido de máscaras, tal qual Brás Cubas, o autor estaria pronto para dividir a morte com o leitor?

O meu autor e eu estamos numa cavalgada ambígua, como denominou Antonio Candido em leitura que faz de “Meu sonho”, de Álvares de Azevedo. Diz ele:

Este poema é escrito como se fosse um diálogo de figurantes marcados: “Eu” fala na primeira pessoa, dirigindo-se a um cavaleiro, que adiante é denominado “O Fantasma”, e responde satisfazendo a sua curiosidade.

“Eu” vê esse cavaleiro revestido de couraça escura a galopar num vale também escuro, levantando poeira e despertando o grito dos mortos, enquanto um fantasma lhe morde os pés. (…) O observador, situado em posição ideal, quer saber aonde vai, quem é, por que manifesta sofrimento e por que vaga pela noite cheia de assombramentos;  e chega a supor que seja encarnação de um remorso. Essa hipótese, feita em forma interrogativa, não satisfaz, pois subsiste no “Eu” o sentimento de estar ante um mistério maior, até que sua pergunta angustiada seja respondida pelo “Fantasma”: este diz então que é o sonho da sua esperança, a sua febre sem repouso, o seu delírio sem solução. (CANDIDO, 2005, p. 39)

Antonio Candido me entrega a sintaxe organizada pelas tonalidades do poema de Álvares, eu coordeno a cavalgada de acordo com o meu intuito, a semântica inventa caminho diferente. Modifiquemos o léxico. Aqui, o “Eu” funciona como percepção do autor externo a ele e tece o assunto em tempo presente (tempo narrado). Meu autor e eu produzimos o ato de mostrar o drama realçando-o convulsivamente. O fantasma é macilento, ganha corpo e construímos uma anatomia. Encomendamos algumas partes anteriores, de origens diversas. Para tanto, é preciso isolar as estruturas e estudá-las com calma. É preciso que todo o sistema do organismo morto seja suspenso constantemente por perguntas de modo que a atitude perplexa reivindique a vida. Sendo assim, o meu autor, não satisfeito, e diante da dúvida, lança voz onírica para que abandonemos a horrível caverna que habitamos. Invade minha mente. Aqueles que viram somente suas máscaras fugiram de medo. Agora, eu encaro as máscaras e é a nossa voz que escuto.

“- O seu espírito e a minha voz…

– O meu espírito e a sua voz…

em um combinado”

O problema é complexo tal qual a teoria dos conjuntos de Georg Cantor, fundamental para a anatomia do meu fantasma. Em dispositivos históricos pessoais, o meu autor provoca novos dispositivos de composição na histórica do meu “Eu”, legitima uma profusão de certidões de nascimentos para os textos que produzo. A anatomia do nosso corpo sofre mutações e difunde textos mantidos em arquivos inacabados a se montarem futuramente pelas faces multicoloridas de um cubo de Rubik.

 

Referências Bibliográficas:

CANDIDO, Antonio. “Cavalgada Ambígua”. In.: Na sala de aula: caderno de análise literária. São Paulo: Ática, 2005.

CHARTIER, Roger. O que é um autor? Revisão de uma genealogia. Tradução: Luzmara Curcino; Carlos Eduardo de Oliveira Bezerra. São Carlos: EdUFSCar, 2014.

FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Vega-Portugal, 1992.

LEROUX, Gaston. O fantasma da ópera. Tradução: André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2019.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

[1] Termo cunhado pelo filósofo Achille Mbembe ao questionar o Estado sobre a escolha de quem deve viver e quem deve morrer. O ensaio chega ao Brasil em tradução somente depois de quinze anos de vida, em 2018, pouco tempo antes da culminância ditatorial que, para além dos limites político-partidários, se instaura pelas vias de um vírus, de um inimigo invisível.

[2] Expressão usada pela tradutora Luzmara Curcino em apresentação ao O que é um autor? Revisão de uma genealogia , de Roger Chartier.

[3] Romance francês inspirado em histórias da Ópera de Paris no século XIX. Movidos pelo passado enigmático do fantasma, os leitores são levados por um labirinto teatral em que – por meio de horror e música – ele constrói sua forte presença pela voz de Christine Daaé.

Redação

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