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7ª edição – Artigo: “A FORÇA DE ATUAÇÃO DO COTIDIANO NA PROSA CLARICEANA: UMA LEITURA DO CONTO “AMOR” – por Juliane Elesbão

By Redação no dezembro 24, 2020
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A FORÇA DE ATUAÇÃO DO COTIDIANO NA PROSA CLARICEANA: UMA LEITURA DO CONTO “AMOR”[1]

Juliane Elesbão

Falar sobre a escritura de Clarice Lispector, sobretudo no mês e ano de seu centenário, é deparar com um universo de reflexões complexas, de recorrentes epifanias, de significados densos e emaranhados entre si; é lidar com uma tessitura ficcional que se apresenta como “uma forma de conhecimento do mundo das ideias” (CANDIDO, 1970, p. 126), por meio de uma linguagem em convulsão, que se dramatiza por si mesma e que desestabiliza as fronteiras entre o real e o ficcional. Por conta disso, os textos clariceanos exigem um olhar atento para as problematizações mais profundas aí tratadas e para a (des)harmonia entre o sujeito e a própria linguagem, que permitem identificar as tensões que transcendem a superficialidade temática e nos fazem mergulhar na articulação entre o estético-estrutural e os desdobramentos acerca da condição humana elaborados pela autora.

A partir daí, é perceptível como Clarice trabalhava com as instâncias do humano de modo a explorá-las em sua complexidade, ruminando inquietações manifestadas em personagens que, geralmente, são colocadas em um exercício de autoconhecimento e de ressignificação pessoal.

Sendo assim, a linguagem literária, sobretudo a de Clarice, potencializa as experiências epifânicas que marcam o rompimento, mesmo que efêmero, com a vida diária das personagens, vigiadas no âmbito da cotidianidade e dos gestos, aparentemente, mais triviais. O prosaico, portanto, é o mote para a escrita de Clarice, pois é aí que percebemos gradualmente os dramas mais banais e os interesses mais comuns da vida humana. Sendo assim, as epifanias não sustentam por si só as narrativas da escritora; a força de tensão está também em como o cotidiano é engendrado e em como as personagens estão aí enquadradas, a fim de evidenciar o mal-estar que as atinge e que gesta o momento de “revelação”.

O instante da vida diária manifesta-se nas experiências vividas pelos seus personagens, cujo mundo pessoal e subjetivo vai se desnudando, e a cumplicidade entre escritura e significação resulta em possibilidades de leitura e de autoconhecimento para o leitor, o que era válido também para a escritora: “[…] Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever” (LISPECTOR, 1999, p. 190).

O conto “Amor”, por exemplo, presente em Laços de Família (edição nossa de 1998), apresenta-nos uma dona de casa que, na medida do possível, controla e organiza sua vida diária para que nada aconteça de forma diferente do habitual.

“No fundo, Ana sempre tivera a necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. […] E alimentava anonimamente a vida. (LISPECTOR, 1998, p. 20-21)”

“Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite, tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. (LISPECTOR, 1998, p. 23)”

A rotina aparentemente regrada representa uma defesa para o que pudesse desordenar as atividades corriqueiras de Ana. O cotidiano é o seu porto seguro, que a protege da imprevisibilidade de uma vida mais “livre”, sem as amarras dos laços familiar e domiciliar. A protagonista faz o possível para manter sua rotina realizada e satisfatória, em que tudo acontecia conforme deveria acontecer:

“Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. […] Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranquilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida (LISPECTOR, 1998, p. 20)”

Diante desse cenário, temos que Ana é uma mulher submetida aos afazeres domésticos, que seguem uma linearidade temporal reguladora de um cotidiano que se repete a cada dia. É notório que seus desejos não correspondem ao presente vivido, visto que “outras” sementes não foram plantadas; logo, Ana sujeitara-se a um conformismo com a vida que se foi apresentando para ela e com a repetição em que se tornara cada um dos seus dias. No entanto, a tranquilidade de sua vida diária é rompida com a imagem de um cego mascando chiclete visto por ela no ponto do bonde, ao voltar para casa após um dia de compras. A partir desse momento, “[a]lguma coisa intranquila estava sucedendo”, e ela passa de uma situação de estabilidade e conformidade para uma outra, de ameaça, de desordem e inquietação, numa erupção de consciência de si e da realidade. Isso se dá com a piedade que ela sente pelo cego e que a confunde, o que faz surgir o seguinte questionamento: “O que o cego desencadeara caberia nos seus dias?” (LISPECTOR, 1998, p. 29), visto que seu cotidiano passara a ser visto como miserável, já que sua visível monotonia só escondia o mistério do ser.

Nessa situação, Ana parece sentir um repentino desconforto, o que caracteriza o processo momentâneo de “ruptura da personagem com o mundo” (NUNES, 1995, p. 84). Observamos, portanto, o valor simbólico que o cotidiano adquire na escrita clariceana, ou, de modo geral, ao ser ficcionalizado. As práticas cotidianas expostas, descritas, relatadas numa narrativa ganham pertinência através da sua estetização, pois para elas “se emprestam os caracteres de uma intuição ora artística, ora reflexa” (CERTEAU, 2013, v. 1, p. 133). Logo, a cena perturbadora do cego mascando um chiclete exige de Ana um olhar mais hostil para o seio domiciliar e gera nela um mal-estar e sentimentos estranhos em relação a tudo que lhe era familiar; logo, “através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca” (LISPECTOR, 1998, p. 34). Essa náusea domina-a no âmbito da situação atônica e angustiante provocada pela cena do cego, pois a protagonista “vê-se expulsa de seu regulado cotidiano” (ROSENBAUM, 2006, p. 89).

Por conta desse estado de alheamento, Ana passa do ponto de descida e, ao descer do bonde, adentra o Jardim Botânico e permanece no processo de deslocamento, mesmo quando “procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto” (LISPECTOR, 1998, p. 34-5). As estruturas edificadas do seu cotidiano são abaladas cada vez mais e desse incômodo “[n]ão havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava” (LISPECTOR, 1998, p. 38). Essa ruptura com o que é da seara do ordinário, do prosaico “envolve […] nossa radical discrepância com o mundo, nosso estranhamento das coisas, acompanhado da sensação de estarmos perdidos entre elas, desamparados e ao relento”, e a insegurança aí gerada “consiste, nada menos, que na impossibilidade de estar onde estamos” (KUJAWSKI, 1988, p. 36, grifo do autor).

Ana vê-se experienciando uma crise primária e uma dificuldade de entender-se consigo. Por outro lado, potencializam-se novas formas de ver o mundo, sobretudo, quando a personagem chega à seguinte conclusão: “um cego me levou ao pior de mim mesma” (LISPECTOR, 1998, p. 39). Isso mostra que a crise sofrida pela protagonista do conto não possui um fim exato, haja vista que o que importa é o conjunto de mudanças e inquietações gestadas ao longo do trajeto até em casa. Parece óbvio que esse estado a preocupa, pois ela depara com a imprevisibilidade das consequências de tal experiência, que acaba por incomodá-la.

A personagem fica mais perdida ainda, e a náusea que sente por conta disso faz com que o medo se lhe apodere, obrigando-a a retornar ao seu cotidiano sem anunciar a angústia sentida e a negar a visível discrepância entre ela e as coisas, bem como a desestabilização do seu estar no mundo. Isso ocorre porque “[o]s medos nos estimulam a assumir uma ação defensiva. […] O medo agora se estabeleceu, saturando nossas rotinas cotidianas” (BAUMAN, 2007, p. 15). Tais contradições levam o leitor a pensar sobre a “fragilidade e condição eternamente provisória da identidade” (BAUMAN, 2005, p. 22), que passa a ser considerada como algo em constante transformação e que oscila entre a ordem e o caos que constituem a instabilidade da (pós)modernidade.

A partir de então, é sempre válido reafirmar que era do cotidiano que Clarice extraía suas narrativas, aliadas a um teor introspectivo, que se teciam pelas tensões dialéticas entre o particular e o universal. No caso do conto “Amor”, o “desconcerto” pelo qual a protagonista passa faz com que ela desconstrua a sua rotina, enxergando-se como um ser que se anulou na sua cotidianidade, que “fica reduzida ao espaço privado” (XAVIER, 1998, p.27). As sensações subjetivas que a atingem, após seu encontro com o cego, fazem com que ela mergulhe numa crise, num conjunto de incertezas, e, ao se refugiar no Jardim Botânico, seus sentidos se manifestam com certa sensibilização para a percepção de minúcias que até então estavam latentes no seu cotidiano opressor, no pequeno mundo que plantara para si. Dessa maneira: “Tudo era estranho, suave demais, grande demais” (LISPECTOR, 1998, p. 34).

Por fim, nunca é demais atestar a potencialidade estética de Clarice Lispector, que apura nosso senso crítico e nos desperta para as várias possibilidades de entrada do discurso literário. Além de nos fazer refletir sobre a nossa própria condição terrena, existencial, Clarice ainda nos atenta para a complexidade da linguagem literária e para o que ela pode suscitar na ação subjetiva de cada leitor, fazendo-o ir além da malha textual.

 

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

_________________. Tempos Líquidos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007

CANDIDO, Antonio. No raiar de Clarice Lispector. In: Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Trad. Ephraim Ferreira Alves. Rio de Janeiro: Vozes, 2013. V. 1.

KUJAWSKI, Gilberto de Mello. A crise do século XX. São Paulo: Editora Ática, 1988.

LISPECTOR, Clarice. “Amor”. In. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

_________________. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

NUNES, Benedito. O drama da linguagem – uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 2005.

ROSENBAUM, Yudith. Metamorfoses do mal: uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Editora da USP, 2006.

XAVIER, Elódia. Declínio do Patriarcado – a família no imaginário feminino. Rio de Janeiro: Rosa dos ventos, 1998.

 

[1] Este ensaio é uma adaptação de um trabalho maior publicado como capítulo de livro. Segue referência da publicação: ELESBÃO, J. O peso do cotidiano em Clarice Lispector. In. SILVA, O. de C. et al. (Orgs.). Um livro de interpretação literária: Mulheres de Letras. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2019.

Redação

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