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6ª edição – Conto: “Se não você vai pra Jacarepaguá ou Somos pobres cosmopolitas ou Um conto para o romance Sertão Carioca (1922 – 2022)” – por Carina Lessa

By Redação no novembro 23, 2020
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Se não você vai pra Jacarepaguá ou
Somos pobres cosmopolitas ou
Um conto para o romance Sertão Carioca (1922 – 2022)

por Carina Lessa

Quem diante do amor / ousa falar do Inferno? / Quem diante do Inferno / ousa falar do Amor? / Ninguém me ama / ninguém me que / ninguém me chama / de Baudelaire (Isabel Câmara)

Libertas quae sera tamen (Virgilio)

Ninguém que está no Rio vai a Jacarepaguá. Exceto quando temos Rock in Rio ou, mais recentemente, quando tivemos as Olimpíadas. Moro ao lado da Colônia Juliano Moreira desde o nascimento e é a primeira vez que caminho por ela. As pessoas riem do corpo como quem vai a um boteco se espraiar pela mesa gosmenta ou implorar por um canudo escondido no banheiro. Levo o corpo muito a sério.

– Vou te mandar pra Colônia – bastava.

Parada e rígida nunca deixei de observar de canto de olho aquela rua feia, meio atrevida, que indicava o caminho. Assim foi desde a infância.

Pouco se fala sobre as diretrizes modernizadoras do Estado, na década de 1950, instauradas no Rio de Janeiro para isolar os doentes mentais. A música “Neurastênico”, de Nazareno de Brito em parceria com Betinho, embalava os copos dos irresponsáveis pela geração Baby Boomers. Vejo os pracinhas em Copacabana cantando alucinadamente nos bailes “Sou neurastênico/ Brr..rrumm! Preciso me tratar / Senão eu vou pra Jacarepaguá”. Não é que não tenham corpos. Havia o azedume, é claro. Todos haviam de descontrolar a fome de vida, dignidade humana. Ninguém julgará os que se safaram de transtornos pós-traumáticos construindo ninhos por aí.

Estou escutando a música ensurdecedora no toque aveludado das lagartas, está queimando tudo. “A Colônia é logo ali”. Escutem o sapateado, vai ritmando o foxtrote das paradas de sucesso já na década de 1970 em função do fenômeno Global “Estúpido Cupido”. A música passa divertida embalando espermas bem resolvidos, enquanto  a trama revela uma doce normalista do interior paulistano que sonha em ser Miss Brasil. Imagino Leonardo Villar voltando ao prédio em que morava, talvez em Copacabana, cansadíssimo e com a música arranhando no disco rígido da cabeça “Se não eu vou pra Jacarepaguá”.

Mas ninguém vem a Jacarepaguá ainda hoje.

Quem mora por aqui não é carioca. Também não veste roupa “undergroud”. Nossa roupa não tem história. Ou tem? Somos pobres cosmopolitas. Se sou cidadã do mundo, tento não atender o rigor das missas que frequento, a não ser quando saio de casa sozinha, sem ser vista. Mas também, ninguém vem a Jacarepaguá  (Ainda que a Central Globo de Produções seja logo ali).

Sento diante do antigo pavilhão da Colônia Juliano Moreira, está acabado. Há muitas promessas de reformas, ninguém as conhece. Ainda carregamos o fortalecimento de uma identidade nacional pautada pela exclusão dos corpos, na loucura se operam a fiscalização  e a execução. A história dos residentes nem se instaurou e se encontra em ruínas. Ironicamente, sentei com Virginia, faz algum tempo que vem me acompanhando.

Há muito extravasamento em nossa existência. Olho de repente e avisto uns macaquinhos, sempre me disseram sobre eles. Observam-me meio ressabiados. Encontram em mim alguma selvageria escondida? Nos meus dias mais felizes (ou menos tristes) enxergamo-nos. Certa vez minha amiga britânica me disse sobre o campo nevado da mente, lugar onde poucos homens pisaram. Queria me encorajar. Lembro-me bem, foi naquele dia em que julguei ver Septimus morto. Ou escondido? Ele me diz sobre pássaros cantando, boa música talvez. Ao contrário de Clarissa, que examina rosas em vasos, prefiro olhar para essas um tanto murchas. Estão na minha frente. Talvez Clarissa tenha medo dos intestinos da terra. Clarissa tinha medo de que Septimus fosse embora. Virginia não. Ela me diz que devemos brindar a alegria da coragem em assumir as faces da vida. Uma sala vazia é uma sala vazia.

Os homens não pensam no corpo doente. Ninguém vem a Jacarepaguá e o filósofo francês sabe o porquê. Virginia também o adivinhou. Caminhamos pela Colônia e tivemos o direito à respiração. Não é curioso em tempos de pandemia? Por aqui há lugares insuspeitos de natureza selvagem. Um corpo mal vestido é só um corpo mal vestido. Ou não. Há muita doença no rigor e na palavra nua. O rei está nu, disseram. Mas quem viu o rei nu? Onde está ele? Um rei nu é humano, demasiadamente humano. Minha roupa ficou suja por ter amado.

Virginia me dizia que percebemos a significância do corpo quando sentimos uma febre de quase quarenta graus, vai queimando tudo. Você sente a dormência no braço, sente o engulho, sente a cabeça explodir e não mais que de repente volta. As pessoas te olham e você só quer dormir… só quer dormir. Por que falar de sentimentos quando se é corpo? Falar de ciúmes, de raivas, de rancores… quando se é corpo? Havia muita lucidez na fala de Virginia. De repente, hoje, tive de resignificar a longa correspondência que trocamos por tantos anos. Expliquei à Virginia que, de alguma maneira (talvez especial) amor e doença (ou corpo e doença) deram as mãos. O amor e o gozo (assim como a doença) tornaram-se indissociáveis. Ganharam corpo.

– Virginia, as pessoas não vêm a Jacarepaguá. Confrontam-nos, julgam nossas roupas quando os prazeres mais sinceros foram lavados com o corpo e com a podridão que não para de nascer. Não acontece com regularidade, talvez uma nuvem se feche neste momento sobre sua cabeça. Posso sentir o inverno rigoroso que nos oferecem. Os olhos inflamam e já tenho um aspecto doentio. Há muita floresta quando identificamos o outro, o corpo se cansa e é das vísceras que estou falando, são mais verdadeiras do que o inferno consolador das boas almas. Observe a mariposa. Quero-a livre como agora. Aqui, em Jacarepaguá, ela não é símbolo de renovação. Ela é negra, está nua e vestida de sensualidade.

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

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