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6ª edição – Araçá Entrevista: Godofredo de Oliveira Neto – por Carina Lessa

By Redação no novembro 23, 2020
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Godofredo de Oliveira Neto é professor titular de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da UFRJ. É autor de romances como O Bruxo do Contestado (1996), revelação do ano pela Folha de S.Paulo e revista Veja, e Amores Exilados (2011), aclamado pela crítica como importante livro sobre os exilados políticos durante o regime militar no Brasil. Seu livro  Ana e a Margem do Rio (2002) recebeu o selo de “altamente recomendável” da Fundação Nacional para o Livro Infantil e Juvenil. Outros livros do escritor são: Oleg e os Clones (1999), Menino Oculto (2005), segundo lugar no 48º Prêmio Jabuti, e Marcelino (2008). Faina de Jurema (1981), primeiro romance do escritor, pode ser considerado como um marco inaugural da estética pós-moderna no Brasil. Desenvolvido na França, recebeu especial olhar do filósofo Jacques Derrida. Em 2013 foi lançado seu mais recente romance: A Ficcionista. Atualmente, Godofredo escreve crônicas intituladas A caminho do Fundão, reflexões teóricas sobre a contemporaneidade são desenvolvidas a partir de um olhar acurado das vivências (ficcionais e não ficcionais) na UFRJ. Além disso, em 2021, publicará na França o romance Esquisse, ainda sem previsão de editora no Brasil.

Resumo do romance Esquisse cedido pelo tradutor Richard Roux.

Ano de 2020, Brasil, Nova York e Veneza. Um comerciante esconde, em Veneza, um precioso esboço (esquisse) de famoso quadro de Hieronymus Bosch. Quando esse fato vem à tona, os descendentes desse veneziano no Brasil querem recuperar o quadro. Mas os herdeiros brasileiros descobrem que a obra se encontra, na verdade, no cofre de um Banco em Nova York. Uma guerra de fakes news vai acontecer entre os herdeiros. Luigi, membro da família herdeira instalada em Santa Catarina , é escolhido para viajar aos Estados Unidos em busca do quadro. Personagem psicologicamente instável, Luigi , já em Nova York, começa a desconfiar da honestidade da sua família. Sente-se observado em Nova York, tem a impressão de estar sendo seguido por mafiosos, uma bela jovem latino-americana se oferece a ele de forma estranha. A pessoa que deveria lhe entregar o quadro, com quem ele conversou em bares de NY, é assassinado. Imerso no mundo novayor quino  de night clubs e da promiscuidade, com travestis e prostitutas, Luigi descobre, surpreso, que nos Estados Unidos ele não é ” realmente branco”. Esse viés acaba por dar ao romance ” Esquisse” um sabor inesperado na narrativa. Via as modernas tecnologias, Luigi mantém contato diário com a namorada em Florianópolis. O silêncio da companheira no whatsapp e na chamada de vídeo despertam nele ciúmes e a sua insegurança aumenta. Um dos tios herdeiros, o mais ativo nessa operação de resgate, é assassinado em São Paulo, numa cena de crime com conotações homofóbicas. Uma nova versão dá conta de que o quadro nunca saíra de Veneza. Luigi viaja para a cidade italiana, e o leitor espera que as coisas vão se normalizar. Mas as surpresas vão se suceder.
O texto de ‘ Esquisse”  vem escrito num ritmo de cortar a respiração, com idas e vindas no tempo e no espaço entre Nova York, Veneza e Florianópolis. Os capítulos curtos  aumentam a pulsação da narrativa e as referências ao mundo contemporâneo  – do coronavírus à política americana e brasileira atual –  trazem  grande inovação na técnica de composição literária. A cultura brasileira – literatura, poesia, música cinema, artes plásticas –    e o universo das redes sociais, dos blogs, séries televisivas, lives e a rapidez da informação no mundo contemporâneo se refletem no livro.

Conversa:

Carina – Nossa entrevista busca pensar a Literatura Brasileira na última década. Ao que parece, um novo caminho se insinua, principalmente a partir do fortalecimento dos estudos culturais, que muito têm promovido uma força identitária nas diversas produções artísticas. Como você enxerga esse percurso?

Godofredo – Penso que o romance constrói ele próprio o seu destinatário, o que costuma se chamar de leitor ideal. Dá para unir estética e mensagem cultural, cultural no sentido amplo. Os  Estudos Culturais vieram pedir um pouco mais de abertura em função de mudanças na geopolítica mundial e da inclusão social . Mas a autonomia da literatura não pode acabar. O romance se fechou talvez um pouco demais sobre si mesmo numa época. Será que isso não afastou aos poucos os leitores, agravado pelo surgimento do suporte tecnológico da internet? essa abertura vale para a produção mas vale também para a análise crítica. Penso aqui no Antonio Candido  nas suas últimas reflexões.

Carina – Neste momento, você finaliza novo romance: Esquisse. Há reflexos significativos sobre a questão étnica? Pergunto também tendo em vista romances anteriores como: Ana e a margem do rio e Marcelino.

Godofredo – No Esquisse há uma conscientização da questão racial de um brasileiro nos Estados Unidos, quando um cliente de uma lanchonete, incomodado por alguma coisa,o chama de nigger, super pejorativamente. Em relação aos 2 outros títulos citados, penso às vezes que a noção de romance pode se redefinir a cada livro novo. Como situar, por exemplo, o teu  “Aborto ” no romance brasileiro hoje? Acho que foi o Todorov ou o Jauss que tocaram nesse tema ao tratar da questão dos gêneros literários. Esquisse pode seguir uma linha já traçada na minha obra mas não é igual.

Carina – Esquisse, que significa “esboço”, desperta curiosidade já pelo título. A trama parte do quadro de Hieronymus Bosch que fora escondido. Você retoma a ideia empreendida em Menino Oculto (vencedor do Jabuti em 2006)?

Godofredo – Talvez. Não é a falsificação ou a vida de um falsificador desta vez. Mas uma herança. O livro se passa em Nova York, Veneza e Florianópolis, cidades onde estive no ano passado. Parto do princípio que a literatura ajuda a emancipar homens e mulheres  das amarras impostas pela natureza, pela religião e pelas regras sociológicas. A literatura ajuda a gente a respirar. Claro, Esquisse não é para ser um modelo de comportamento.

Carina – Poderia nos dizer o porquê da escolha de um quadro do século XV, de um pintor que teria servido de inspiração aos surrealistas no início do século XX?

Godofredo –  Acho que essa ponte entre o romance fechado em si, sem o filtro da razão, como queriam os surrealistas, se adequa bastante para a compreensão da trama. Tem um quadro do Bosch em que um médico faz um buraco na cabeça do paciente para ver o que tinha lá dentro e que deixava esse paciente meio louco (risos).

Carina – O romance Esquisse, como já disseram sobre o Menino Oculto, muito se assemelha ao timing de Almodóvar, sempre muito polêmico também no que diz respeito aos limites da arte. Lembremos de Dor e Glória ou A pele que habito. Há na sua escrita uma intencionalidade de diálogo com o cineasta? 

Godofredo – Sim, os filmes de Almodóvar mexeram bastante comigo. Gosto dessas idas e vindas entre o real e o absurdo, ou entre o real e o ficcional. Mas é bem diferente do Surrealismo. Põe face a face as emoções e a razão. Almodóvar trabalha os limites da arte, como você diz.

Carina – A partir do personagem principal, pergunto-lhe: vale a pena (ou a tinta) um esboço que levaria alguém à morte?  A arte deve limites ao seu espectador ou objeto de experiência?

Godofredo – Leva à morte simbólica, como a literatura é simbólica. Volto a citar o ” Aborto” nesse particular. Aliás, baita livro, excelente. O leitor faz parte da obra. Existir e criar são pulsão e desejo. O leitor, no fundo, sabe bem disso.

Carina – Ao lermos o resumo supracitado, verificamos uma forte presença de grandes questões contemporâneas, que passam pela política, pela arte, pela pandemia, bem como pela fugacidade nas relações interpessoais. Como o artista Godofredo de Oliveira Neto vem experimentando este momento de grandes transições desde a virada do século XX para o XXI?

Godofredo – Um pouco assustado. A dessacralização da literatura, para mim algo bacana em princípio, como pensava Clarice, tem que ser vista com cuidado. Pode levar a uma produção rasa, pouco compromissada com o que se chama arte. Descamba por demais para o figurativo. Além do que parte de uma classe média egocentrada e pouco inclinada à fraternidade. O obscurantismo leva à violência. Já a arte salva.

Carina – Você escreveu dois grandes romances – Marcelino Nanmbrá, o manumisso e Pedaço de Santo, respectivamente – que nos oferecem um olhar para dois momentos de ditadura no Brasil. A questão política sob um viés histórico ainda se impõe como mote na condução dos seus trabalhos artísticos?

Godofredo – A questão política ficou submersa com a entrada em cena do sujeito empreendedor – também empreendedor nos blogs literários etc –  e o umbiguismo exacerbado. Há um movimento – mas há outros – de resgate da literatura que passa por reencontrar valores que a marcaram profundamente ao longo da história, como o realismo machadiano e o pré-modernismo. Ou o  o Regionalismo ( um neo-realismo) do Graciliano. A literatura afro-brasileira, ou negro-brasileira, como querem alguns, em forte crescimento no Brasil, pega esse viés. Quer ser clara nas mensagens sem perder a ideia de arte. Dura sem perder jamais  a ternura.

Carina – Como professor, conduz projetos de pesquisas sobre a literatura contemporânea. Há uma estética ou temática mais evidente nas duas primeiras décadas do século XXI?

Godofredo – Penso nessa última que citei. A literatura afro-brasileira. É onde está o trabalho mais vigoroso. O nome da Conceição Evaristo é o que mais aparece como ícone desse movimento. 

 

por Carina Lessa

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

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