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6ª edição – Artigo: “LIVROS, LITERATURA E PANDEMIA” – por Juliane Elesbão

By Redação no novembro 23, 2020
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LIVROS, LITERATURA E PANDEMIA
por Juliane Elesbão

Em época de pandemia, os livros e a leitura têm sido fundamentais para que adultos, jovens e crianças possam passar por esse momento de isolamento social sem se sentirem tão sozinhos e, assim, poderem estabelecer uma relação entre o “mundo” ficcional e o mundo real.

Vale salientar que cultivar o hábito da leitura numa situação tão atípica como a que estamos vivendo contribui para o autoconhecimento, visto que o atual contexto exige que nos voltemos para nós mesmos com certa atenção especial. Além disso, podemos afirmar que é através da leitura que o ambiente familiar se torna mais valorizado por propiciar esse tipo de experiência para qualquer um de nós. Assim, a angústia e as incertezas resultantes da pandemia da Covid-19 dão lugar a momentos de satisfação, de aprendizagem, de fuga dessa realidade caótica, visto que “aqueles que utilizam [a leitura] para aprender nos livros e para se distrair com eles possuem os tesouros do conhecimento. Podem ornar de tal modo sua inteligência que a perspectiva das horas solitárias se apresenta menos triste” (ADLER, 1954, p. 7).

A partir de então, podemos pensar que, por meio da leitura, conseguimos ampliar a nossa visão, até mesmo, para entender a atual situação que estamos vivendo, haja vista ter influenciado de modo significativo e abrupto nossas rotinas e nossa forma de nos relacionarmos com o outro. Devemos considerar que nossas ações rotineiras definem muito o que nós somos, especialmente se levarmos em consideração o que afirmou o filósofo espanhol José Ortega y Gasset, quando disse: “Eu sou eu e minha circunstância”, em Meditações de Quixote, de 1914. Logo, o cotidiano delineia um sistema fixo de referências que fornece o mínimo de segurança e estabilidade para o homem, a fim de que ele possa dar forma à sua identidade e projetar o seu futuro. No entanto, esse mesmo homem viu seus pontos de referência abalados por uma pandemia, que não era prevista e que foge ao seu controle. O cotidiano, por sua vez, sofre uma crise que acentua os conflitos internos e a insegurança gerada pelo coronavírus.

Toda essa situação leva o ser humano a refletir sobre si, sobre o outro, sobre o mundo… Então, os livros atuam aí como suporte para esse autoconhecimento e para uma melhor compreensão acerca da instabilidade imposta ao cotidiano, ao nosso dia a dia. Ademais, os livros, a literatura, ainda reforçam que não estamos sozinhos – e nem devemos nos sentir como tal – na vivência da atual adversidade que enfrentamos. Salientamos aqui o que disse o escritor brasileiro Luiz Ruffato para o site do Itaú Cultural: “A literatura não tem a pretensão de curar as dores do mundo; mas certamente ilumina caminhos” (2020, s.p.), e é essa iluminação que nos torna mais humanos em um contexto que beira ao desumano.

Além disso, a ficção oferece ao leitor narrativas que se identificam com o momento pandêmico que vivemos agora, a nos mostrar que esse surto de Covid-19 não é, necessariamente, uma situação isolada, única, particular. A partir daí, a literatura nos obriga a refletir sobre os limites que ultrapassamos e sobre que civilização é essa em que nos tornamos. Dessa maneira, a narrativa ficcional engendra uma tentativa de sentido para essa experiência humana, calcada no desespero, no pânico, na alienação, etc. É aí em que temos o ponto de encontro entre ficção e realidade, levando-nos a transitar outros universos, a apreender territórios provisórios e a ter uma outra percepção das nossas existências. Através dela, podemos tentar interpretar o nosso presente e repensar o nosso futuro.

A partir de então, salientamos que a literatura também tratou e trata de temas voltados para o enfrentamento de um mal desconhecido pelo homem e que ameaça a sua espécie, o que pode possibilitar a avaliação de eventuais perspectivas ou respostas para uma situação tão “distópica” como essa em que estamos imersos. Obras como A peste (1947), de Albert Camus; Um diário do ano da peste (1722), de Daniel Defoe; Ensaio sobre a cegueira (1995), de José Saramago; A dança da morte (1978), de Stephen King; O amor nos tempos do cólera (1985), de Gabriel García Márquez, para citar algumas, são bons exemplos de textos literários que retratam uma situação pandêmica imposta sobre os homens, que precisam lutar para sobreviver, além de terem que lidar com questões pessoais, existenciais, emocionais, etc. Logo, o que queremos defender aqui é que a leitura e a literatura podem ser fontes de revelação ou, pelo menos, pontos de partida para buscarmos compreender as agruras que nos assaltam hoje e que nos atingem tão profundamente, por conta das nuanças provocadas por essa doença infecciosa chamada Covid-19.

Ademais, se atentarmos bem, a literatura vem acompanhando as mudanças de várias ordens na sociedade, a dar a alternativa para que escritores possam expressar suas inquietações – que também podem ser as nossas – acerca dessa realidade caótica e incerta que vivenciamos. Logo, ela pode ser concebida como uma necessidade humana, ou seja, “a arte existe porque a vida não basta”, como já havia afirmado o poeta Ferreira Gullar.

Deixamos, então, essas reflexões para que pensemos não apenas o nosso lugar e o nosso papel em meio a essa pandemia, mas também o lugar que a leitura e a literatura devem ocupar em nossas vidas, a fim de que revejamos nossas crenças, estabeleçamos alternativas para não sermos dominados pela solidão, para que não caiamos numa histeria generalizada, para que valorizemos os laços sólidos com a família e os amigos, para que desaceleremos nosso ritmo em relação à vida e ao tempo que temos e, por fim, para que possamos inventar novos modos de ser.

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

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