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6ª edição – Araçá Entrevista: Luciano Marcos Dias Cavalcanti – por Carina Lessa

By Redação no novembro 23, 2020
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Entrevista realizada por Carina Lessa.

Luciano Marcos Dias Cavalcanti é doutor em Teoria e História Literária pelo IEL/UNICAMP. É autor de Poesia e transcendência na lírica de Jorge de Lima (2019), Emílio Moura: o poeta em busca do incognoscível (2017), Metamorfoses de Orfeu: a “utopia” poética na lírica final de Jorge de Lima (2015), Música Popular Brasileira e Poesia: a valorização do “pequeno” em Chico Buarque e Manuel Bandeira (2007), organizador das coletâneas Minas Gerais: Diálogos – Estudos de Literatura e Cultura (2013) e Literatura de Minas: Vozes Esquecidas (2016). Desde 2012 é editor da Revista Recorte.

Carina: Luciano, interessa-me falar do seu inaugural livro de poemas Instantâneos do Cotidiano, mas não consigo deixar de vê-lo inscrito no seu trajeto como pesquisador e professor de literatura brasileira. Começo. Desde 2011, você coordena ao lado de Cilene Margarete Pereira o projeto/grupo de pesquisa Minas Gerais – Diálogos, o qual tive o prazer de integrar em 2017 ao desenvolver o pós-doutorado sobre o também mineiro Silviano Santiago. Você poderia nos explicar os objetivos do projeto? Como você vê a importância dele na (re)construção do olhar sobre a cultura e literatura brasileira?

Carina, o grupo de pesquisa “MINAS GERAIS: DIÁLOGOS” propõe o estudo crítico e teórico, analítico e interpretativo e/ou comparativo de textos e autores que tenham Minas Gerais como “espaço literário”, seja por ser lugar de procedência dos autores contemplados, seja por ser tematizada em escritos de autores nascidos em outras localidades. Além do aspecto literário, contempla-se também o estudo das manifestações culturais de Minas Gerais, de caráter urbano e/ou rural, priorizando o diálogo que eventualmente estabeleçam com a literatura. Este grupo tem o objetivo de colocar em debate pesquisas dedicadas a esse amplo e diversificado “espaço estético”, estabelecendo, assim, um campo de estudos literários que configura e destaca as feições caracteristicamente mineiras. Em síntese, sua proposta é: analisar como aspectos apontados como marcas de “mineiridade” incidem sobre a produção literária e as manifestações culturais que têm Minas Gerais como um “espaço estético”, com identidade própria dentro do panorama da cultura brasileira. Talvez a maior relevância desse grupo está na tentativa de descortinar autores e obras que não têm recebido atenção devida da crítica brasileira e do público leitor, estimulando uma discussão a respeito da revitalização do cânone, como também promover um intercâmbio entre pesquisadores que têm esse espaço literário e discursivo como objeto de estudo.

Carina: Dentre tantos estudos que vem produzindo ao pensar Minas como “espaço literário”, em 2017, você publica um ensaio sobre Emílio Moura. O primeiro parágrafo é significativo. Ele destaca o fato de o poeta integrar o grupo de intelectuais mineiros que contribuíram para reformular a literatura produzida em Minas Gerais e no Brasil. Destaca alguns integrantes: “Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Martins de Almeida, João Alphonsus, Cyro dos Anjos, Aníbal Machado, Abgar Renault, Milton Campos, Gustavo Capanema, entre tantos da década de 1920. Acrescenta ainda: “tendo participado do grupo de A Revista, que lançou os alicerces do modernismo em Minas Gerais (…) deixou sua marca pessoal: a sutileza. Avesso às tendências vanguardistas da primeira hora, sem negar influências do modernismo, Emílio Moura sempre foi autônomo e buscou sua própria linguagem”. Acresce à declaração a tendência, já apontada por Drummond, de Emílio ser marcado pelo signo da pergunta. Um “homem solitário e sem rumo”. Faço-lhe duas perguntas neste momento em que nos aproximamos do centenário da Semana: como você vê a atitude de Emílio ao não sair de Minas Gerais tal qual o amigo Drummond? A segunda chegará a revelia (risos).

A Semana de Arte Moderna de 1922 é um momento central para o modernismo no Brasil. A partir dela o Modernismo Paulista se revelou como centro das vanguardas literárias de seu tempo, emanando uma renovação estética para todo o país, mas é preciso lembrar que a concepção estética, social e ética do modernismo não se apresentou de maneira uniforme em todos os lugares e momentos em que aportou. O modernismo é caracteristicamente uma expressão artística heterogênea e plural. Nesse sentido, ele apresentou algumas particularidades em outras regiões do país. Em Minas Gerais, o movimento também compareceu com suas especificidades. Penso que na poesia de Emílio Moura é possível mapear algumas dessas particularidades.  Como você mesmo disse, diferentemente da maioria dos seus amigos, que se mudaram para a capital, Rio de Janeiro, Emílio Moura fincou raízes em Belo Horizonte, onde passou toda sua vida. Pedro Nava descreveu o poeta, em Beira-Mar, como “Antiafobado, calmo, reservadão. Discreto, mesmo. (…) Emílio era a mansidão, a bondade, a desambição, a oportunidade, a reserva, a inteligência, a capacidade de admirar, de querer – em figura de gente.” Talvez essas características de sua personalidade possam revelar o motivo de sua permanência em Minas, o que não o impediu de estar a par de todos os acontecimentos literários do país, por meio de sua correspondência e encontros com escritores que viviam no Rio de Janeiro e também São Paulo. Portanto, a sua permanência em Minas Gerais não parece ter prejudicado sua formação e realização artística e intelectual. Espero que sua obra consiga ultrapassar as montanhas de Minas e alcance vários leitores pelo país. Acredito que a qualidade de sua poesia oferece um grande potencial para isso.

Carina: Ainda sobre Emílio, destaco do seu ensaio: “será visível a multiplicação do sujeito poético, numa tentativa malograda de comunhão, pois mesmo que o poeta compreenda que a vida se faz pela multiplicidade e pela relação com uma história pregressa, ele acaba só, como revela os dois últimos versos do poema [Meu coração]: ‘Meu coração se multiplica/agora é apenas meu coração que está palpitando no mundo'”. Como sentir mineiramente esse “coração maior que o mundo”, tal qual os versos de Tomás Antônio Gonzaga, mantendo o instinto de localidade?

Há a difusão no país, como também em Minas Gerais, do “mito da mineiridade” que definiu inicialmente a personalidade do mineiro de maneira múltipla: racional, conciliatório, tímido, desconfiado, equilibrado, concordante, simples, doce, etc. Esse caráter múltiplo que forma a tal “mineiridade”, muitas vezes, pode ser contraditório ao percebermos uma Minas aberta, revisora, contestatória, que não se conforma com a mesmice dos princípios estabelecidos, reexamina nomes, situações, ideias, com espírito crítico e irônico. O que também traz para esse Estado o caráter e o desejo do universal. Penso que Emílio Moura representa bem este espírito contraditório, que, na realidade, é humano, mas específico em sua obra quando notamos o flerte do poeta com a vanguarda modernista e com a forte tradição literária e cultural mineira (neoclássica, barroca e simbolista), visível em seu apuro formal, na sua inquietação “mítico-religiosa”, na sua preocupação com desajuste do homem e com os mistérios vida.

Carina: O menino aparece algumas vezes nos seus poemas. Você poderia falar um pouco sobre a infância em Mariana? Como o olhar do artista já se manifestava na leitura inicial do mundo?

Minha infância em Mariana foi típica de um menino interiorano de Minas. Mariana é uma cidade cercada por igrejas barrocas, casario colonial e muita história, um espaço onde o catolicismo é central na formação educacional de todos seus habitantes. Neste ambiente, o menino pode brincar, andar de bicicleta, nadar em cachoeiras e ouvir das pessoas mais velhas muitas histórias fantasiosas. Eu sempre gostei muito de conviver com pessoas mais velhas e escutava, com muito interesse, suas histórias. Na escola frequentemente se falava de escritores e artistas importantes, como Cláudio Manuel, Gonzaga, Alphonsus de Guimaraens, Aleijadinho, Ataíde, etc. Lá podíamos conviver de perto com suas obras, ler seus os textos e observar suas pinturas, esculturas e/ou arquiteturas. Mas o que mais gostava mesmo, e penso que me marcou definitivamente, era a audição das histórias contadas pelos velhos, a convivência com meus amigos, as andanças de bicicletas pela cidade e seus arredores. A memória da infância me leva ao meu local de origem, impossível de se desvencilhar. Mas compreendo a memória da infância para a criação literária como a concebeu Schiller em seu famoso livro Poesia ingênua e sentimental, como uma “ideia” e imaginação, não aquilo que realmente foi vivenciado por mim. No entanto, é inegável que a busca do olhar daquele menino, aquele que vê e conhece algo pela primeira vez (o olhar inaugural), tem muitas relações com a poesia que o poeta adulto pretende revelar a seus leitores.

Carina: Manuel Bandeira é uma presença forte no livro, ainda que pela contradição. O título já enuncia a conversa ao fazer referência ao cotidiano. Qual a importância do modernista no seu processo de escritura? Há uma reflexão neste momento em que nos encaminhamos para o centenário da semana de arte moderna?

Posso dizer que descobri um possível sentido para a poesia com a leitura de Manuel Bandeira, com ele pude perceber de maneira clara que a poesia, como está expresso na epígrafe do livro, “está em tudo – tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas quanto nas disparatadas”, mas para elaborá-la é preciso muito trabalho. Essa foi a minha busca com o livro Instantâneos do cotidiano. Levei muitos anos para escrevê-lo, sempre duvidando se realmente havia poesia em seus versos, retrabalhando-os, eliminando poemas inteiros, mas sempre convivendo com eles, na tentativa de apura-los. Na minha vivência do dia a dia busquei perceber e desentranhar a poesia que presenciava em meu cotidiano. Manuel Bandeira foi meu mestre. Uma das características mais importantes da poesia de Manuel Bandeira é sua estreita relação com o cotidiano humilde e banal. A grande realização do poeta foi desentranhar desse cotidiano, por meio do trabalho poético (da escolha do vocábulo, do ritmo e da imagem precisa), a mais alta poesia. Aprendi com o poeta pernambucano que é possível encontrar o sentimento e/ou as experiências mais elevadas nas coisas mais simples de nossa vivência cotidiana. Outra coisa que aprendi com o poeta é que o verso livre não se realiza apenas com o posicionando de um verso debaixo do outro, sem considerar seu ritmo ou expressão visual. O uso do verso livre, como considerava o poeta, é de mais difícil realização do que o verso medido, que já tem uma forma estabelecida que o poeta, em tese, pode utilizar na construção de seu texto poético. No verso livre, para a elaboração do poema, o poeta precisa encontrar um ritmo e/ou uma forma própria para realização de cada poema. Aí está sua imensa dificuldade para sua concretização. 

Carina: Na selva escura, Indigestão antropófaga…, dentre tantos outros, nos oferecem uma experiência de cansaço. Sentimos a deformidade do ser humano e a necessidade de isolamento. Até mesmo o mar, tão visitado pelos poetas, é lugar de escuridão. Você vê nesse tom romântico uma tendência na Literatura Contemporânea?

Não consigo responder essa pergunta de maneira precisa por considerar a literatura contemporânea um universo muito diverso e impreciso. Mas desde a modernidade e suas atrocidades – perceptíveis nas duas grandes guerras mundiais, nos regimes totalitários e fascistas -, o homem se revelou extremamente desiludido, pois se extinguiu a certeza de que o progresso e a razão humana trariam uma vida pacifica, organizada, confortável e solidária a todos. Esse tipo de desesperança no humano, o desencanto com o mundo, é visível na maioria dos autores modernos. Talvez esse sentimento possa ser denominado romântico. Mas considero o nosso tempo, como bem disse Byung-Chul Han, uma “sociedade do cansaço”, como você se refere em sua pergunta. Para o filósofo coreano, não vivemos mais aquela sociedade disciplinar que Foucault analisou. Para ele, o século XXI gestou uma sociedade do desempenho e da produção. Nesse sentido, somos nós mesmos que nos cobramos, nos controlamos e nos oprimimos cotidianamente. Situação muito grave, pois o poder não precisa mais nos vigiar e oprimir, nós mesmos fazemos isso. Não há mais tempo para o ócio, para o devaneio, para reflexão demorada, para a leitura de poesia, para a fruição da vida. Por isso, estamos sempre exaustos e desiludidos. Situação que fatalmente é representada na literatura de nosso tempo.

Carina: Na quarta capa, há um poema muito impactante. Denominado Esperança, encaminha-nos ao total desencanto: “A esperança não mais respira./Os desfibriladores estão danificados,/Não há pancada que ressuscite o/Corpo que já não cheira bem.” Esse poema lê a situação de incertezas na virada do século. De que maneira o homem Luciano vem experimentando a pandemia e a situação política do país?

Este poema expressa bem essa sociedade deformada na qual vivemos. A esperança, em tese, é um sentimento positivo, que nos impulsiona para a realização de nossos desejos, para a utopia. Um sentimento positivo e necessário. Mas no mundo em que vivemos, de maneira bem realista, muitos já não podem ter esperança, porque já estão mortos. O contexto social e político escabroso no qual vivemos me faz ter um olhar crítico sobre a positividade da esperança. Esta situação me faz lembrar o que Walther Benjamin diz ao observar o Portal A Esperança, de Andrea Pisano: “Está sentada [a Esperança] e, desvalida, ergue os braços em direção a um fruto que lhe permanece inalcançável. Contudo é alada. Nada é mais verdadeiro.”. Nesse sentido, a esperança é um sentimento pronunciado como positivo, mas não passa de uma ilusão, pois o desejo movido pela esperança para obter algo não pode ser alcançado. Dessa forma, a esperança pode ser considerada uma fantasia criada por uma ideologia, que aponta para a concretização de nossos desejos, mas que serve aos interesses obscuros do poder, pois nem todos poderão realizar seus sonhos. Assim, o indivíduo esperançoso pode acreditar ad eternum numa mudança que nunca ocorrerá em suas vidas.  Este cenário é desolador, mas é preciso resistir. E a poesia talvez seja um veículo importante para isso, pois a poesia está intrinsecamente ligada às experiências mais íntimas e mais significativas do ser humano, expressão de sua subjetividade mais radical. Nesse sentido, a poesia exerce o papel de contradizer a generalidade abusiva das ideologias dominantes. A poesia dá existência (faz aparecer) o humano oculto no mundo, tem o poder de revelar tudo aquilo que está invisível (escondido) aos olhares do mundo estabelecido, o qual direciona sua visão apenas para a superfície do consumo, deixando de lado o próprio homem. Precisamos resistir…

Carina: Quais nomes da literatura brasileira você destacaria por uma experiência de leitura autenticamente universal?

Carina, tenho um apreço enorme aos nossos clássicos, vou citar apenas dois, para não me estender muito. Carlos Drummond de Andrade para mim representa o que há de mais importante na poesia moderna ocidental. É impossível que qualquer estudioso de poesia moderna do mundo possa deixar de frequentá-lo. A sua poesia trata da provinciana Itabira e das várias contingências da vida moderna ocidental, com maestria. Outro autor incontornável é Machado de Assis, que como ninguém, nos ensina até hoje o que é o Brasil, e universalmente, o que é o homem e como ele atua com suas diversas máscaras.

Carina: Quais escritores mineiros são pouco lidos, por não constituírem o cânone, e que deveriam ser olhados com especial atenção?

Penso que Emílio Moura é um deles, por sua qualidade poética, sua delicadeza e sofisticação. Outro também bastante relevante é o contista João Alphonsus (filho do poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens), por sua narrativa marcada pela figuração trágica da vida, mas também carregada de lirismo e comicidade. Há vários escritores mineiros que mereceriam a revisitação dos leitores e dos críticos contemporâneos, penso que todos aqueles que você mencionou no início da entrevista merecem ser lidos.

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

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