junho 20, 2021
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5ª edição – Conto: “Encruzilhadas”

By Redação no outubro 16, 2020
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Encruzilhadas

A mãe de Fernando completara 73 anos e, como era de costume, as pessoas passavam por lá, na casa dela, para saber se, naquela data, podiam ajudar em alguma coisa. Os mais chegados levavam até algum presente; outros ofereciam jabuticabas, já que sabiam que ela gostava de fazer licores e compotas. Aliás, muitos já ofereciam, com a esperança de poderem experimentar alguma coisa, durante a visita, e raramente saiam frustrados.

Portanto, Dona Mina, como era conhecida, não tinha nenhum problema com a vizinhança e até os meninos do movimento demonstravam ter um certo respeito, quando a viam passar na rua, já bem tarde da noite. Alguns tinham sido, inclusive, alunos dela. Por isso, se Dona Mina precisasse ir a algum lugar mais distante, não havia com que se preocupar. A hora em que voltava não era um problema, nem o fato de ter que ir ou voltar sozinha, morando naquele bairro.

Contudo, quando completou 75 anos, Dona Mina já não vivia mais essa realidade. Os meninos, agora, eram outros. O movimento era outro. Os vizinhos, com os quais já tinha se acostumado a conversar, no portão de casa, ou tinham se mudado, com a ajuda dos próprios filhos, ou viviam uma rotina completamente diferente. Para alguns, a vida era apenas “casa, igreja; igreja, casa”, se dizendo até arrependidos do tempo que perderam no “mundão”. “Dia desses, o pastor perguntou se a senhora já aceitou Jesus… A senhora já aceitou Jesus, Dona Firmina?” Daquele lugar, Dona Mina, portanto, já não fazia questão de algumas visitas, nem de certas jabuticabas.

Por isso, Fernando, que, depois de divorciado, aparecia com mais frequência, para tomar um café com a mãe, orientava Dona Mina a evitar sair tarde da noite. Fernando, inclusive, vivia prometendo que, em breve, ela estaria em uma outra casa. Para ele, era só uma questão de tempo. Dona Mina, no entanto, sabia que isso era apenas reflexo do constrangimento do filho, que, quando estava casado e ganhando bem, deixou, muitas vezes, de ajudá-la por causa da mulher.

– Mãe, eu tô falando sério. A senhora tem que sair daqui.

– E eu vou pra onde, Fernando? Eu vou pra onde?

– Eu já estou vendo uma casa. Não disse? Não é grande, como essa, mas é bem mais fácil de limpar. A senhora vai gostar. A senhora vai ver…

– Fernando, prova essa compota. Vê se tá estragada…

Os dois acabaram brigando feio, naquele dia, mas, uma semana depois, Fernando já estava pronto para fazer as pazes. Afinal, não convinha ficar alimentando rancores bobos, contra uma mãe que já tinha chegado àquela idade, sem nunca ter dado trabalho a ninguém, muito menos ter pedido favor. Portanto, para tentar agradar e desfazer a situação, Fernando ligou, avisando que, naquele dia, buscaria Dona Mina, lá no centro dela. A mãe frequentava esse centro de macumba, desde que ele era aluno, no primeiro curso de vigilante. E isso já tinha bastante tempo.

O lugar ficava no Jardim Albuquerque, numa rua sem saída, logo no início do bairro. Era nos fundos da última casa, à direita. A rua era um trechinho sem asfalto, bem curto e em declive, cujo final dava para um pasto enorme, sem notícia de ter dono. A iluminação, à noite, vinha de um único poste, com lâmpada de mercúrio, e, para piorar, a prefeitura nunca podava as árvores que ficavam ao redor. O lugar, portanto, era uma verdadeira biboca esquisita, no meio do nada. Meio roça, meio subúrbio.

Fernando, então, chegou pouco antes da hora em que a gira costumava terminar. Até porque, ele não queria ficar parado ali por muito tempo. Ele não gostava de macumba e o tráfico tinha crescido naquela região. Por isso, querendo ser discreto, estacionou logo na entrada da rua, quase na esquina, embaixo de uma árvore. Àquela hora, o lugar onde ele estava, dificilmente, chamaria mais atenção do que a parte final, mais iluminada por causa do poste, com a luz de mercúrio. Na esquina, a lâmpada do poste estava queimada e a tal árvore escurecia ainda mais o ambiente.

Deixando, então, a pistola debaixo da coxa, Fernando começou a tentar se distrair, dentro do carro. Primeiro, contou os porcos que estavam fuçando no lixo, na parte baixa da rua, logo no início do pasto. “Uns seis, com aquele leitãozinho”. Depois, passou a contar o número de carros, que, provavelmente, pertenciam às pessoas que estavam no centro, àquela hora. Ficar ali, esperando no escuro, não era nada fácil. O dia tinha sido cheio e, na manhã seguinte, já teria uma série de coisas para fazer. Não ia dar para dormir. Ia ter que virar, de novo.

No entanto, o som da gira logo desapareceu e, pouco tempo depois, as pessoas começaram a sair daquela casa. “Boa semana, Gleyce!”; “Até mais, Sr. Júlio!” Foi quando Fernando, já soltando o freio, para poder descer a rua, sem ter que ligar o carro, ouviu uma barulheira de motos, chegando. Eram cinco; e Fernando, com isso, já tinha entendido a situação. Não tinha o que fazer.

Naquele bonde, estavam três de fuzil; talvez, um com AK47; o resto estava de pistola ou revólver. Dali, não dava para ver direito. Fernando, porém, torcia para que, pelo menos aquele casal, que já tinha entrado no carro, ficasse lá, quieto, porque os demais, que foram pegos a meio caminho dos carros, já estavam sofrendo, na mão dos traficantes. Eram pauladas, chutes e murros, sem distinção. Não havia o que fazer. Aliás, ele, Fernando, um segurança de shopping, poderia fazer o quê, naquela situação? “Aqui é o bonde de Jesus, macumbeiro filho da puta! O bonde é de Jesus! Entendeu? Toma! Não quero vocês aqui! Entendeu? Já falei! Toma, filho da puta! Não-Quero-Vocês-Aqui! Entendeu? Porra! Toma! Toma! Filha da puta!”.

No entanto, o som de metralhadora, vindo de dentro da casa, fez com que Fernando tomasse um susto e segurasse com mais firmeza a pistola, que já estava na mão. Mas, mesmo que acertasse uns dois ou três, daqueles quatro, que estavam do lado de fora, a coisa ainda poderia ficar pior. Bastaria que um deles tivesse um radinho, um celular… Aliás, e se, enquanto isso, machucassem alguém, lá dentro… “Nunca mais eu quero ver vocês aqui! Entenderam? Entenderam, porra? Toma, caralho!”. Fernando quis acreditar, então, que aquilo era só um susto, que não ia demorar, mas, não demorou muito, e já se enxergava sinais de incêndio na casa. Mais gritos e mais tiros. “Meu Deus, o quê que eu vou fazer?”.

Depois que tudo aquilo já tinha terminado e que as pessoas mais abaladas já tinham ido embora, um grupo pequeno, formado pelas pessoas mais antigas do centro, se pôs em volta do babalorixá. Era um senhor já de bastante idade e a cara estava toda inchada, de porrada. Sentado num banco, ele segurava um pano com gelo, que haviam lhe dado para colocar na boca. Ao redor, o ambiente lembrava aquelas cenas de atentado terrorista, que passavam na televisão. No terreiro, não havia mais telhado. O congá tinha sido posto abaixo, junto com uma parede, nos fundos. Não havia nem sinal dos atabaques, mas o mais triste foi terem colocado fogo, na casa do velho. Fernando e todo mundo ali olhavam aquilo, sem entender. Tudo aquilo era um absurdo tão grande que não conseguiam assimilar o que estava diante dos olhos. “Posso avisar seu irmão, Seu Beto?” Era Dona Mina, perguntando.

– Faz isso não. Vai me dar mais tristeza… – falou Seu Beto, com bastante dificuldade.

– Que isso, Seu Beto? É seu irmão… – falou uma outra senhora.

– É, poxa. Nessas horas…

– A gente podia ter morrido…

– Já falei – Seu Beto, com isso, achou que já encerrava a discussão.

– Tá. Então, o Sr. vai lá pra casa – disse Dona Mina.

Olhando aquela senhora de olho roxo, roupa rasgada, com o cabelo crespo, solto e desgrenhado, e sangue seco, na borda do nariz, Fernando não viu sua mãe. Viu o exemplo, a presença de espírito daquela mulher. Parecia até que aquilo que estava diante dos olhos tivesse se descolado do tempo presente. Não estavam mais no Jardim Albuquerque, nem na baixada fluminense, no Rio de Janeiro. Estavam em outro lugar. Era um outro tempo e, ao ver a reação tranquila do Seu Beto, que, sem largar o pano, levantou um pouco a cabeça, para poder olhar nos olhos de Dona Mina, Fernando sentiu que estava fazendo parte de alguma coisa que era bem maior do que ele, do que o emprego, do que a pelada, com os amigos, no fim de semana. Sentiu-se, aliás, como há muito tempo já não se sentia. Ali, naquele momento, havia algo bem maior. Foi então que disse:

– O sr. pode deixar que eu e mais quem quiser ajudar vamos arrumar isso aqui. – e olhando para aquele senhor de idade, que Fernando conhecia só de vista, emendou – Não vale a pena o Sr. se preocupar com nada agora. Na casa da minha mãe, tem umas roupas minhas que o Sr. pode usar. Eu junto o que tiver aqui e levo depois; ou o Sr. vem, com a cabeça mais fria, e vê o que ainda serve… É com o Sr.

– Eu levo os dois, no meu carro – disse um senhor, que também reforçou a ideia – Não fica aqui, não, Seu Beto. Não vai fazer bem.

– Eu fico aqui pra te ajudar – disse uma senhora.

– Eu também – falou o filho.

– Bora mexer na casa, porque o terreiro já era – fechou, o segundo mais velho.

Seu Beto se levantou com dificuldade, dispensando, porém, todos os cuidados que insistiam em ter com ele, e olhou nos olhos de Fernando, como se reconhecesse alguma coisa. Naquela boca inchada, faltavam alguns dentes, mas o filho de Dona Mina ouviu a frase, como se tivesse saído da boca da própria mãe:

– Obrigado, rapaz. Obrigado a todos vocês.

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Sobre o autor

Renato Bruno é professor de Língua Portuguesa, na rede pública municipal de Niterói-RJ. Com especialização em Estudos Literários e mestrado em Letras, interessa-se por Literatura, Cinema e séries de TV.

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Redação

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