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7ª edição – Conto: “A vida íntima de Clarice” – por Lívia Penedo Jacob

By Redação no dezembro 24, 2020
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A vida íntima de Clarice

Conto de Lívia Penedo Jacob

Eram seis da tarde, hora que o sino da igreja nunca tocava. O padre tampouco aparecia, morava em outra paróquia e, por costume, o povo da cidadezinha rezava a missa sem sacerdotes, absolvendo ou condenando os pecados alheios, além de prestarem extrema unção aos enfermos. Não era, pois, segredo que a porta do santuário estivesse sempre aberta até mesmo aos forasteiros: o altar não possuía elementos que despertassem qualquer desejo, toda a capela era pobre, improvisada, de modo que raramente recebia visitas de gente de fora.

Laura era exceção. Desde que chegara ao lugarejo vivia enfurnada na capela, onde passava mais de hora sozinha, perdida dentro de si. Às vezes, chegava ao extremo de pensar em absolutamente coisa alguma. Encontrou na igreja um esconderijo, para onde era possível varrer tanto os velhos fantasmas como as inaptidões recém-descobertas: se ontem era capaz de escalar montanhas com destreza, agora o cansaço se apossava até dos fios de cabelo grisalhos. A tintura não pegava como antes e, na cabeça, mechas muito brancas se perdiam entre tons desbotados, tudo contrastante com a pele marrom, ainda macia. O doutor Alberto deve ter razão, chegou o tempo da reposição hormonal. Se o sol nasce para todos, também deve se pôr. Como sentiram aquele momento sua avó, mãe, tias? Não sabia, ninguém nunca lhe tinha contado.

Faltava pouco para escurecer quando saiu da igreja. Não existia outro destino possível que o retorno à pousada, onde o dono lhe serviria um café recém-passado. O velho andava sempre calado, imerso em mistérios, de modo que, se por um lado poupava os hóspedes de censuras, mantinha todas as dúvidas possíveis sobre suas impressões. Amanhã eu consigo subir a montanha, dizem que a vista de lá é lindíssima, Deus é mais, pensava a bibliotecária, aposentada antes da hora, mais por Providência que por Previdência porque, afinal, “era preciso aproveitar o que ainda há”.

A noite caía depressa. Talvez devesse olhar a mochila para ter certeza se trazia consigo uma lanterna; mas, fosse como fosse, a estrada de terra era sempre segura. Por ali não passavam muitos carros, ela sabia, bastando-lhe subir em linha reta. Em menos de quinhentos metros chegaria à Pousada Repouso do Peregrino, a não ser que visse o Unhudo, certo ente sobrenatural que, dizia o povo, atacava bois, cabras e cachorros. Bobagem. Ela não acreditava em lendas. Mas tomou susto quando viu um vulto pequeno descer, naquela hora mesmo, em direção à igreja.

– Tô fraca!

Era uma galinha picota, o cacarejo não negava. A bicha vinha esbaforida ladeira abaixo, indo se esconder justo na Casa de Deus. Cena esquisita que Laura logo teria esquecido não tivesse sido parada logo em seguida por uma menina, o cabelo castanho, cortado feito cuia, moldura dos olhos amendoados e da pele branco-leite, coisa de outro planeta.

– Moça, viu por aí uma galinha d’angola? Ela é desse tamanho aqui ó.

– Vi sim. Entrou na igreja.

– Podemos procurar lá?

Engraçado que a criança a chamasse daquele jeito, ignorando a passagem do tempo e os aspectos de senhora que já se espelhavam no rosto. Talvez o cair da noite a tivesse confundido, o que fazia Laura se sentir ainda mais responsável pela menina e a galinha.

Foram à igreja onde não encontraram nem sombra da “criminosa”, somente uma pena. Era melhor que a garota voltasse no dia seguinte, haveria de encontrar sua galinha.

– Não é minha não. É da pousada. Você tá no chalé da saíra, eu tô no canário-da-terra.

Porque Laura andava distraída, sequer se deu conta de que ela e a garota estavam na mesma hospedaria, claro, as casinhas batizadas com nomes de aves ou plantas. A pequena máquina falante a fazia se lembrar de uma sobrinha, décadas atrás, a mesma disposição para brincadeiras, minha mãe veio pra cá pra acabar a tese de doutorado, ela fez uma grande descoberta na área de ciências, decora o nome porque um dia vai aparecer na TV, vou escrever aqui na terra pra você e pegando um graveto escreveu uma sopa de letrinhas, de decodificação impossível, você decorou? Nosso sobrenome é de origem polonesa, a pronúncia não é essa. Tá meio escuro, mas deu pra ver? É uma pesquisa sobre células, minha mãe é bioquímica. Meu nome é Clarice, e o seu?

Não demorou e voltaram para a pousada, a mãe da menina sempre muito sonolenta, disposta a poucas palavras, via-se pelo cansaço visível das olheiras. O vocabulário a denunciava: Laura sabia reconhecer de longe gente que lia muito. E o pai de Clarice? Convinha não saber. A aposentada jantou no quarto, sopa, se dando conta que pela primeira vez na vida não comera peixe na Sexta-feira Santa. Esquecera. Mas que mal havia de fazer?

No dia seguinte, quando abriu a porta do chalé, viu a menina brincando com a galinha, cena interessante, o animal pousando no braço de Clarice por vontade própria, sem qualquer medo.

– Ela voltou, parece que saiu pra namorar um galo que mora lá na igreja.

Quanta imaginação, não havia galo nenhum a não ser um de madeira, enfeitando um telhado ali próximo, mas tudo isso é coisa que a gente deixa passar, é claro, por ser da idade, apesar de ninguém saber quanto anos tem Clarice, suponho deva ter uns dez, pois é miúda. Sábado de Aleluia, tempo de se preparar para a Páscoa, e Laura pela primeira vez na vida estava sozinha, a irmã falecida, a sobrinha única morando na Alemanha havia mandado uma mensagem. Não casar nem ter filhos talvez tenha sido uma escolha errada, se é que podemos chamar assim, escolha, a vida muitas vezes apenas acontece, pois ela bem que tentou, viveu cinco anos com o Edivaldo, hoje seria considerado casamento, mesmo sem sacramento em igreja, nem formalização no papel, contrariando os desejos da família. Ainda ficaram amigos depois do terremoto, o que ninguém entendeu muito bem. É que Laura tinha vocação pra companheira, como esposa se embananava. Também, no fundo, gostava mais de ser tia. É que mãe não pode se deixar conduzir na sociedade, precisa ter sempre as rédeas, ideia que lhe esfumaçava a cabeça.

– Laura, você trabalha?

– Aposentei. Era bibliotecária.

– Legal. Minha mãe escolheu meu nome em homenagem a uma escritora, mas nunca li. Gosto de livro de vampiros. Quando voltarmos pra pousada, vou te mostrar um que tô lendo.

Mais uma vez, Laura se deixava levar e, sem perceber, estava numa cachoeira com a menina, a mãe tendo autorizado porque o lugar não era perigoso, uma espécie de poço, as águas sempre calmas, trouxe sanduíche, você quer? Meu pai não veio e minha mãe tá feliz por isso, ela disse que ainda bem, quer acabar de escrever a pesquisa. Acho que meus pais tão se separando, minha mãe tá de saco cheio do meu pai. Ele realmente é muito chato, mas é o jeito dele. Não sei se vou gostar de ter pais separados, se bem que a Ana, minha melhor amiga, os pais são separados e tudo bem. Quantos anos você tem? Nossa, idade da minha tia Ester. Eu tenho treze anos, te falei? Mas sou assim muito pequena porque ainda não menstruei. Minha mãe quer que eu comece a tomar hormônio porque o médico falou que eu ainda posso crescer. Queria saber como é menstruar. Todo mundo diz que é horrível, minha mãe, por exemplo, tem muita cólica, mas eu queria tanto que acontecesse.

A-talvez-ainda-menina ou a-quase-mulher, muito criança aos olhos de Laura, subitamente se tornava desconcertante. Era como se Clarice tivesse nascido para abalar a ordem do mundo, tão ampla e indisposta a se enquadrar e, por isso mesmo, demasiado bonita. Ela transbordava em interioridades, transpondo tudo que lhe era íntimo para fora, numa espécie de Revelação.

– Sabe, tô passando por um problema parecido com o seu. Cheguei na menopausa, parei de menstruar há algum tempo, mas também não sei se faço ou não a tal reposição hormonal. Talvez eu devesse ir no seu médico e você no meu. Assim, teríamos duas opiniões.

– Boa ideia!

De repente, Laura se reencontrava no tempo de Clarice, deixando de se sentir uma flor murcha, como vinha acontecendo. Percebeu que a gente desabrocha todo o tempo, até quando é semente desvanecida. No dia seguinte seria Páscoa, a mãe da garota enfurnada no claustro, Laura se perguntando se veria a missa rezada pelo povo. Minha mãe disse que não desce, a gente nunca vai na igreja. Meus avós eram judeus, se bem que agora na minha família ninguém acredita mais muito em nada. Eu acho que existe alguma coisa, não exatamente um Deus, do jeito que falam, quem sabe uma espécie de eletricidade cósmica. Mas se você quiser, a gente vai na missa e depois sobe a montanha. Não é longe, eu te levo lá. Fui com a minha mãe no primeiro dia que a gente chegou. Chegamos segunda-feira. Você chegou na quarta, né?

Do alto da montanha, as duas ainda avistaram o fim da missa na pequena igreja, o povo se dispersando feito formiga pequena, livres, sem formalidades. A vista deslumbrante reluziu nos dois pares de olhos até a hora de descer, arrumar as malas e partir.

– Tchau, Laura! Tchau! Adorei te conhecer!

Cheia de “obrigados”, a mãe expunha a solidão inenarrável dos adultos, enquanto a filha seguia protegida pelo milagre de ainda não ser, a clandestina felicidade de poder amanhecer mais tarde. Assim que o carro sumiu da vista, Laura decidiu que não iria embora ao fim do feriado, jogando fora seus próprios planos. Ficaria mais uma semana ou duas ou, quem sabe, três? Ela ainda tinha, afinal, muito tempo.

Sobre a autora: Lívia Jacob é doutora em Teoria da Literatura e Literatura Comparada (UERJ), professora e autora do blog Casbah (www.cidadelaliteraria.wordpress.com).

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

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