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6ª edição – Crônica: “A história do Erick” – por Lorenza Ferreira

By Redação no novembro 23, 2020
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A história do Erick
por Lorenza Ferreira

Talvez, de todas as histórias esta seja a mais difícil de se contar. Pode ser pelo fato da história do Erick ser um pouco da minha história também.

Lembro como se fosse hoje o dia, exatamente 19/03/2002, eu estava internada em um hospital na cidade de Niterói, já fazia uma semana. Estava grávida, acabava de completar sete meses de gestação. Minha filha estava apressada para vir ao mundo. Eu não tinha muito a fazer naquele hospital. Exames que não acabavam mais e programas infinitos na televisão.

Eu havia acordado muito cedo naquela manhã. Sabe aquele jornal do início do dia? Então, estava assistindo, quando apareceu a foto do Erick na televisão. Haviam encontrado seu corpo. Ele estava desaparecido, a mesma quantidade de dias que eu estava hospitalizada. A notícia era triste, falava da morte de alguém muito especial, assim de forma banalizada, como se estivessem anunciando o aumento da gasolina. Mas, eu queria o quê? Que o apresentador do jornal se descabelasse? Não seria o protocolo.

Voltando no tempo, sentei na cama, uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Minha barriga doía, ela queria nascer. Parece que a pequena apressada sentia que eu não estava bem com aquela situação.

Erick foi um dos garotos mais populares da escola. Não consideravam o mais bonito. Só que ele tinha um charme todo especial, todas as garotas da escola eram loucas por ele. Aliás, não só as do colégio, as da cidade inteira. Na época da exibição da primeira temporada de Malhação, eu fazia natação junto com ele, havia também um bando de outros garotos e nenhuma menina além de mim. Eu já nadava a minha vida inteira por causa da asma, algumas vezes só havia meninos mesmo por perto. Meu tio costumava me buscar todos os dias após a aula de natação. Eu sempre esperava por ele do lado de dentro da academia, bem próximo ao portão de saída.

Certa vez, Erick veio perto de mim enquanto eu esperava, inocentemente, pra ir para casa. Conversou qualquer bobagem, achei muito estranho, porque ele nunca puxava muito assunto comigo. Sempre foi garoto do estilo famosinho, e eu, bem, leitor, você deve imaginar. Eu era somente uma garota impopular, daquele tipo que os garotos populares não sabiam nem o nome. Sendo que, de qualquer forma, ele veio falar comigo, sabia meu nome e foi chegando bem pertinho de mim, como quem não quer nada e, quando menos percebi, me deu um beijo incrível. Era o meu primeiro beijo de verdade. Esse primeiro beijo, que durou bem pouco, foi intensamente especial. Só que, naquele dia, lá no hospital, quando eu vi aquela notícia terrível, não pude evitar que o beijo do passado retornasse à minha memória, parecia ter sido bem longo, porque eu lembrei, sim, recordei de cada pedacinho dele.

No fático dia do beijo eu fui embora sem entender nada. Lembro como se fosse hoje, quando me senti especial por um momento. Confesso que nem precisei ser a menina mais linda da escola, foi simples, fácil e inesquecível. Depois disso, não esperava que ele fosse me beijar de novo. Mentira, leitor, esperava sim! Claro, não perdia uma aula e nunca contei isso pra ninguém. Você é a primeira pessoa que sabe desse ocorrido. Às vezes, quando não havia ninguém na academia ele descia para perto do portão e, sem conversar, nos beijávamos muito. Isso durou quase um ano, inevitavelmente.

Agora ele tinha morrido.

Como se não bastasse ter morrido, assistir na TV a forma dramática como isso aconteceu.

Fica calmo meu leitor impaciente, eu queria que você soubesse primeiramente quem era o Erick; a importância que ele teve na minha vida. O carinho que eu sentia por ele.

Ele morreu com apenas 18 anos, todos os sonhos foram interrompidos, foi assassinado cruelmente por um cara do exército. Isso mesmo, das Forças Armadas do Brasil. Houve uma briga em uma festa e foi morto a sangue frio. Só porque falou algo que o carinha não gostou. Tirou a vida do coitado.

Já fazia muitos anos que não encontrava com o Erick. Mas, ir pra sala de cirurgia com essa notícia tão triste se revelou uma das piores recordações. Lembrei de uma frase de Mário Quintana, quando diz: “com o tempo não vamos ficar sozinhos apenas pelos que se foram, vamos ficar sozinhos uns dos outros”. Olhei ao redor, me senti só, muito solitária. Mas, daquele dia em diante, eu teria que pensar, não na morte que eu não pude evitar, mas sim no fato de não deixar morrer novamente esses pequenos amores que vivemos todos os dias. Essas pessoas que passam por nossas vidas e acabam deixando muito de si e levam bastante de nós. Elas não podem morrer um pouco todos os dias. Essas pessoas precisam permanecer.

Depois disso, a vida teve que seguir… triste ou não, todos que se vão deixam as melhores recordações. Na minha lembrança ele vai ser sempre aquele garoto, o rapaz que nunca foi apaixonado por mim, nem eu por ele. Porém, existia uma importância velada.

O fato é que eu envelheci, enquanto ele continuará sempre com 18 anos (pois faleceu com essa idade). Mas no meu coração, terá pra sempre 13, pois foi quando nossos lábios se encontraram.

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

1 Comentário
  • Muitas vezes, podemos menosprezar os amores de infância ou começo da adolescência, mas eles são marcantes assim como esse texto.

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