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8ª edição – Artigo: “A disputa do mercado literário” – Erick Bernardes

By Redação no fevereiro 25, 2021
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A disputa do mercado literário

Erick Bernardes

Você recorda que o Brasil já foi destaque na feira de Frankfurt, Alemanha, devido ao seu notável crescimento no mercado editorial?  Pois é, nem parece que fomos homenageados, dada a atual situação em que ainda vivemos. Por que cito esse fato passado?  Explico: é que já faz tempo que nós brasileiros nos deparamos com obras literárias cujos enredos exploram os problemas sociais causados principalmente pela desigualdade econômica, como se fossem apenas matéria fantasiosa aos olhos dos leitores de outros países. Mas naquela Feira de Frankfurt, por exemplo, o caso deu pano pra manga, pois a participação do Brasil se revelou bastante polêmica, quando ficou evidente aos estrangeiros o paradoxo de sermos um país em franco crescimento econômico, mas que ainda mantém problemas que há séculos se perpetuam, como é o caso do saneamento básico e da ineficiência do transporte público.

Apesar de ter sido criticado por uns e elogiado por outros, o escritor Luiz Ruffato mostrou a que deve a sua escrita, ou seja, Ruffato escreve em suas obras aquilo que o incomoda como cidadão. Em entrevista à Reuters, durante a feira literária na Alemanha, o autor de Eles eram muitos cavalos (2001), fala sobre o Brasil e “descreve o caos, violência, miséria e decadência de São Paulo”. Sua escrita “realista” desnuda o país vestido para estrangeiro ver. “As palavras de Ruffato contrastaram fortemente com o discurso oficial do governo brasileiro, focado no rápido crescimento econômico e na oportunidade para todos”.

Ao falar da sua obra, Luiz Ruffato toca em um ponto crucial para a nossa discussão, o escritor “quase não enfatiza os clichês sobre o Brasil moderno – a cultura de praia, carnaval e caipirinha. A realidade abordada por ele é diferente”, é o que ele vê, “e não é bonito”. Nós poderíamos ir mais além, ou melhor, retroceder ainda, porque os clichês não são modernos, são da época do romantismo no Brasil. Segundo Antonio Candido, são tendências acentuadas que vêm desde “o século XVIII, quando se instalou o culto da sensibilidade, (e) os românticos chegaram ao subjetivismo sentimental mais indiscreto” (2004, p. 80).

Esse culto ou exaltação das belezas tropicais não combina em nada com o que vemos por aqui. O próprio Luiz Ruffato disse à Reuters que é filho de um vendedor de pipocas e de uma “lavadeira analfabeta”. E, que já “ficou sem dinheiro, dormiu no chão de uma rodoviária por um mês e choca seus compatriotas quando diz que essa ainda é a realidade do Brasil, mesmo com o país se tornando uma potência econômica (…) nós somos um país paradoxal”, afirmou (2013).

Tomamos como mostra, do tempo em que esses problemas se arrastavam, e ainda se arrastam, quando lemos uma obra literária de anos atrás e parece-nos que nada mudou, que estamos às voltas com a mesma “realidade” dolorosa. Por esse motivo, trazemos à discussão dois subcapítulos do livro Garranchos (2013), de Graciliano Ramos, organizado por Thiago Mio Salla. Nestes textos (Célula Dreiser I e Célula Dreiser II) Ramos discute os problemas de cunho sócio-cultural e a importância do profissional das letras para o Brasil. Importância que pelo visto, alguns dos nossos representantes na feira alemã demonstrou ter ignorado.

Apesar da Ministra da Cultura Marta Suplicy e do cartunista Ziraldo protestarem acerca do discurso “realista” de Luiz Ruffato, a alfinetada contra a alegorização brasileira teve seu lado positivo. Ainda que, em entrevista concedida a Sonia Racy e Thais Arbex, do Jornal Estado de São Paulo (21/10/2013), a Ministra da Cultura tenha dito que “em Frankfurt o Brasil deixou de ser aquele país colorido”, e lamentado “o discurso de Luiz Ruffato, a ausência de Paulo Coelho e as críticas à seleção dos escritores pela ausência de negros e aos R$ 18,9 milhões investidos na Feira de Frank”, Marta Suplicy disse: “O Brasil entrou na fita. Não sei se da melhor maneira, mas certamente não como pensávamos. Segundo o presidente da Feira, Jürgen Boos, o Brasil deixou de ser um País colorido onde ninguém trabalha”. Tal declaração de Boos desmistifica a nossa imagem pintada lá fora, de inocência e de país do carnaval.

Panela na cabeça

Ao falar dessa visão ultrapassada que se tinha (e ainda se tem) dos intelectuais brasileiros, Graciliano Ramos – em Garranchos (2013) – protestava contra a imagem romântica que, não só os estrangeiros, mas nós mesmos, temos do profissional das letras no nosso país. Segundo ele, somos também responsáveis pela imagem de “oba-oba” que há em relação aos brasileiros, e reclamava dizendo que, acreditava “não cometer ato de indisciplina quando reivindicamos, para nós, tratamento igual ao que recebem outros profissionais” de qualquer outro lugar (RAMOS, 2013, p. 287). Conforme no “Discurso à célula Teodoro Dreiser II”:

Devemos, entretanto, reconhecer que os maiores culpados por essa situação somos nós mesmos que, devido ao excessivo personalismo, à nossa incapacidade de organização, não soubemos (…) fazer aceitar como profissão nosso trabalho de escrever. O mal vem de longe, desde a época em que muito se falava em “arte pela arte” e em que a literatura constituía ainda, para a grande maioria, mera ocupação subsidiária ou passatempo para as horas vagas. Hoje porém, (e já naquele tempo alguns escritores) muitos dos nossos vivem realmente de sua pena, e mesmo os que dela não tiram a sua manutenção, consideram o trabalho de escrever como a sua atividade principal, a mais importante, levando-a muito a sério, respeitando-a, reconhecendo-lhe toda a dignidade e os direitos inerentes a uma verdadeira profissão. Mas, de qualquer forma, não vencemos ainda os preconceitos gerais” (RAMOS, 2013, p. 287).

Nesse sentido, Ramos não poupava esforços para desconstruir essa imagem, criada numa época em que o índio assumiu o foco alegórico, para que pudesse refletir uma identidade nacional carnavalizada. A sua estética denunciava essa falsa exposição romântica que se tinha (e se tem) de nós comunicadores, enfatizando um tom mais “realista” das obras.

Se nos abalançarmos a reproduzir um carnaval, não exteriormente, mas o interior dele, a bagunça que turba os espíritos, com certeza manejamos serpentinas e lança-perfumes, gritamos, bebemos chopes, declaramos tolices, perdemos a cabeça; quando escrevemos, porém, não conservamos a máscara no rosto, não nos atordoa o cheiro do éter, estamos livres da influência dos cordões. Ninguém pensará que formamos uma passagem de romance trepados num automóvel, sob nuvens de confete, ouvindo berros e toques de clarim (RAMOS, 2013, p. 278).

Assim, o ato de escrever era para Ramos também lugar de atuação. A valorização do trabalho intelectual foi tema recorrente em seus discursos políticos e conferências. Para ele, a profissão de escritor e professor deveria ser valorizada. O autor de Memórias do cárcere se considerava um artista que buscava evidenciar a “realidade” brasileira, ainda que não fosse bela e fantasiosa. Apesar de ter sido escrito no século passado os trabalhos de Ramos denotam contemporaneamente a dureza do cotidiano do nosso povo (como aquela levada à tona lá em Frankfurt por Luiz Ruffato), e não o “Brasil colorido” e romântico pretendido pela ministra Marta Suplicy e o “pai” do Menino Maluquinho.

O questionamento feito por uma jornalista estrangeira, logo na abertura da Feira de Livros de Frankfurt, causou impacto. Segundo o jornal Observatório da imprensa (14/08/14), na seção Armazém Literário, na matéria “Brasil em edição revista e ampliada”, reproduzida do Valor Econômico (27/09/13), a jornalista “presente na coletiva de imprensa na Alemanha, fez a pergunta que causou surpresa, mas nunca será improvável: ‘Onde estão os autores índios?'” A essa pergunta, o próprio jornal Valor Econômico responde:

Há um índio. Um dos que viajam para representar o país na maior feira de livros do mundo é Daniel Munduruku, que expressa sua etnia no sobrenome, com mais de três dezenas de obras para o público infantil, parte já traduzida no exterior. No entanto, apenas um não é medida razoável e o curador Manuel da Costa Pinto teve de explicar por que são poucos os índios como autor ou tema. (AGUIAR, 2013)

Entendida como uma crítica ao Brasil, cujas minorias não têm muita chance de mudar a sua própria história de marginalização, ninguém pensou em questionar à nação anfitriã: onde estão os escritores pomeranos da Alemanha? Comunidade marginalizada, assim como as nações indígenas no Brasil (guardadas as devidas proporções), a Pomerânia que, já teve um dia cultura e língua diferentes do modelo tradicional alemão, nem sequer é mencionada nos livros de história daquele país.  Porém, voltemos para o cerne da questão. Curiosamente, a pergunta acerca das minorias indígenas brasileiras traz à tona outra problemática, aquilo que já está arraigado no pensamento estrangeiro, ou seja, o senso comum, que vê no índio estilizado como a imagem da nação. Pensamento do início do século XIX, que ainda é presente na ideologia que se criou, em relação aos sulamericanos mundo afora.

Segundo a escritora Ana Beatriz Barel, em sua obra Um romantismo a oeste (2002), alguns problemas ainda geram inquietações, como as tênues mudanças “dos contornos desse país fortemente ancorado numa estrutura econômica (de aspecto ainda) colonial”. Esses problemas são atualíssimos, e “convidam os intelectuais a novas formas de reflexão e a novas temáticas, desobrigando-os, se podemos dizer assim, de repisar os louvores à nossa tropicalidade paradisíaca e nosso exotismo”, passando a incluir a fatura de temas realmente caros a nossa sociedade (BAREL, 2003, p. 209). Nesse sentido, o próprio Graciliano Ramos (2013) dá as dicas acerca da tematização da obra, imbuída de ideologia verdadeiramente condizente com o nosso cotidiano, porque “não somos românticos – e naturalmente desejamos destruir muita coisa. Outros usarão mais tarde o prumo, o nível, a colher de pedreiro. O nosso instrumento agora é a picareta. Mas está visto que não nos serve qualquer picareta” (RAMOS, 2013, p. 280). Assim, em boa síntese:

Cairemos então no idealismo? Não cairemos: naturalmente a coisa externa preexiste, para nós, e a interna é apenas um reflexo dela, imagem com certeza deformada. Evitamos as deformações voluntárias. Contudo, por muito realistas que sejamos, não temos a pretensão de apanhar a realidade pura. Dela sabemos o que os nossos nervos transmitem, mas como a experiência alheia não nos desmente, apossamo-nos de uma pequenina verdade relativa, verdade contingente e humana, aceitamos o céu azul e os montes verdes, enojamo-nos à passagem dos caminhões de lixo da Prefeitura, declaramos horrível o pão atual (RAMOS, 2013, p. 279)

Obviamente, tal naturalização da imagem pintada sobre um quadro em “céu azul e montes verdes”, é herança de uma colonização do Novo Mundo em busca do Eldorado. Tanto assim, que parece, pelo que foi visto no evento literário da Alemanha, por ter o Brasil como convidado e, devido ao nosso crescimento no mercado consumidor (sobretudo editorial), que o Eldorado continua, mas agora em nível global e midiático, visto que tivemos a honra de sermos homenageados como país convidado, motivado pela nossa expansão de consumo literário. As picaretas civilizadoras continuam a abrir caminho pela literatura, pela arte, conforme prenunciado por Ramos. Enfim, estão de olho em nosso poder de compra, realmente nesse sentido somos um novo Eldorado.

Quando vemos o organizador da Feira Jurgen Boos elogiar o Brasil, somos tentados a acreditar que estamos ascendendo culturalmente. Contudo, conforme Graciliano Ramos, é “necessário conhecermos a razão dos nossos entusiasmos, não nos comovermos à toa” (RAMOS, 2013, p. 294). Um modo de desconfiança evocado pelo autor de Vidas secas, é abrir os olhos para a situação cultural do nosso país. Ramos via na obra literária trabalho árduo, “realisticamente” focado no esforço do intelectual, “antes de vermos no livro um veículo de cultura, devemos considerá-lo (…) mercadoria” (RAMOS, 2013, p. 294), não nos darmos a falsos romantismos.

Assim, “evidentemente ele (o livro) não é uma graça de Deus, como a luz do sol e a água da fonte: encerra o esforço de numerosas pessoas, do trabalho complexo do autor à rija labuta do impressor” (RAMOS, 2013, p. 293). Ou seja, o crescimento cultural requer esforço consciente das muitas dificuldades que ainda temos. Conforme disse Ruffato na Alemanha: “O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso.” (ESTADO DE S. PAULO, 2013).

Comprometimento intelectual sim, porém sem lugar para ilusões, somos um país crescente culturalmente, mas que ainda se encontra às voltas com violências e discriminações em todos os sentidos. Como discursou Ruffato, resgatando as origens das raízes do Brasil: “Nascemos sob a égide do genocídio (…) Se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos” (ESTADO DE SÃO PAULO, 2013), realidade nada romântica por sinal.

O escritor e cartunista Ziraldo também teve participação na cena cultural de Frankfurt. O autor de O menino maluquinho não gostou da fala de Luiz Ruffato. Segundo o Estado de S. Paulo (8/10/2013) o cartunista “considerou-a inapropriada. ‘Aqui não era o lugar. Ele deu todos os dados da miséria brasileira, que encontramos no Google. Se fosse em Doha, tudo bem’, comentou, referindo-se ao Fórum Econômico Mundial'”. Naquele evento, ao que parecia, o caricaturista expunha sem perceber, e de modo subjacente, a visão da carnavalização do discurso moderno. Nesse viés, Mikhail Bakhtin (2010, p. 144) diria que a imagem carnavalesca engloba duas visões que evidenciam uma crise, elas englobam “elogios e impropérios, mocidade e velhice, alto e baixo, face e traseiro, tolice e sabedoria (…) É típico ainda o emprego de objetos ao contrário: roupas pelo avesso, calças na cabeça, vasilhas em vez de adorno nas cabeças, utensílios domésticos como armas, etc.” (2010, p. 144). Enfim, o exagero e a excentricidade da cosmovisão do locus amenus ou o lugar utópico do todo colorido.

Segundo a jornalista Maria Fernanda Rodrigues, assim que Ruffato encerrou o discurso, “a plateia começou a aplaudir”, mas Ziraldo com o “dedo em riste, disse: ‘Não tem que aplaudir!'”. Curioso que, acostumado a colorir o mundo ficcional, o “pai” do personagem que usa uma panela na cabeça, não gostou do “mundo em preto e branco”, denunciado pelo ex-torneiro mecânico e autor de Eles eram muitos cavalos. Contudo, o cartunista gostou da palestra de Ana Maria Machado, que ao se pronunciar, “sugeriu que a plateia não procurasse exotismo e confirmação de clichês na literatura brasileira”. Enfim, a autora parece ter escolhido as cores certas para dar o tom do seu discurso, equilibrou os argumentos.

Lugares e não-lugares

Os interesses discutidos na Feira de Frankfurt mexeram com os ânimos também por aqui. Isto porque, segundo Zygmunt Bauman (2014), vivemos numa pós-modernidade que é fluida. Qualquer pequeno movimento econômico, político e cultural provoca ondas que movimentam os interesses da “macroestrutura” social. Neste sentido, devido às constantes mudanças e à mobilidade que a globalização nos proporciona, o escritor contemporâneo se vê em crise, obrigando-se a se adaptar e articular ao mesmo tempo o seu papel de intelectual e de produtor de uma mercadoria que é literária.

Somadas a essas questões que trouxeram à tona, lá na Alemanha, o multiculturalismo mercadológico da literatura, o grupo de estudos Nação e Narração, da Universidade Federal Fluminense, sob a coordenação da Dra. Lúcia Helena e do Dr. Paulo César Oliveira, no XII Seminário Nação-invenção, teve como tema “O empobrecimento do debate intelectual: Escritores, críticos e leitores fora do lugar”, cujo título vai ao encontro do que disse em uma entrevista o crítico Luiz Costa Lima, com referência ao seu livro Frestas (2013) e a declaração do escritor Ziraldo em Frankfurt acerca da palestra do romancista Luiz Ruffato já mencionada anteriormente: “aqui não é o lugar”.

Assim, no próprio material de divulgação do seminário supracitado vemos que, segundo Costa Lima, existem quatro motivos prejudiciais ao debate intelectual, “a falta de tradição dessa atividade no Brasil; o analfabetismo generalizado; a existência de um círculo vicioso de banalização dentro da própria universidade; e, a presença de um compadrio que (…) prejudica o debate público, os concursos e o ensino”. Portanto, indagamos, se o ambiente criado para que a literatura ocupe a cena das discussões não for o lugar, onde mais poderemos discorrer e cogitar sobre o papel do escritor nos tempos de hoje? Em boa síntese, a orelha do folder do XII Seminário Nação-invenção nos leva a cogitar que:

O mercado e seu dirigismo afetam também o debate intelectual. Mercadoria desde o romantismo, a literatura parecia ao leitor lavra da consciência individual que, evidentemente, criava um protocolo de gosto para estimular o mercado e a leitura de suas obras, uma vez que os escritores românticos se defrontam com o esgotamento do mecenato, pela criação do novo contrato social burguês, baseado na iniciativa privada. Com o passar do tempo e a mudança de interesses do processo econômico social, a burguesia se afasta da literatura, na qual encontrara um alicerce de formação. Desde essa quebra de aliança, a situação da literatura e a sua relação com o mercado se torna mais problemática (…) indaga-se: de que modo ocorre, na atualidade, o impulso para a criação? Como vivem entre si o escritor, a veiculação da sua escrita em face das forças glutonas do mercado (NAÇÃO E NARRAÇÃO, 2014, p. 2).

Nesse sentido, podemos compreender o espaço de discussão intelectual como uma espécie de “ágora”, espaço que também está aberto à teoria, porque, parafraseando Antoine Compagnon (2014), procuramos desconfiar do discurso como os que vimos na Alemanha que queria ver as “cores bonitas desse nosso Brasil”.

Ao “reclamar” a crítica de Ruffato em Frankfurt, espaço da discussão que deveria servir para isso, Ziraldo evidencia um sintoma que infelizmente se mostra cada vez mais latente, “o espaço público está cada vez mais vazio de questões públicas. Ele deixa de desempenhar sua antiga função de lugar de encontro e diálogo sobre problemas privados e questões públicas” (BAUMAN, 2014, p. 55)

O crítico de hoje, deve saber questionar as ideologias e suas “verdades”, e evidenciar as suas condições de possibilidade, questionando o discurso que não faz senão legitimar essa prática com uma mentira. São traços dos quais podemos considerar sintomas contemporâneos, consciência crítica do escritor, que reflete sobre a sua condição pós-moderna; traços esses que se referem, na realidade, à modernidade (ou pós-modernidade), reagindo contra práticas discursivas e buscando desnudar o que há por trás da fala dos articuladores de exposições e eventos literários, como se viu na Feira de Frankfurt, tomada aqui como exemplo de discussão.

Considerações finais

O intelectual de hoje sabe da difícil tarefa que tem pela frente. Um compromisso do escritor na sociedade contemporânea que, conforme as palavras de Bauman (2013), vive sob “o risco do desprezo”, porque existe um abismo crescente que “não pode ser transposto apenas por esforços individuais (…) Pode-se supor que o abismo em questão emergiu e cresceu precisamente por causa do esvaziamento do espaço público” (p. 53).

Espaços como estes, de discussão, são cada vez mais raros. Por isso, a Feira Literária de Frankfurt mostrou a importância de se levar a público discussões que permitem a articulação das ideias e, consequentemente, discutir a própria literatura sob o panorama mercadológico. De modo sintético, Bauman dirá que: “Como sempre, o trabalho do pensamento crítico é trazer à luz os muitos obstáculos que se amontoam no caminho da emancipação” (BAUMAN, 2014, p. 68).

Assim, as discussões realizadas lá contribuíram substancialmente, não só nos jornais e revistas mundo afora, mas, inclusive, para as ideias desenvolvidas neste nosso trabalho. Visto que, apesar de fluida e volátil, a pós-modernidade é sobretudo dinâmica.

Nesse sentido, a contemporaneidade articula a tradição, mas precisa do novo para sobreviver. Por esse motivo, nos interessam os debates intelectuais, pois é esse o nosso espaço, porque, enquanto profissionais que somos, ainda que sob as condições cambiantes, temos a consciência, acima de tudo, de sermos sujeitos sociais e políticos. Escrevemos, criamos mundos ficcionais, mas sem perder de vista a realidade que nos cerca, através da pesquisa, da crítica e da criação literária propriamente dita.

 

Referências

 

BAUMAN, Zygmun. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.

BAREL, Ana Beatriz Demarchi. Um romantismo a oeste: modelo francês identidade nacional. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2002.

CANDIDO, Antonio. O romantismo no Brasil. São Paulo: Humanitas, 2004.

RAMOS, Graciliano; SALLA, Thiago (org.). Garranchos. Rio de Janeiro: Record, 2012.

RODRIGUES, Maria Fernanda.  Escritor critica desigualdade no Brasil e divide opiniões em abertura da Feira de Frankfurt. Frankfurt: O Estado de S. Paulo (08/10/2013 – 19h 07). http://estadão.com.br/diretodafonte (acesso em 21/10/2013).

Observatório da Imprensa: http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed766_brasil_em_edicao_revista_ e_ampliada (acesso em 22/09/2014).

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

2 Comentários
  • Eduardo Maciel 7 meses ago

    Excelente artigo, que se debruça sobre os diversos paradoxos do Brasil, num olhar mais focado nas diferentes “mensagens”, públicas e/ou privadas, que buscamos passar. Aliás, não menos excelente foi o trabalho de pesquisa. Mas não esperaria menos do grande Erick Bernardes, a quem tenho o privilégio de chamar de amigo. Mas deixando Frankfurt, Ruffalo e panelas de lado, o texto me trouxe a inquietude, de um operário da literatura que sou, sobre o quão apegada à realidade ou não deva ser a inspiração criativa. Tem muita gente que escreve no Brasil para leitores brasileiros. E tem aqueles que focam no exterior. Outros, como observo ser o caso de Ruffalo, foram “descobertos” lá fora. E viram o quanto distante era o relato dessa “descoberta” em comparação com os relatos perpetuados nos tempos do Sr. Pedro Álvares “vocês já sabem o resto”. Enfim. Eu acho que o nosso maior complexo, que nos impede de avançar em várias áreas, é essa nossa velada necessidade coletiva de sermos descobertos e redescobertos. A cada passo.

  • Um excelente artigo que traz a tona questões sobre a identidade brasileira e a produção literária e (porque não?) das outras manifestações artísticas na Terra Brasilis. 0 maior pais da América do Sul vive eterna crise de identidade. Somos (conforme dito no texto) paradoxais, antitéticos (talvez antiéticos).
    Qual seria o “papel” da literatura na contemporaneidade? Onde estão as vozes dos não-europeus? Dos não norte-americanos? Onde está situado o Hemisfério Sul e seu maior país? Onde está a língua portuguesa e seu maior quantitativo? Enfim… Erick Bernardes traz a nós esses questionamentos. Uma leitura necessária cujo conteúdo desejo ser em breve cousa dum passado neocolonial (mal)disfarçado ora nas cores alegres e festivas do Carnaval, ora num panorama cinzento duma realidade áspera de tanto tempo de violência social.

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