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7ª edição – CAPA – Entrevista: “Clarice Lispector e Maria Luiza Paulino: uma narrativa sobre educação, cotidiano e literatura” – por Carina Lessa

By Redação no dezembro 24, 2020
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Clarice Lispector e Maria Luiza Paulino: uma narrativa sobre educação, cotidiano e literatura

Carina Lessa

A Entrevista abaixo é uma transcrição de trinta minutos dos noventa nos quais Maria Luiza Paulino nos relata experiências de vida na década de 1970, quando conhece Clarice Lispector, e compõe as narrativas do famoso La Fiorentina, em Copacabana. Para conhecer as deliciosas histórias, compostas ainda por Fernando Sabino dentre outros ícones da intelectualidade brasileira, confira a entrevista na íntegra.

Renato – Wellington, conta pra gente, como você conheceu a Maria Luiza?

Wellington – Bom, o meu contato com a Maria Luiza se dá porque moro aqui no Camorim e a mãe dela já mora aqui no meu condomínio há bastante tempo. A mãe dela tem 93 anos e é muito amiga nossa. A minha esposa trabalha com refeições e a Dona Maria era nossa cliente de todos os dias. Maria Luiza não morava aqui, morava no Flamengo, e eu já sabia que Dona Maria tinha uma filha, embora não tivesse muito contato em função da distância. Atualmente, ela mora aqui no condomínio e, como tenho um laço de amizade muito forte com a mãe dela, acabei me aproximando da Maria Luiza. Na medida do possível, com essa pandemia, eu procuro ajudar a mãe dela. Estou sempre aqui. Eu moro no quarto andar e estou aqui agora na casa dela, no terceiro, e o relacionamento se dá por sermos sempre muito próximos e pude estreitar os laços de amizade com a Maria Luiza.

Renato – E como que foi ver as dedicatórias da Clarice para Maria Luiza?

Wellington – Eu estava aqui na casa da Maria Luiza, conversando com a mãe dela. Eu estudo na Estácio e sou aluno dessa grande mestre que está aqui com a gente, que é a Carina, e curso uma disciplina que é produção textual II. O professor passou uma tarefa que era escrever um conto ou uma fábula, escolhi escrever uma fábula infantil. Dona Maria estava lá em casa e eu li, ela ficou encantada! Quando fui à sua casa, ela me pede que leia a narrativa para Maria Luiza, dizendo que ela iria gostar. Luiza de repente teve um estalo e me perguntou: Você gosta de Literatura? E ela vai até o quarto em êxtase e retorna com três livros da Clarice. Sendo sincero, quando ela falou que tinha livro da Clarice Lispector, que ela havia dado pra ela, de verdade, eu desdenhei. (risos). Pedi até perdão a ela.

Maria Luiza – Ele duvidou (risos).

Wellington – Quando ela me vem assim, eu não tinha me dado conta da dedicatória… ela: me dá aqui o livro… quando ela abre a primeira página com uma dedicatória da Clarice Lispector… eu fico arrepiado… a história estava transitando do meu lado. Foi uma coisa de louco! Já falei pra Carina outras vezes, no meu contato com a Literatura, a Carina tem um papel fundamental. Eu já havia tentado fazer a faculdade há uns 10 anos antes e, por alguns motivos, eu tranquei e volto agora. Eu tinha uma certa rixa com a Literatura, talvez por não entender com eu a entendo hoje e entendo graças a essa professora maravilhosa que é a Carina. E esse contato com uma forma mais simples de se entender é fenomenal. Quando eu pego um livro da Clarice Lispector, com uma dedicatória de presente pra uma pessoa… É emocionante! Essa é a palavra.

Renato – E como você vê a importância de Clarice nesse processo seu como leitor e como profissional das Letras?

Wellington – É interessante… eu estava comentando em casa antes de vir pra cá para a entrevista… a professora Carina compartilhou conosco em sala de aula um fragmento do texto “Felicidade Clandestina” e, de verdade, como Clarice Lispector escreve de uma forma simples, bem concisa, com temas do cotidiano, é exatamente como eu falei… esse contato com a literatura estreita o nosso entendimento, é claro que sei que existe o entendimento mais profundo da arte, mas quando eu leio Clarice Lispector, a forma como ela escreve aproxima o entendimento do cotidiano… é fenomenal, quando eu estava lendo esse conto “Felicidade Clandestina” sobre uma menina que queria ter acesso a um livro e ela tem uma amiga que é filha de um dono de uma livraria e ela é ludibriada. A coleguinha dela [narradora] zomba… Até que tem o momento em que ela tem o contato com esse livro, ou seja, o ápice! Eu chorei! Eu sou muito emotivo! É essa relação… Retomando sua pergunta, ela torna fácil a Literatura. Quem conhece sua trajetória, como ela veio parar no Brasil, a forma como ela representa nós, brasileiros, e ela dizia que era brasileira, embora tivesse nascido em outro lugar, A Literatura é… eu tenho um sonho, estar com os alunos em sala de aula que, como eu no passado, enxergava a Literatura um pouco distante e Clarice Lispector parece que, embora pareça ter passado por fases de sua vida não muito agradáveis, ela tinha esse entendimento de realmente querer aproximar, estreitar essa distância entre a educação e o aluno, não só na Literatura, mas tornar fácil o acesso ao conhecimento… a linguagem é simples. É lógico que podemos ter um entendimento profundo da Literatura, quando você lê um texto dela mais complexo, de outras vertentes… mas, pra mim, ela queria traçar um caminho estreito para que todos tivessem acesso à Literatura.

Renato – Carina…

Carina – Bom, eu gostaria de agradecer ao Wellington e, mais ainda, à Luiza, não vou chamar de senhora… (risos), por compartilhar tantas histórias bonitas, de vida, que passam além da história da Clarice, porque nós temos as nossas histórias, antes desses encontros maravilhosos que fazem a gente se questionar, que fazem a gente se constituir enquanto ser humano. É o que a leitura faz e oferece muito… é daí que vem essa emoção quando a gente encontra de alguma maneira materializada em papel algo daquela pessoa que oferece tanto pra gente. Fiquei muito emocionada, Maria Luiza, num primeiro momento quando vi a dedicatória, ainda sem lê-la, e mais ainda, quando li as dedicatórias e que, adensei mais ainda [as emoções], quando Wellington me contou sobre sua trajetória. Gostaria de conhecê-la mais um pouco aqui. Se Clarice disse pra mim que você vale ouro, quem sou eu para discordar… eu quero conhecer a sua narrativa, mais do que saber da sua história com Clarice, eu quero conhecer também um pouco da sua vida, da sua história, de como àquela época a sua história se entrelaçou com a história da Clarice para que ela te oferecesse essas dedicatórias… como forma também, muito visível, de agradecimento pela amizade que vocês construíram àquela época… Para começarmos, o que que te motivou a oferecer os livros ao Wellington? Quais foram as memórias? E, depois, queria que você me dissesse também porque guardou por tantas décadas os livros que a Clarice te entregou. Quais são os sentimentos que você carrega em torno deles?

Maria Luiza – Eu acho o seguinte… A Dona Clarice, na época em que nós convivemos ali no restaurante La Fiorentina, quando ela morava no Leme, ia quase todo dia… era aquela coisa, quando ela não podia, ela ligava pra mim, para pedir o almoço dela. Então foi criando aquela confiança comigo, com o maitre… Ela não gostava de tumulto, ela ia no restaurante mais tarde, não gostava de tumulto… eu guardava a mesa dela, pra ela não ficar exposta na varanda ou no salão… ela tinha uma parede, que tinha uma parede e ela ficava lá, pra ninguém ver ela…(risos). Ela e uma amiga sempre iam almoçar, elas iam almoçar duas e meia ou três horas.. pra não ter ninguém… Ela gostava de ficar… conversava com a amiga dela… Lá dava muito artista, muito compositor, muito escritor, sabe… pra mim, era normal… tem gente que quer se meter na vida dos outros (risos) Eu não, por isso que eles gostavam de mim. Só ia quando me chamavam…

Wellington – Carina, eu acho que quando ela pega os livros aqui, ela queria puxar o meu tapete, porque ela me viu com um textinho assim… pensou: vou te mostrar o que é um texto de verdade (risos).

Maria Luiza – É… (risos)

Carina – O que que a senhora pensou naquele momento?

Maria Luiza – Bem, eu não tive só da Clarice, eu tive de outras pessoas também… então, da Clarice foi um negócio que eu guardei, gostei… ela me tratava muito bem, certo? E não era só eu, era eu e mais dois: o maitre e o garçom. Ela não gostava de outros… eu não estava, ela pedia para chamar…

Wellington – Que honra! (risos)

Carina – Honra para as duas, não é? (sorri)

Maria Luiza – Ela pedia para chamar… se eu não estivesse ou outro não estava, ela não falava com ninguém…

Wellington – É interessante né? Isso que escutamos sobre a Clarice ser reservada… reflete agora…

Maria Luiza – Sim, ela era muito reservada…

Carina – Eu queria saber um pouco da sua história também, até quando a senhora continuou trabalhando por lá? Por quanto tempo?

Maria Luiza – Por 10 anos…

Carina – Nessa época, na década de 1970, como era a sua vida, onde morava, como era o seu percurso?

Maria Luiza – Quando eu conheci ela, nem sabia quem era… (risos) eu não tinha tempo para saber quem é quem… eu nunca maltratei ninguém, entendeu? Então ela, antes de vir para o restaurante, ela ligava. Dizia: Olha, estou indo para o restaurante… reserva-se a mesa… Eu lembro que a mão dela era toda queimada, sabe… será que ela tinha vergonha? O que eu sei é que ela era muito bonita! Tenho certeza que ela era bonita! Muito bonita mesmo! O fogo pegou mais nas mãos, onde ela precisava mais… né?

Carina – Verdade, deve ter sido muito triste para uma escritora…

Maria Luiza – É… Mas é isso… e quando eu disse que ia sair, todo mundo fez até um abaixo-assinado. (risos) mas é aquela coisa, a gente tem que procurar aonde dá mais…

Carina – Estava ganhando muito mal né (risos)? Clarice registrou isso…

Maria Luiza – É isso… É quando ela escreve que…

Wellington – É… ela pede para que o patrão…

Maria Luiza – Ela fala assim: à Maria Luiza desejando que o chefe aí lhe aumente o ordenado. Diga a ele que você vale ouro. (risos)

Carina – A senhora se queixava do salário que estava baixo ou ela que percebia? (risos)

Maria Luiza – Não, o nosso papo era de comida, sabe? (risos)

Carina – Mas a senhora não contou como era sua vida àquela época, se morava ali por perto também… o que gostava de fazer quando não estava trabalhando…

Maria Luiza – Eu morava em Ipanema. Eu trabalhei em três turnos lá. Trabalhava até de madrugada… às vezes, quando estava verão, que eu queria ir para a praia, falava: Vão embora… (risos). Eles gostavam disso, de eu ser assim, não ser toda… tem que pôr ordem. Eu estava ali como caixa e como gerente, porque gerente não tinha. Como eu era mais velha de todo mundo…

Carina – Você acumulava muitas funções…

Maria Luiza – E não era só cuidar do dinheiro, era o estresse de garçom, de comida, de maitre, de tudo… falando que tava errado…

Carina – Você era boa de manter as relações de todo mundo, depositavam essa confiança…

Maria Luiza – Olha, eu não bebo, às vezes vinha a conta e falavam: “Ah… ela colocou lá pra ela beber”. Eu falava: “Ele está doido, né?”. Era um negocinho…

Carina – O cliente fazia a acusação para não pagar?

Maria Luiza – É, que eu bebia… E eu só bebo água.

Wellington – E é interessante, porque quando a gente vê essa dedicatória de que você vale ouro, com certeza Clarice Lispector tinha o conhecimento de como era o trabalho, já que ela frequentava sempre né?

Carina – Devia ser muito observadora…

Wellington – Esse pede para te aumentar…

Maria Luiza – Para eu não ir embora…

Wellington – Talvez, ela entendesse que era um trabalho que a sobrecarregava…

Maria Luiza – Não, era pra eu não ir embora… Ela sempre quando chegava ia direto no caixa falar comigo.

Carina – Quantos anos a senhora tinha?

Maria Luiza – 21 anos.

Carina – Bem novinha… Eram muitos frequentadores, não sei se a senhora sabe, ainda nos dias de hoje existe essa prática tradicional da intelectualidade de frequentarem o La Fiorentina…

Maria Luiza – Eu lembro que, quando ela ficou doente, ela ligava para pedir o almoço, ela estava com câncer. Eu disse: dona Clarice, vamos tratar disso… a senhora vai se tratar porque isso não é brincadeira… ela dizia: eu não vou poder comer isso, aquilo… Eu respondia: Ah… tá. Eu vou mandar fazer o seu prato. Mas ela gostava era de lagosta e de camarão. Então, ela não podia comer nada disso. Eu brincava: a senhora agora vai comer salada… (risos) Ah… eu gostava de ouvir ela falar porque ela misturava o português com… ela era da onde? (…)

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

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