junho 19, 2021
  • junho 19, 2021
Novidades
  • Home
  • Edição Atual
  • 6ª edição – Crônica: “Lendas do Samba: sonho meu, teu e de Ivone Lara” – por Erick Bernardes

6ª edição – Crônica: “Lendas do Samba: sonho meu, teu e de Ivone Lara” – por Erick Bernardes

By Redação no novembro 23, 2020
4 185 Views

Lendas do Samba: sonho meu, teu e de Ivone Lara
por Erick Bernardes

Imagine o adulto que percebe tarde o motivo de a tia Anastácia e a sambista Ivone Lara serem tão familiares. Pois é, temos aqui um caso dos mais interessantes. Decerto o leitor mais velho também pensará assim, só os mais velhos e atentos.

Tantas vezes assisti ao Sítio do Picapau Amarelo e nunca me dei conta do revezamento das atrizes no elenco das histórias de Monteiro Lobato reproduzidas na tevê. Não tive certeza, parecia só impressão. Incrível é o sacolejo na memória nascido do acaso. Explico. Dia desses, assistindo às gravações do desfile da Império Serrano e prestando atenção ao samba enredo cantado magistralmente por dona Ivone Lara e companhia, a familiaridade da voz e a aparência iam além do carnaval. Forcei a memória, insisti no pensamento, mas foi só quando um folião da escola anterior, (a Mangueira), vestido de Visconde de Sabugosa, emitiu um grito no microfone global da Glória Maria é que juntei os pontos. Bingo! Estava montado o quebra-cabeças que tanto me atormentava o juízo. Sim, isso mesmo, uma das tias Anastácias era de fato a dona Ivone Lara. Aquele folião maluco, berrando em frente à câmera de televisão, me fez pensar nas conexões certas. A Mangueira havia homenageado Monteiro Lobato. Estava claro, o integrante fantasiado de espiga de milho gigante era um dos quarenta componentes da ala da Literatura Infantil. Meu Deus, tantos anos pra me dar conta só agora? A cabeça da gente não segue lógica mesmo, claro que não. Lembro, eu amava aquela senhora de lenço amarrado na cabeça. Tão aconchegante. Não tenho dúvidas de que a atuação de dona Ivone era a que mais me agradava. Ah, lembrança boa! O mundo do faz de contas na voz melódica de Gilberto Gil, crescemos assim. O contraste foi mesmo notório pois, da tela de tevê ao samba da Império Serrano de 2013, eu assistia à dama cantar, enquanto a própria emissora exibia trechos de carnavais anteriores de outras escolas.

Dona Ivone Lara nasceu em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, em abril de 1922. Filha de mãe costureira e pai mecânico de bicicletas, ambos também eram músicos nas horas vagas. Ivone conheceu cedo o mundo do samba. Com o falecimento dos pais criou-se com os tios, que lhe ensinaram dentre outras coisas a tocar cavaquinho. Casou em 1947 e teve dois filhos, Alfredo e Odir, trabalhou duro até se aposentar como enfermeira e assistente social.

Contam que começou o carnaval frequentando a escola de samba Prazer da Serrinha, quando longe do trabalho dava vazão à sua arte. Sua vida revelou-se plena de histórias, não apenas no mundo do samba, mas no meio cultural brasileiro. Já pensou em alguém que por causa da sua música recebeu elogios até do mestre Villa-Lobos? E se essa mulher conheceu a psiquiatra brasileira Nise da Silveira? Impressionante. Para completar, ela foi uma das fundadoras da escola de samba de Madureira, a própria Império Serrano, quando passou a sair em desfile na ala das baianas.

Sabe-se que Dona Ivone teve suas composições interpretadas por artistas do mais alto gabarito como: Maria Bethânia, Clara Nunes, Paulinho da Viola, Gal Costa, Caetano Veloso, Marisa Monte, dentre muitos outros. Autora de canções relevantes como Nasci para sofrer, Não me perguntes e Os cinco bailes da história do Rio, música esta que a projetou como a primeira mulher a integrar a ala de compositores da escola verde e branco, a própria Império Serrano. Seu maior sucesso deu-se mesmo com o samba Sonho meu, sob a interpretação de Gal Costa e Maria Bethânia.

Infelizmente, em abril de 2018, Ivone faleceu. O velório, embora melancólico, aconteceu com muita paz para todos os amigos que estiveram na quadra da Império Serrano. Ela soube viver como ninguém; nenhuma frustração ou arrependimento. Mulher pioneira, artista de primeira, realizou decerto muitos dos sonhos que cantou. E lá se foi a Dama da Serrinha, com “a sua liberdade” transformada em versos, anunciar outros novos sonhos e me tomar de assalto: chegando e fazendo “a dança das flores no meu pensamento”.

Palmas para Ivone Lara!

 

Fonte: Jornal Vozes da Serra

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

4 Comentários
  • Dona Ivone Lara gravou seu nome na história da música no Brasil. Sua voz e seu carisma inconfundiveis ecoarão para sempre na nossa memória.
    Seu sonho nos embala até hoje.
    Saudades eternas.

    • Erick Bernardes 7 meses ago

      Obrigado, querido Oswaldo. Escrevi essa crônica no carnaval do ano passado, mas acho tão marcante a trajetória dela que senti necessidade de republicar.

  • Carina Lessa 7 meses ago

    Bela homenagem à grande dama!

    • Erick Bernardes 7 meses ago

      Obrigado, minha amiga Carina.
      A vida de doação de dona Ivone daria um romance. Rss

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *