junho 20, 2021
  • junho 20, 2021
Novidades

5º edição – Conto: “Viagem de Carnaval”

By Redação no outubro 16, 2020
0 139 Views

Viagem de Carnaval

Numa casa estranha, fatos extraordinários vinham acontecendo.

Incrível! Região dos Lagos, como é possível que coisas assim possam ocorrer em lugar tão calmo, mas o certo é que aconteceram.

Aqui começo minha história. Viajávamos sempre em família e, daquela vez, nos convidaram para ficar numa casa na Região dos Lagos. Achamos a ideia maravilhosa, pois nos emprestaram a residência. Caramba! Um sonho, mas que virou um pesadelo.

Alguns viajaram de ônibus e outros de carro, entretanto, todos chegamos praticamente juntos. Ao dobrarmos a rua que dava para a casa, verificamos ser toda ela feita de chão e ficava num condomínio com lindas outras moradias. Chegamos de noitinha, por isso tivemos que comer algo na rua para depois descansar. Ao chegarmos, vimos uma casa enorme, com um varandão na frente, mas estávamos certos que ficaríamos na propriedade dos fundos. Ambas estavam fechadas, provavelmente, durante um longo tempo, talvez anos. Entramos e fomos descansar, mas ninguém dormia, pois o barulho se mostrou ensurdecedor, vinha da casa da frente, porém não se notou ninguém lá. As árvores do quintal balançavam caprichosas seus galhos, sem nem bem estar verdadeiramente ventando. Resolvemos seguir e conferir, entretanto, como o barulho parou, preferimos deixar clarear.

No dia seguinte, andamos até a tal casa e notamos que porta não se encontrava trancada. Entramos. Não vimos nada. Muito cheiro de mofo e mais cheiro esquisito. Na cozinha, havia uma mesa imensa com alguma maquinaria manual. Um imenso triturador, um moedor, um esticador de massa com dois rolos de metal. Assustador! Saímos e trancamos a porta depois de olhar cada aposento, muitos quartos, alguns banheiros. Na despensa não fomos, nem na lavanderia. Retornamos à casa dos fundos. Nossa, que susto! Uma teia de aranha imensa na garagem, onde ficou um dos carros de alguém, mas a aranha não estava lá. Ao chegar na outra casa que continha uma pequena varanda, notamos uma sala retangular, não muito grande, um quarto, um banheiro, uma cozinha e um outro aposento maior, onde abrigava uma cisterna. Ninguém entendeu por que os proprietários não aproveitaram aquele espaço para fazer outro quarto. Então fomos para a cozinha, mas, ao entrarmos, desistimos. Pressentimento estranho. Voltamos. Na sequência, procuramos uma padaria para tomar café. Depois passamos no mercado e compramos o que tanto precisávamos, no intuito único de dar um jeito na casa para deixa-la digna de podermos almoçar sem desconforto.

Quando retornamos, começamos pela cozinha, precisaríamos de pá de pedreiro para raspar a gordura do fogão. Foi necessário comprarmos panelas e tabuleiros, porque os de lá haviam se esgotado. Limpamos tudo. Fizemos o almoço e seguimos para um tipo de passeio pela cidade. Ao passarmos por algumas casas do condomínio no caminho, sentimos um arrepio. No fundo do terreno uma casa muito estranha se descortinou. Construção diferente. Antes havia uma outra na frente dela, mas, segundo informações, acabou pegando fogo no passado, sem explicações quaisquer. Havia uma residência sempre com gente nas janelas, mas constituía situação estranha. No referido espaço residencial não moravam tantas pessoas assim. Algumas habitações estavam vazias, não sei motivo. Na memória, ficou a lembrança da chuva frequente durante o tempo em que estivemos lá.

Retornamos à residência e fomos assistir televisão, ficamos um pouco na varanda conversando e decidimos dormir. Bem, achávamos que íamos dormir.

Logo ao deitarmos, bateram na porta, Olhamos pela fresta e não vimos ninguém. Deixamos pra lá, mas não demorou muito, bateram outra vez. Olhamos novamente e ainda não havia ninguém. Fomos até a cozinha, quando vimos um vulto correr pelo quintal. Todos estavam dentro de casa. Ficamos agoniados sem saber o que fazer. Tudo silenciou de repente

Resolvemos então esquecer o caso estranho e jogar alguma coisa para distrair. Não demorou muito e bateram outra vez com força na porta, ao mesmo tempo que tocaram firme nas janelas também. Que desespero, meu Deus! Ligamos para a polícia. Quer dizer, tentamos ligar, mas não conseguimos linha. Ficamos encolhidos no canto da pequena sala. Cada um com seu respectivo objeto, para que pudesse se defender. Novamente o barulho e um clarão no quintal, enxergamos um grupo de pessoas em volta de uma árvore na qual atearam fogo. Situação sinistra, falavam línguas estranhas, entoavam cânticos impossíveis de identificar. Acabei me assustando devido ao ruído e iluminei a janela com o clarão da minha lanterna. Escutamos gritos estridentes. Aqueles rostos apareceram perto da janela, mas nos escondemos, porém, tenho certeza, eles sabiam que estávamos ali.

Tudo ficou calmo ao redor da casa, contudo, a residência da frente se fez toda iluminada ao mesmo tempo que de lá vinham muitos ruídos de falas, cantorias, arrastar de coisas, talvez correntes. A hora foi passando, acabamos dormindo de cansados. Ao acordarmos, tudo estava como antes. A árvore continuava lá, sem indício algum de ter sido ateado fogo a ela. No fundo do quintal, havia um manto branco, mas tão logo avistei o tecido, peguei com uma vara e joguei no lixo. Resolvemos entrar na casa da frente, entretanto, a porta continuava fechada conforme havíamos deixado.

No interior estava tudo estranho, objetos fora do lugar, resolvemos então ir até a despensa e nos surpreendemos: havia saco de farinha aberto e o chão todo polvilhado. O pote do café se encontrava aberto, com pó espalhado na prateleira, tudo muito estranho.

Mesmo intrigados limpamos, guardamos os produtos e trancamos a porta. Saímos para espairecer. Fomos até o centro olhar as lojas. Sentamo-nos na praça, almoçamos e continuamos por lá, até que caiu uma chuva forte e resolvemos retornar à residência de veraneio. Por incrível que pareça, tivemos uma noite tranquila. Acordamos cedo, tomamos café e resolvemos ir até a lagoa. Porém, ao sairmos e passarmos em frente à casa principal, nos veio a surpresa: as janelas abertas, no parapeito da varanda estavam estendidos vários mantos brancos que pareciam úmidos, como se houvessem sido lavados.

Resolvemos seguir com nosso plano e caminhamos até a lagoa. Quando retornamos, outra surpresa: os mantos se encontravam todos dobrados, uns sobre os outros, e as janelas fechadas. Deixamos aquele cenário do mesmo jeito, entramos e não saímos mais. Pensamos que teríamos outra surpresa naquela noite, mas nada aconteceu.

No dia seguinte, a mesma coisa, janelas abertas, só que a porta também estava escancarada, mas não continham os mantos na varanda. Resolvemos tomar coragem e entramos. Sobre a mesa, os pratos, as xícaras que estavam no armário, sobre uma toalha branca e as portas do armário de jacarandá abertas e nas costas de cada cadeira um manto branco. Achamos tudo muito estranho e resolvemos entrar nos outros aposentos da casa principal. Havia travesseiros e as camas de todos os quartos estavam forradas de branco. Achamos então que só poderia ser brincadeira de alguém, só não sabíamos de quem. Trancamos a porta com a chave e passamos os trincos nas janelas.

Nossa noite foi assustadora, ficamos agoniados sem saber o que fazer. Bateram na porta, quase derrubaram as janelas e, não satisfeitos, colocaram fogo na árvore. Quando amanheceu, e já estava bem claro, nos arrumamos, tomamos o nosso café e arrumamos nossas coisas para irmos embora, mas a porta não abria e nem as janelas. Tentamos de todas as formas abrir, mas não conseguimos – e passamos o dia trancados. Na manhã seguinte, quando acordamos, a porta e as janelas estavam abertas, ficamos apavorados, mas, subitamente, percebemos que nem todos estavam na casa. Não demorou muito e meu irmão entrou. Então perguntei o que havia acontecido e ele respondeu que, quando acordou e viu tudo tranquilo, abriu as dependências para respirarmos melhor, pois ficamos um dia e uma noite presos ali.

Resolvemos vasculhar cada parte das duas e acabamos descobrindo algo inusitado para a época. E ficamos nos questionando, por que fariam isso.

Erámos 10 pessoas ao todo, então nos dividimos, cinco foram para a casa da frente e cinco ficaram nos fundos.

Todas as camas forradas com colchas bordadas, travesseiros de luxo, pareciam almofadas, toalhas finíssimas e tapetes nos banheiros. A louça no interior da cristaleira brilhava, os objetos de metal faiscavam de tão límpidos. Uma jarra com flores naturais em cima da mesa. As panelas sobre o fogão e, penduradas no guarda-roupas, belíssimas vestimentas, do tipo das que não se usavam mais. Retornamos à sala e, para nossa surpresa, a cristaleira estava aberta. Sobre a mesa se viam pratos, copos de cristais, talheres, travessas e muito mais. E o jarro de flores que estava sobre a mesa principal havia sido deslocado para perto da parede. Parecia haver festa iminente.

Tentamos ligar para a dona da casa, não conseguimos. Retornamos à casa dos fundos e trancamos tudo. Saímos pela vizinhança perguntando se viram alguém chegar e entrar. Uns fecharam as portas e as janelas, outros não responderam coisa alguma.

Como já anoitecia, retornamos à residência dos fundos, trancamos tudo e estávamos decididos a ir embora no dia seguinte, bem cedo, quando bateram à porta. Decerto não íamos abrir, no entanto, percebemos que o meu irmão estava do lado externo. Abrimos, ele entrou, seguido de mais quatro pessoas vestidas com belos porém antigos trajes. Perguntamos o que estava acontecendo e eles nos convidaram para o baile de carnaval. Onde seria? Informaram que aconteceria na propriedade da frente. Só assim se compreendeu que tudo não passava de um péssimo entendido – e seguimos felizes para a festa. Necessário admitir que não se tratavam de conhecidos nossos aqueles sujeitos, mesmo assim, foi uma festa maravilhosa. E de fato merecíamos um pouco de entretenimento, depois de tudo que passamos ali. Bastante diversão, bebemos, comemos, dançamos e acabamos dormindo.

Ao acordarmos, qual não foi nossa surpresa, enquanto seguíamos até a frente da propriedade para dar um bom dia aos nossos vizinhos e agradecer pela festa, pasme: tudo estava como antes, como se nada tivesse acontecido, incrível! Um tapete preto na frente da porta de entrada e aquele cheiro de mofo no interior na construção, todas as coisas do mesmo jeito, assustador. Passou uma moradora do condomínio e perguntamos se a festa havia incomodado o seu sono. Olhou para nós de forma estranha, confidenciando não ter havido barulho algum, tampouco festa existiu ali. A propriedade estava fechada há anos, já perdera até a conta. Agradecemos, pedimos desculpas, perdão por incomodar.

Entramos, tomamos o nosso café, resolvemos ir embora no dia seguinte, no entanto, não demorou para percebermos que sobre o galho da árvore havia um manto branco coberto por um papel repleto de palavras: “Foi uma festa linda, gostamos muito de vocês, mais tarde voltaremos. Porém, tomem cuidado com os outros, são bem diferentes de nós, fiquem trancados”. Então, não pensamos duas vezes, arrumamos as malas e partimos, chega de surpresas.

O que aconteceu realmente naquela casa? Foi um sonho? Não sei. Deixo por conta de vocês.

 

_____________________
Sobre a autora:

Angela Moreira é professora de Português, Inglês e Literatura, poetisa, contista, trovadora, contadora de histórias. Nascida em São Gonçalo/RJ. Têm um livro publicado de contos e poesias e participação em três antologias, sendo duas poéticas e uma em prosa. Pós graduada em Especialização em Língua Portuguesa pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro(UERJ), é colunista da Revista Entre Poetas & Poesias e do Suplemento Araçá.

_____________________________

Quer receber os textos do Suplemento Araçá no WhatsApp ou no Telegram? Então, acesse nossos grupos nos links abaixo. Muita poesia, crônica, enfim muita literatura de qualidade e gratuito. Vale a pena.

Link do WhatsApp: https://chat.whatsapp.com/DnuuxC0UwED5liEjqXoZg7

Link do Telegram: https://t.me/joinchat/TrCqZhkAun0FH5enV2rwgQ

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *