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6ª edição – Crônica: “A destruição da arte” – por Oswaldo Eurico

By Redação no novembro 23, 2020
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A destruição da arte
por Oswaldo Eurico

 

“Que obra de arte é o homem: tão nobre no raciocínio, tão vário na capacidade; em forma o movimento, tão preciso e admirável; na ação é como um anjo; no entendimento é como um Deus; a beleza do mundo, o exemplo dos animais.”(SHAKESPEARE, William. Hamlet.)

 

O que é arte afinal? As definições são várias. Imprecisas. Subjetivas. Num mundo de antigas certezas em ruinas, carecemos de precisão. O que é belo? O que é estético? A eternidade existe? Por quanto tempo uma obra permanece? O mundo prima pela originalidade? Enquanto a resposta não vem, uma visita ao Museu de Arte Moderna de São Paulo…

Era minha primeira vez no Ibirapuera. Primeira vez numa obra de Oscar Niemeyer na capital paulista. Não era a primeira vez a ter contato com um original de Picasso. Vi Dança diversas vezes, no Museu da Chácara do Céu, no bairro de Santa Tereza, Rio de Janeiro, antes dele ser roubado em fevereiro de 2006, dois anos depois da minha visita à exposição “Picasso na oca: uma retrospectiva”. Sinceramente, não sei se essa obra do pintor espanhol e outras roubadas no mesmo dia foram recuperadas. Não tive coragem de pesquisar. Tenho medo da resposta. Sou assim em relação à arte: tenho medo dela morrer! Não tenho medo de fantasmas de nenhum tipo, pois não acredito neles, embora gostaria muito de ser atormentado por um fantasma da arte. Imagine: uma obra indo atrás de você a todo instante! Na realidade, não iria atrás. Iria à frente. Arte é vanguarda! Seria uma bússola, ou melhor: GPS para ser mais atual. Divagações a parte, voltemos ao Ibirapuera. Como já sei do que vi, vou apanhar o fio de Ariadne. O minotauro estava lá com labirinto e tudo. E pior: de espelhos! Duro se ver perdido, ainda mais dentro da arte!

A Ana estava comigo. Almoçamos como rei e rainha e seguimos ao parque. Lá fomos direto ao MAM-SP. A Semana de Arte Moderna era reeditada diante dos nossos olhos. Já conhecia o MAM do Rio de Janeiro, mas estar na terra onde o ano de 1922 entrou para a História do nosso país era algo totalmente diferente. Tarsila e Anita estavam lá. Mais tarde, a Sra. Ohtake entraria de vez na arte nacional junto com Manabu Mabe. E eu entrava num mar de cores e faturas nunca vistas de perto. Conseguimos assistir a toda a exposição do museu. Saímos de lá e fomos direto à Oca.

O prédio fazia jus ao nome. Era realmente uma oca de concreto elegantemente plantada no jardim pelo mestre da arquitetura brasileira. Estava tenso. Entraria em contato com originais que só vira antes nos livros de arte. E foi assim, tomado de pura tensão e com passos fortes e decididos que entrei na exposição. Não sabia por onde começar. As fases azul e rosa estavam ali. Eu e Ana também. Não nos dividíamos assim. Éramos um casal de todas as cores ao mesmo tempo. Apreciamos tudo simultaneamente e enquanto foi possível. Hoje somos grandes amigos. Viver de bem com o próximo é arte das mais complexas e caras! Mais caro ainda seria o prejuízo causado por mim à Humanidade. Ana nunca soube. Não tive coragem de contar para ela. Ela vai saber junto com você, leitor. Estou tomando coragem para relatar.

Depois de vermos Les demoiselles d’Avignon, e ficarmos impactados com Guernica, subimos ao segundo andar para ver a instalação num lago com esculturas do artista pairando sobre a lâmina d’água. Fizemos o que nenhum casal deve fazer: nos separamos. Ela foi para à esquerda, eu para a direita. As formas da escultura me atraíram. Quis ver mais de perto. Finquei meus pés antes da faixa amarela e projetei o corpo bem a frente. Um garotinho correndo esbarrou em mim e eu caí a centímetros da escultura. Minhas mãos apoiaram o peso do corpo nas bordas do lago artificial. Ninguém viu. Nem mesmo o guarda. Nunca me levantei tão rápido do quase chão. Tive dores de cabeça a noite inteira. Fomos embora. Eu a deixei na sua casa e segui meu caminho trêmulo e com um frio correndo pela espinha. Contei isso para alguns colegas de trabalho. O George pôs a mão na testa e disse: “Rapaz, você iria entrar para a História da Arte!”. A Beth, por sua vez, imitou um apresentador de telejornal famoso: “O mundo ficou mais triste! Escultura de artista espanhol Pablo Picasso é destruída por professor brasileiro!”. Josana arrematou: “E do nosso grupo!”

Sabem duma coisa? Não adianta ter medo de perecer. Isso acontecerá mais cedo ou mais tarde. Assumir a autoria dum desastre não é desejável, mas se faz necessário. Agora mesmo, acabei de confessar publicamente, depois de 16 anos, o meu quase delito. Clarice escreveu “O crime do professor de Matemática”. Eu sou professor de Português. Quem vai escrever das barbáries deste falante ousando ser escrevedor?

Não sei até quando museus se transformarão em cinzas. O conhecimento e a cultura carbonizadas voam para nunca mais pousar. Até quando o caráter craquelado vai proibir pessoas comuns de apreciarem a criação humana assaltando de instituições públicas para coleções particulares? Somos aquarelas que um dia enfim descolorirão como diz Toquinho na sua inesquecível canção? Em algum lugar há de repousar o olhar humano e há de ecoar nossa música… Seria no espaço intangível das vozes inauditas? Não tenho a resposta. Talvez não a queira ter. Prefiro compartilhar com você esse meu pecado de querer conhecer o mundo através das tintas, das letras, dos sonhos e dos objetos. Minha performance é falha e não sustenta a instalação. Um happening talvez e adeus… A galeria está fechada.

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

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