setembro 20, 2021
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5ª edição – Crônica: “Fervor”

By Redação no outubro 16, 2020
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Fervor
Kauã Geddes

Partindo do olhar denso e brilhante do vasto universo, que chora em nossos céus lavando a sujeira que largamos pelo mundo e pelo corpo, me vejo reflexivo e inspirado em proporções que não devia. O conforto em um ambiente caótico como uma tempestade reflete em minha mente, com um fervor inexplicável, confundindo a mente dos mortais. Percebo então, que tragicamente, a maior chama do mundo pode ser apagada com uma gota d’água. O incêndio mental consegue trazer um leve estímulo para o coração que me guia para ideias que para muitos soam ilógicas, com tanto calor, é necessário uma reles gota d’água para que o sistema se desorganize, de tal forma que não faz sentido nem mesmo para mim, o pensador de mente incendiada. Um sentimento de glória e imortalidade conforta meu emocional, como se ali brotasse uma papoula e, no hemisfério da mente, há uma sobrecarga de estímulos muito grande. Projetos que revolucionariam os meios científicos e de convívio humano, sociedades inteiras sendo formadas e definidas dentro de minha mente fazem com que todo meu ser se agite para correr, escrever e divulgar meus pensamentos autoproclamados geniais, uma alucinação de sucesso atravessa o meu imaginário e alimenta o meu ego, transformando mentalmente o universo como minha posse. Com certeza, lhe digo que um veículo em alta velocidade sem qualquer sistema de freio tem o mesmo efeito de uma mente abençoada com a criatividade e tem para si a maldição do descontrole. Indago-me a razão d’eu ser tão imprudente, de sempre entrar neste automóvel e me sentir um condutor profissional, que uma hora ou outra é barrado por uma força maior, embora a barreira da realidade já tenha sido ultrapassada há quilômetros, e talvez até impulsionada para me acompanhar e compreendermos muitas mais possibilidades.

Seria eu uma pessoa sólida? Que se opõe aos conceitos da modernidade liquida e vibra conforme as minhas próprias realizações de conceitos baseados em mim? Talvez eu seja um ser paradoxal, que enxerga algo contra as limitações da doxa de minha sociedade, pouco importando com a moralidade; filha da manada. Vale a pena ser alguém liquido, por causa do pertencimento que isso lhe traz ao custo de perda da liberdade como indivíduo. Quero ser livre como um pássaro, que não segue ninguém e vive a vida conforme a si, deslizando nas correntes de vento que o levam e abandonado as coisas no tempo que lhe convém. Contudo, mesmo a mais liberta das aves ainda tem uma programação do que e de como fazer as coisas, estando livre da manada, mas nunca livre de si mesmo. A solidez me auxilia a liberar o incêndio da mente como um dragão que retira o fogo de dentro de si, aliviando-se. Mas ainda estou preso no inferno que causei com a liberação de tanto fogo, e me faço prisioneiro do meu incêndio. Que prisão é essa que permite tanta mobilidade? Cá vivo em meu próprio inferno de pensamentos, criados apenas por mim e alterados quando eu bem entender, me torno a figura contraditória de um deus no inferno.

Com tantos benefícios ao chegar neste patamar de liberdade, a solidez me traz a solidão. Feito estrela, me separado cada vez mais dos meus iguais, que hoje são tão diferentes de mim e semelhantes entre si. Vivo de acordo comigo, sendo impossível acrescentar outras mentes em uma realidade tão singular. Minha mente agora pondera, vagando num espetáculo de galáxias, perguntando se é possível haver ao menos uma pessoa tão sincronizada comigo, que nos tornemos, mesmo que divididos, um sólido só. E viver conforme a mim seja viver conforme essa pessoa e vice-versa. Essa constante dúvida conseguiu me dividir em três seres que continuam sendo um só; aquele que é incendiário descontrolado, o com potencial de criar universos e sociedades em um surto de sua mente e o outro reflexivo que vê seu universo natal como parte de si, buscando-se neles. Me torno infindável, conforme meus princípios e sou o rei de mim e de tudo que criei para mim. Transcendendo para um estado até então inalcançável que supre meus desejos. Um descontrole me encaminhou a isso tudo. Me alucinei e alcancei finalmente a liberdade. Penso até hoje no quanto cresci com isso, e como me tornei superior as minhas contrapartes liquidas e mortais. Mas sou apenas um rei dos ratos, entro em contradição, vivendo feliz na minha ignorância. Porém, se fiz o que fiz, realmente pude me tornar alguém inexplicavelmente maior do que mim mesmo.

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Redação

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