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6ª edição – Crônica: “Um assento luxuoso” – por Ezequiel Alcântara

By Redação no novembro 23, 2020
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Um assento luxuoso
por Ezequiel Alcântara

 

Era de manhã. Meu rosto estava amassado, trazendo as marcas de uma noite mal dormida. Tomei café. Após me arrumar, parti. Saí bem apressado rumo ao aeroporto, para chegar a tempo de pegar meu voo. Bagagem despachada. Tudo certo para embarcar. Entrei, fiquei a procura do meu assento, esperando junto da minha santa paciência, os outros passageiros liberem o estreito corredor para eu poder passar. Era tanta demora que qualquer um poderia ficar irritado, mas fiquei tranquilo. Percebi que apenas os “Vips” que entraram com toda a comodidade. Guardei minha mochila, sentei. Um assento prazeroso na última fileira do avião, do lado do corredor, pertinho do banheiro da aeronave.

Todos os tripulantes entraram no avião. Sem demora, ouvia-se a voz do piloto nos informando: “Atenção senhores passageiros, iniciaremos o processo de decolagem. Coloquem seus cintos de segurança e guardem os seus pertences”. Obedeci as instruções. Decolamos. Mais ou menos uns 30 minutos de subida. Após estabilizarmos, peguei meu livro e comecei a ler. Mas antes, prestei atenção nos colegas ao meu redor. Do meu lado, uma moça bonita, bem arrumada, com uma cara de quem chupou limão com sal e ainda colocou cobertura de pimenta. Nem me arrisquei a dar atenção ou cumprimentá-la, provavelmente levaria um soco por nenhum motivo. Nos bancos a frente, um casal de idosos. Um senhor, bem humorado, não se calava nem um instante, cantando e falando alto, para trocar ideia com um conhecido, que estava umas 5 ou 6 fileiras a sua frente. Já a senhora, enrolada em seus casacos, devido ao friozinho do ar condicionado, só parava de tossir de 2 em 2 minutos, e soltava aquela sinfonia agradável aos ouvidos, inspiradora, do som gostoso do catarro seco preso no peito, querendo sair, e ficando ali pela garganta mesmo. Ao mesmo tempo, nos assentos do outro lado do corredor, tinham vários casais, cada um com uma criança de colo. Crianças adoráveis, bonitinhas. Que só paravam de chorar e berrar quando eu colocava meus fones de ouvido, e os colocavam do volume máximo. E assim, finalmente, peguei meu livro para ler.

Fui na página onde parei. Retirei o marcador de páginas. Mergulhei no incrível mundo da poesia de Alvares de Azevedo. Nem dá pra notar o tempo passando. Estava tão envolvido em um poema que, calmamente, ouvi a voz do piloto nos alertando apressado: “Senhores passageiros, devo pedir que apertem seus cintos de segurança. Estaremos passando por uma zona de instabilidade, e teremos muita turbulência. Peço que fiquem sentados, e evitem andar pelo corredor, tudo pela sua segurança”. Fiquei angustiado. Nunca tinha passado por aquilo ou ouvido um piloto falar aquele aviso. Apenas nos filmes. E o avião começou a balançar forte. Tentei voltar a ler o poema. De imediato fiquei pálido quando estava lendo o poema chamado “O Pastor Moribundo”. Pois estava lendo justo o verso: “A existência dolorida/Cansa em meu peito: eu bem sei/Que morrerei!”. Que assunto motivador para aquele momento, não é mesmo caro leitor?!. Fui me acalmando aos poucos. O perigo passou. Já era próximo do meio dia, e eu estava faminto. Comecei a sentir um cheiro de comida deliciosa vindo da cabine dos comissários de bordo. Fiquei animado. Pensei: “Será que vão servir galinha cozida? Ou será um lanche com frango temperado?”. A imaginação corria solta, e chegava a me dar água na boca.

Esperei ansiosamente. Olhava para o começo e o fim do corredor. E nada da comida chegar. Apenas alguns tripulantes sinalizando para a aeromoça, e recendo um copinho d’água mineral. O que resultou, sem dúvidas, num vai e vem de pessoas rumo ao banheiro. E que beleza! Bem atrás de mim ele se encontrava. A todo momento era aquela música sem igual do barulho da descarga no meu ouvido. E o melhor! Era aquele odor inebriante de ervas campestres ao abrirem e fecharem a porta. Além de um certo cheiro de perfume francês, acho que da região sul daquele país, um toque peculiar de urina e gases estomacais, que impregnavam de vez em quando o meu assento. Que luxo todos aqueles ritmos de descarga, e o abrir e fechar de portas, mesclado aos aromas peculiares. O tempo passou, e começamos o processo de descida. A pressão nos meus ouvidos me deixando surdo e incomodado. As crianças chorando muito mais que antes. O casal de idosos cantando e falando mais alto pela desembarque próximo. Além da tosse seca da senhora a aumentar cada vez mais. E a moça ao meu lado, olhando pra frente, com fones de ouvido, assistindo uma série. Toda irritada. Ajustava e desajustava o assento. Pousamos, e o informe do comandante anunciava: “Bem vindos senhores passageiros a Fortaleza – CE. O clima está ótimo e chegamos antes do horário previsto”. Que notícia boa! Porém, devido a pandemia, só podia descer fileira por fileira. Os “vips” saíram pomposos. E eu melhor ainda, no assento ideal, no fim da aeronave, o último a sair. E na porta de saída, com todo o carinho e atenção pela minha pessoa, ainda me ofereceram um biscoitinho, que nenhum dos passageiros quiseram receber.

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

2 Comentários
  • João Rodrigues 7 meses ago

    Adorei a crônica. Lamentei por ter sentado emum local naomuito agradável .

  • Leitor 7 meses ago

    Eu também adorei a crônica embora… não tenha entendido o sentido! 🙂

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