setembro 20, 2021
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7ª edição – Conto: “Se…” – Carina Lessa

By Redação no dezembro 24, 2020
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Se…
Carina Lessa

Para meu querido amigo Cláudio Lemos

Cortei as rosas. Fui até o canteiro do prédio e sorrateiramente cortei as rosas. Nossas doenças continuam esterilizando a juventude. Distraída do percurso até o apartamento, observava as rosas meio opacas. Era como se pudesse auscultar o coração das flores. E quanto mais sentia a vibração, mais subiam as notas e também o ensurdecedor escuro. Uma sorte ousada de prever a tremura e o rugir das matas. Tudo isso eu experimentei meio anuviada sem pertencer ao chão cimentado no qual pisada. A dor sem fim e ondulante a que alguém um dia chamou de tédio. A respiração subindo ofegante, descontentando o peito meio parado.

Acredito que todos já tentaram um dia olhar bem perto o rosto de uma pessoa, você se sente tão perto d’água, que se curva de forma inesperada. Ouve uma freada distante e prevê a ferida aberta. Desce um gole do seu interior e espera o rosto apagado, ele não chega.

Havia assumido o sistema automático e não entendia o meu corpo quando me aproximei da porta de entrada. Diante do susto repentino, atormentou-me uma lembrança terrível: minhas rosas falam, descansam o inimigo e contrastam o azulado da cortina da sala. Arranjei-as no vaso sobre a mesa. Morava sozinha.

Acendi o incenso de cravo. Deitei no sofá. Olhei o teto com a mandala enquanto irradiava do centro seus múltiplos quartetos. A pupila absorvida pelo mosaico das luzes. Dançavam as cores. Cada ponto do corpo, desde os pés, salpicava uma sensação calorosamente fria e condensada. Do centro, nascia o azul que se expandia em novas composições um tanto rosadas, floridas e, logo, avermelhadas. Esmoreceram em densidade amarela com triângulos infinitos. Pitangas se ampliavam e se encolhiam adormecendo os músculos catalisadores. Subitamente, o enjoo. E tudo ficou esverdeado.

Flores Maldivas.

Mantas-raias. Som encantatório. Figuras concêntricas. Tudo negro ou acinzentado. A chuva começou a cair. As imagens vão abrindo seres humanos de mãos dadas até se apagarem. Num segundo, são caveiras ou ancas. Na verdade, bacias sentadas num mundo roxo ou azul. Volto às flores. Estão mortas? Dançavam à mesa, arranjei-as no vaso e contrastam com a cortina da sala. O gosto acre na boca e o frisson em dor lancinante.

Dizem que as histórias acontecem para serem narradas. Acreditamos que umas se perdem e outras, enfim, são revividas, enquanto são escritas. Estou de corpo presente. Esmoreço. Sou bolinha de mercúrio. Talvez a campainha soe. Não a vejo. Os grupos de cores vão se agigantando e caminho em direção à cidade inventada. Escuto diários e invento um sorriso todo meu. São diários-cartas. Respostas inoportunas e imprevisíveis. Escrevo-as. Muitas vezes aparecem tediosas. São escritas por viajantes, inventadas pelos tímidos de visitação. Não tenho borrachas. E-mails-roupagens se entregam a meditações. Atos exteriores nada corretos. Rebeldes com causa bem definida e tão perfeita quanto insidiosa. Não reconhece o corpo sobre o qual fala. Coragem de se aventurar pelo desconhecido por meio de palavras tão clichês como a verdade do corpo alheio, multicultural.

Despeço-me.

Despeço-me mil vezes na tentativa de me requisitarem a presença.

Irradia o escuro.

Súbito, pego as almofadas e as abraço. Tento apertá-las tão fortemente que chega a doer. Os pensamentos em excesso não dão conta do que quero. Sem ferir? Sem magoar?

O telefone toca. Percebo nele uma tentativa de salvação. Poderia me sentir aliviada, leve. Aérea?

Anônima, uma voz me sopra os anos cansados, me perguntam sobre a liberdade insistente. Um espelho atravessa a passagem para o outro lado. Vejo roupas em malas de viagem e um convite para o universo.

– Quem diz eu?

A cada dia tenho e sinto o personagem. Importa dizer, para reconhecimento do eu, quantas vezes ele se manifesta em forma de repetição. Extensão daquilo que me (co)move. Ativa os sentidos, que são eu? Caberia aí o sexto e o sétimo, não os denuncio.

Meu corpo é 1, 2, 3… 365 dias. Seja em diário pessoal, crônica, conto, romance, conversa e, por quê não? Em e-mail.

-Quantas vezes tu é capaz de ser eu?

Os personagens têm valor de exposição, dizem que perderam a aura em processo de vida democrática. Clarice buscava o it, que não cabe na língua portuguesa. Por aqui, o personagem pergunta quantas vezes tu é capaz de ser eu performática e indistintamente. O valor obsessivo de culto é expresso na escrita do “se”.

Se tu fosses eu…

Se eu fosses tu…

Troca ir(remediável) no corpo.

Sê uma vez tu.

Sê uma vez eu.

Pergunto-nos: quantos personagens o órgão reprodutor do se/sê do protagonista tem coragem de nos consumir?

O corpo da palavra / O corpo do artista / O corpo do cidadão des(gramaticalizado) da branquitude camoniana. Embranquecido pelos versos simbolistas de Cruz e Sousa.

Se / Sê a Literatura

Se / Sê o corpo sem roupa

Se / Sê travestido do corpo alheio, já agora de(formado).

Duas faces elegidas pela noite do tempo. Sem desaparecer. Desconfiadas da franqueza contemplativa. Corpo delgado pelas nuvens e pela xícara de café. Uma única voz entre as nossas mãos.

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

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