setembro 20, 2021
  • setembro 20, 2021
Novidades
  • Home
  • Edição Atual
  • 6ª edição – Artigo: “Literatura de língua portuguesa: o hipertexto do mundo” – por Erick Bernardes

6ª edição – Artigo: “Literatura de língua portuguesa: o hipertexto do mundo” – por Erick Bernardes

By Redação no novembro 23, 2020
0 176 Views

Literatura de língua portuguesa: o hipertexto do mundo

por Erick Bernardes

Sabe-se que os acessos instantâneos aos meios de informação, bem como as leituras aceleradas fomentadas por suas plataformas digitais, exemplificam muito bem certas mudanças no processo educativo e na comunicação como um todo. A quantidade de inovações concernentes às tecnologias disponíveis ao leitor sinalizam a urgência de “certa” maleabilidade para lidar com estudantes e seus respectivos saberes, estendendo essa necessidade para além do panorama acadêmico e escolar, isto é, o dia a dia do docente se mostra indissociável da conjuntura educacional, a tecnologia cibernética se tornou também um campo de pesquisa necessário ao que se convencionou chamar de universo digital. Isso leva o professor de língua portuguesa a reconhecer a importância salutar da literatura digitalizada no âmbito da educação. Dito de outra forma, docentes e especialistas na área educativa necessitam se adaptarem compulsoriamente à exigência do panorama global de educação e, com isso, a obra literária (de suporte digital) assume relevante papel. Mas, que papel é esse que os tempos de hoje exigem tanto assim do professor de língua portuguesa? Respondemos, é o papel do docente como provocador de olhares mais críticos com relação aos diversos gêneros de textos disponíveis nas mídias de internet, e é aí que entra a literatura, ou seja, os textos de criação: contos, crônicas, romances, novelas e poemas (principalmente poemas) avultam junto às bases eletrônicas de comunicação. Não está claro que há um fenômeno de novos poetas amadores em destaque nas redes? Qualquer blog pessoal contém o seu verso ou “narrativa de si”, do outro, dos outros, como um tipo de diário disponível ao público. E as conversas escritas nas plataformas são tantas, frequentemente inventadas, por vezes nem se sabe o que são verdadeiramente. Mas são textos, sejam eles impressos ou eletrônicos – com uma abordagem extra-muros escolares e acadêmicos. Soma-se a isso o fato de que, ao lidar com as multiplicidades de linguagens, educandos e educadores fazem mesmo jus ao termo “navegar” na internet, pois é mais que preciso hoje esse modo de se lançar ao mundo do outro, conforme há muito nos adiantou Fernando Pessoa, isto sim é comunicar-se. Por isso, tudo ao redor (dependendo da perspectiva) é texto, quero dizer:  hipertexto. De acordo com o Dicionário eletrônico de termos literários, de Carlos Ceia (em mídia digital):

“O hipertexto é uma forma não linear de apresentar a informação textual, uma espécie de texto em paralelo, que se encontra dividido em unidades básicas, entre as quais se estabelecem elos conceptuais […]. Este sistema global de informação pode incluir não só texto mas também imagem, animação, vídeo, som etc., falando-se neste caso de hipermedia. A exibição de museus, a apresentação de materiais acadêmicos, os livros electrônicos, os pacotes educativos etc. são formas de hipermídia (ou hipertextos)”.

Assim, esse hiper texto referido nos “insere” em uma infinidade de dados que se encontram instantaneamente a disposição. Para nós, o hipertexto é uma rede de significados na qual, involuntariamente, somos sujeitos e objetos ao mesmo tempo. Nele estamos lendo e escrevendo; em seus espaços somos autores e leitores produtores de conhecimento, ainda que inconscientemente. Esse tipo de entendimento nos lança naquilo que Paulo Freire (2011, p. 31) chamou de “saberes socialmente construídos na prática comunitária”. Compreendendo que educar “exige respeito aos saberes dos educandos”, os quais vêm sendo configurados na leitura do variado panorama global disponível à prática educativa. Esse hipertexto do mundo é construído a partir das múltiplas esferas de conhecimento, e são essas mesmas esferas os suportes que dão sentido às leituras daqueles que são usuários da língua.

II

Quando levamos em conta que, desde muito cedo, as crianças da era da informática já lidam com meios eletrônicos de comunicação, torna-se urgente considerarmos (como profissionais atentos) que essa tecnologia, que põe em contato o jovem de hoje com uma enxurrada de informações, também tende a saturar esse novo cidadão de dados descartáveis, sobre os quais podemos obviamente inferir que nem tudo é aproveitado. No entanto, dos dados que o educando está tentado a absorver, uma grande parcela formará o seu conhecimento de mundo. Partindo desta concepção, devemos compreender que a dinâmica do mundo globalizado não se restringe mais aos meios didáticos – tampouco às academias e escolas – como os modos de aprendizagem por repetição ou apenas aos textos impressos, que exigiam um enfoque majoritariamente passivo.

A partir da “nova” (ou líquida) modernidade, através de jogos eletrônicos, garotos e garotas aprendem uma série de informações via ‘conhecimento simulado. Dito de outro modo, esses jovens adquirem conhecimento pelo processo (inter)ativo, não mais passivamente, conforme se fazia outrora. Os processos tradicionais e passivos não funcionam já vai lá um bom tempo, nem com relação aos alunos nem com os planejamentos docentes e suas aplicações. Em outras palavras, a imersão no universo tecnológico considerado pós-moderno faz parte do cotidiano de todos, mesmo que os poderes aquisitivos econômicos sejam díspares: se não possui internet ou tevê a cabo, por exemplo, o aluno de alguma forma assistirá programas de tevês de rede aberta que já operam com sistema digital de veiculação.

Ao menos na zona urbana isso já configura uma realidade, ainda que desproporcionalmente, devido ao poder aquisitivo sobremaneira desigual. Sabemos que o aluno quer dinamicidade ligada aos novos aparelhos e mídias e, no caso dos professores, eles também não desejam ficar fora do contexto midiático. Sendo assim, é válido compreendermos que, principalmente com o advento da pandemia da Covid 19, a internet viabilizou cursos a distância, aulas on-line, tutoriais e livros digitais. Os chats, Facebook, Twitters, Zooms e Instagrams inauguraram outros modos de articulação comunicativa, cuja instantaneidade equivale a um simples piscar de olhos. Portanto, não adianta dar vazão a ódios e aversões quanto à tecnologia eletrônica, tampouco abandonar os tradicionais textos feitos de papel. Conforme afirma Ana Ribeiro e Carla Coscarelli: “Da mesma forma que um dia o impresso foi alvo de críticas” e se estabeleceu, “o eletrônico veio para ficar e tornar mais ágeis a busca” (2006, p. 86) da informação e, sobretudo, instrumentalizar alunos e professores. Ler, discutir, conhecer empiricamente, refletir, assistir e manipular são formas de aprendizagem que a humanidade está habituada e desenvolvida para fazer há milênios.

A escola (assim como a universidade) pode e deve se aproveitar dessa maneira de adquirir conhecimento e trazê-lo para dentro. Um bom exemplo desse “trazer para dentro” é a prática artística do poeta cearense Zé Salvador, quando ao tomar conhecimento pela mídia de internet sobre o caso do professor de Rio das Ostras, Thiago dos Santos Brandão, que foi agredido em uma escola pública, o poeta cearense evidenciou em seus textos a humilhação por que passou o professor. Sabe-se que Zé Salvador tem publicado seus folhetos de cordel durante décadas pelo Brasil e sempre fez tudo isso de forma artesanal. No entanto, de alguns anos para cá, poemas, contos, fábulas e, principalmente, literaturas de cordel escritas por ele já se encontram digitalizados e em plataformas disponibilizadas pelas próprias mãos do artista cearense. O escritor Zé Salvador se adaptou às novas tecnologias e, atualmente, atinge leitores que na sua época de rapaz jamais imaginaria. O seu poema “Professor: profissão esperança” (2018), publicado no Facebook alguns dias após a agressão sofrida pelo professor Thiago dos Santos Brandão, é cabível de ser tomado como mostra das questões sobre a aprendizagem e entretenimento proporcionados pela literatura postada nas redes, quando a problemática da própria atividade docente surge como tema da produção literária do poeta Zé Salvador.

Sob esse ângulo está claro que, ao mesmo tempo em que o artista manifesta seu repúdio devido ao pouco valor que a categoria dos professores tem recebido, sua arte só é capaz de chegar ao leitor tão prontamente, por causa da tecnologia da internet com seus aplicativos e redes sociais. Dessa forma, o poema nos chega em mãos tão logo a notícia do professor agredido é veiculada nos telejornais. Com isso, o manifesto artístico de Zé Salvador sobressai nesse universo de coisas e fatos instantâneos e serve como amostra desse hipertexto do mundo em língua portuguesa servido nas mídias, onde a matéria literária se hospeda atualmente. Nesse contexto, a literatura faz uso do assunto do bullyng, não só como denúncia dessa prática desleal cometida por alguns alunos contra seus próprios colegas de classe, mas também de alunos que cometem esses atos de opressão contra professores; como ocorreu no caso do profissional docente Thiago Brandão, ao sofrer bullyng no exercício da profissão. O poema do Zé Salvador é sutil, porque o assunto é espinhoso, principalmente quando os vídeos de celulares captam partes das aulas — e o que deveria ser mais um desrespeito ao docente, atravessa o microcosmo da comunidade local e atinge proporções gigantescas —, até que os próprios alunos divulgaram o vídeo por meio do aplicativo do Whatsapp. Com esse caso em vista, Zé Salvador constrói o seu poema “Professor: profissão esperança”:

Estamos globalizados,
Isto em todos os sentidos,
Com a ligeireza dos fatos,
Não tem atos proibidos;
Fake News, viram verdades,
São largas as liberdades
E os feitos pervertidos.

Dá licença, me desculpe
Por favor, muito obrigado;
Isto quase não se vê
Virou coisa do passado,
Sabença nem passa perto
Ainda diz que é esperto
Não será bom seu legado.

O bom senso não existe,
O tratamento é igual
“Dá licença” não tem mais
Agora é tudo informal;
“Você” substitui “senhor”
O velho e bom “por favor”
Não é mais habitual.
(SALVADOR, 2018, p. 1).

Assim, entendemos que toda essa rede de sentidos é o que podemos chamar de hipertexto, porque nele o educando escreve, lê, dialoga e se inscreve, preparando-se, assim, para a vida profissional em meio “à ligeireza dos fatos” (SALVADOR, 2018, p. 1). Outro exemplo dessa rapidez de comunicação foi quando, assim que pedi as informações do site, para incluir aqui neste artigo as necessárias referências, o autor de Professor: profissão esperança relatou que o poema havia ganhado corpo e se tornou uma narrativa em verso muito mais extensa, configurando um folheto de cordel a ser vendido nas feiras literárias. Ou seja, do mesmo modo que a tecnologia se torna temática acerca da educação, ela também serve de tema de poesia e segue o mesmo processo de composição e divulgação sobre o qual tematizou: a internet divulga o assunto no contexto global de comunicação.

(Foto concedida pelo autor Zé Salvador, por meio do Whatsapp)

Com isso, o hipertexto se consolidou como lugar de atuação – um espaço sem fronteiras, sem muros – em que cada vez mais nos damos conta das transformações que as políticas educacionais têm sofrido. Nesse sentido, a preocupação com as condições de uso da língua e das linguagens, por meio de textos literários nos dias de hoje, se mostra bastante relevante, visto que está claro ao educador de língua portuguesa o quanto é relevante à adequação essa imersão na dinâmica da ordem cultural e, consequentemente, a capacidade docente de conjugar essas forças aos seus modos trabalho.

III

Um outro dos muitos paradigmas da contemporaneidade é saber que, se por um lado, há benefícios que as tecnologias nos proporcionam (rapidez da informação, comodidade e entretenimento), por outro, as redes digitais estão repletas de dados inúteis que poderiam alienar intelectualmente o sujeito hodierno. Neste sentido, Zygmunt Bauman dirá que vivemos momentos de modernidade fluida, momentos segundo os quais evidenciam “elos que entrelaçam as escolhas individuais em projetos e ações coletivas – os padrões de comunicação e coordenação entre as políticas de vida conduzidas individualmente, de um lado, e as ações políticas […] de outro” (2014, p. 13). Esses sintomas refletem individualismos excessivos que beiram o isolamento social ou que, de modo contrário, denotam a massificação cultural do mundo digitalizado.

Para Bauman (2014), se tomarmos como exemplo as trocas de mensagens dos sites de relacionamentos, veremos que elas parecem reproduzir a mesma informação para uma quantidade imensa de pessoas. Todos leem a mesma mensagem, veem o mesmo vídeo, mas, paradoxalmente, mantêm-se isolados do convívio social propriamente dito. Porém, ao darmos à tônica desta comunicação a busca por um viés mais interativo, longe do pensamento redutor, que vê em toda evolução ou novidade uma ameaça, constataremos, conforme Pierre Lévy (1999, p. 157), que pela “primeira vez na história da humanidade, a maioria das competências adquiridas por uma pessoa no início de seu percurso educacional estará obsoleta no fim de sua carreira”. Dito de outro modo, a “transação de conhecimentos não para de crescer” (LÉVY, 1999, p. 157) e, consequentemente, a velocidade da renovação dos saberes impulsiona alunos, professores e profissionais em geral a se adequarem aos recentes modos de trabalho, fomentando dessa maneira “reciclagens” contínuas de conhecimentos.

Assim, fica-nos compreendido que o universo cultural contemporâneo é um mundo sem muros em seu próprio hipertexto, dentro e fora das instituições educacionais. Neste hipertexto mundial, serão as escolhas e as experiências renovadoras que darão a tônica, ou melhor, determinarão os posicionamentos que assumimos enquanto educadores atualizados. Trabalhar as linguagens literárias nos possibilita aprender, transmitir saberes e produzir conhecimentos […] o ciberespaço suporta tecnologias intelectuais que amplificam, exteriorizam e modificam numerosas funções cognitivas humanas: memória (bancos de dados, hiperdocumentos, arquivos digitais de todos os tipos), imaginação (simulações), percepção (sensores digitais, telepresença, realidades virtuais), raciocínios (inteligência artificial, modelização de fenômenos complexos), conforme afirmou Pierre Levy (Lévy, 1999, p. 157), e assim nada melhor do que os textos ficcionais e poéticos que jogam com o entretenimento e com as linguagens, contribuindo para a dinâmica de uma nova economia do conhecimento.

 

Referências

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

CEIA, Carlos. E-Dicionário de termos literários (EDTL). Disponível em: <http://www.edtl.com.pt>. Acesso em: 20 out. 2014.

RIBEIRO Ana; COSCARELLI, Carla Viana (Org.). Novas tecnologias, novos textos, novas formas de pensar. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

SALVADOR, Zé. Professor: profissão esperança. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Literatura de Cordel, 2018.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 2011.

FUSARI, Maria F. de Resende; FERRAZ, Heloísa C. de T. Arte na educação escolar. São Paulo: Cortez, 2001.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *