junho 20, 2021
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5ª edição – Crônica: “Dona Mocinha”

By Redação no outubro 16, 2020
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Dona Mocinha

Estou diante do computador tentando escrever um texto. Na realidade, tento selecionar dos meus arquivos mentais uma história. É preciso critério na escolha. Qual privilegiar? Qual devo deletar? Onde estariam os rascunhos? Alguém ficaria de posse dos originais? Tudo se modifica diante dum equipamento de informática. Surgem novos gêneros textuais, novas liberdades estéticas…

Quem está em dúvida ou não sabe como começar precisa aprender. Sempre foi assim. Vou a busca de um tutorial capaz de me ensinar a organizar minhas ideias. Entra-se num curso online sobre esse ou aquele assunto. Tempos atrás, nossos caminhos eram outros. E é desse tempo que vou falar agora.

Escrevo duma época cuja grande tecnologia disponível era a máquina de escrever elétrica. Isso mesmo: máquina de escrever. “Um teclado com impressora junto”, como diria um ex-aluno meu quando viu um desses equipamentos em uso na biblioteca da escola (o usuário era eu). Para escrever, precisávamos de atenção e tínhamos que contar espaços, alinhar a folha e outros cuidados dispensáveis hoje. Aliás, anda-se dispensando necessidades e resolvendo-se problemas inexistentes até pouco tempo. Procurar vale tanto quanto aprender.

É de uma época de tecnologia ainda engatinhando para o obsoleto agora, que nossa personagem título vai se levantando. Para ser sincero, nunca a vi pessoalmente. Conheci apenas a sua filha, moradora do bairro do Porto do Rosa, em São Gonçalo. É a Rosa de olhos verdes. Sempre imaginei Dona Mocinha como uma senhora solteirona, mas com aparência de jovem recatada do início do século XX. Ela usaria vestido discreto e estaria de cabelos sempre presos. Seria austera e altiva. Evidentemente usaria óculos e seria muito séria. Sua caligrafia, como as letras dos rótulos de vinho da adega improvisada do meu pai era a mesma dos diplomas preenchidos a mão, verdadeiros bordados de tinta e caneta em papel de linho.

Quando Dona Mocinha era a referência em Educação no bairro, as crianças aprendiam as primeiras letras em casa antes de irem para a escola. Os alunos da nossa personagem normalmente passavam no exame de nivelamento e “pulavam de série” como se dizia então. Seu ensino era forte, puxado. Acredito eu que não só o ensino deveria ser puxado, mas as orelhas também. Sabem? Os psicólogos ainda não eram tão populares nas camadas mais pobres da população. Não existia Conselho Tutelar. Havia apenas o Juizado de Menores, órgão para situações extremas ou de abandono de crianças. As coisas mudaram. As autoridades mudaram. Os pais mudaram. As leis mudaram. E Dona Mocinha? Mudou para um lugar distante, perdido da história fascinante dos bairros de periferia. Ela não teria mais autorização para lecionar. Seus métodos seriam considerados arcaicos, antipedagógicos. Responderia a processos na Justiça.

Hoje quis escrever um texto e tive dificuldades. Como gostaria de uma Dona Mocinha virtual para me orientar… Comecei a cobrir as letras feitas pelas mãos da Tia Iône no melhor colégio do bairro nos idos de 1978… Fui avançando e cheguei até a enciclopédia. Hoje, procuro algumas soluções nos sites de busca e tento acompanhar a estética atual já velha no dia seguinte. A mãe de Rosa não pode ser mais vista. Não receberá likes. Ninguém se inscreverá em seu canal. Seu perfil foi removido para sempre.

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Sobre o autor:

Meu nome completo é Oswaldo Eurico Rodrigues da Silva. Nasci em São Gonçalo, Estado do Rio de Janeiro, no dia 29 de setembro de 1970. Cursei Letras (Português e Literaturas) na Universidade Federal Fluminense. Atuo como professor de Língua Portuguesa, Literatura e Produção de Texto na rede privada e na rede pública estadual nos municípios de Itaboraí e São Gonçalo em turmas do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Sou artista plástico com trabalho voltado para pintura, e manipulação de imagens digitais.Gosto muito de escrever, principalmente contos e crônicas, mas me aventuro pela poesia. Acabo por criar prosas poéticas também e alguns ensaios.

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Redação

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1 Comentário
  • Poucos escritores contemporâneos “não canônicos” usam da metaficção com tanta maestria. Embora o texto Dona Mocinha seja alcunhado de crônica, está clara a excelência ficcional e autorreferencial que caracteriza atualmente a boa prosa. Para aqueles leitores que buscam uma estética de qualidade, recomendo não só o texto Dona Mocinha, sugiro também que leiam os demais trabalhos do autor Oswaldo Eurico e se deliciem com a equilibrada mescla de entretenimento e saber.

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