junho 20, 2021
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5ª edição – Conto: “É de trova que a humanidade precisa”

By Redação no outubro 16, 2020
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É de trova que a humanidade precisa

Acordei no sábado pela manhã, bem cedinho, o relógio marcava seis horas. O céu estava limpo e o Sol nascendo com um brilho maravilhoso. Vovó estava perto de acordar. Eu estava lendo o livro que meu tio havia me emprestado. Comecei a ler na noite anterior, o do caranguejo. Já estava concluindo a leitura (queria terminar antes do meu tio acordar e antes de tomarmos café).

O tempo passava e eu continuava sendo o único acordado, até que minha avó Gertrudes apareceu na sala. Eram sete e trinta da manhã, eu finalizei a leitura. Minha avó prontamente me chamou para ir à cozinha, ela já estava nos preparativos para o café da manhã. Meu tio ainda dormia (ele costumava acordar um pouco mais tarde aos sábados). O cheiro do café da vovó ia penetrando pela casa toda, não tinha quem não gostasse.

Ela olhou para mim e perguntou: “E aí, gostou do livro que seu tio te emprestou? Foi uma recente aquisição dele. Na verdade, ele compra tantos livros que nem sei mais onde vai colocar, igualzinho seu falecido avô. Só tem uma diferença, seu avô escrevia”.

Está aí um fato que não sabia, o vovô escrevia, mas sem que eu tivesse tempo para perguntar alguma coisa vovó prosseguiu.

“Seu avô era um grande poeta, escrevia sobre tudo, desde amor a piadas. Infelizmente não conseguiu publicar nenhum livro. As poesias dele eram um balsamo para os desalentados e uma fagulha de inspiração para os apaixonados. Ele me conquistou assim, lendo uma trova”.

Pronto! Se já não me bastasse meu tio, agora minha avó despertando minha curiosidade. O que é trova? Por que ninguém nunca disse que o vovô escrevia? Onde estão os poemas dele? São tantas perguntas que eu tinha em mente, mas dona Gertrudes não me deu espaço. O café estava pronto, refeição para ela era sagrada. Tudo deveria ficar para depois.

Quando íamos começar a comer, meu tio sentou-se à mesa e veio nos fazer companhia. Estava quieto como de costume. Respeitamos o momento de quietude dentro da casa e nos alimentamos (tinha de tudo na mesa desde de pães a um delicioso bolo de fubá da vovó).

Terminamos e meu tio me chamou para dar um passeio. Fomos até a praia. Chegando lá, sentamos na areia e meu tio, olhando para o horizonte e com dois livros nas mãos, recitou: “São utopias sonhadas! / Mas sonho braços de irmãos / que invés de armas empunhadas / carreguem livros nas mãos!”.

“Nossa tio! De quem é?”

“Gilvan Carneiro da Silva no livro Razões do Encanto. Gostou? Isso é uma trova. Sua avó não estava te falando do vovô? Então, ele era um baita trovador. Eu escolhi dois livros para conversar contigo, os dois do Gilvan Carneiro da Silva, outro grande trovador, nascido na mesma cidade que o autor do caranguejo, lembra?”.

A trova era tão pequena e tão significativa. Sabia que tio José não deixaria qualquer explicação passar em branco. Pude notar que ele colocava o dito livro na mesa e junto a um outro todo colorido chamado “No Limiar dos Sonhos”. Tentei sozinho fazer uma conexão entre os dois títulos (queria mostrar que também era inteligente) e disse: “A trova desperta o encanto e os sonhos na gente, fazendo-nos passar pela razão e chegarmos ao limiar do que não conhecemos, certo tio?”.

Ele olhou para mim espantado, como se tivesse falado algo surpreendente e prosseguiu: “Que isso, hein! Pelo visto herdou a veia poética do seu avô. Mas quer saber mesmo o que uma trova? Então, vamos lá! Lembre-se sempre contextualize”.

“A trova surgiu no século XIII, nas novelas de cavalaria no período do Trovadorismo. Eu já te expliquei sobre isso. Ela era inserida nas cantigas do período medieval, era mais precisamente o refrão das cantigas. Com o passar do tempo, a trova se desmembrou da cantiga e foi alçar seu voo solo. Foi se modificando e somente no século XX, assumiu a forma que vemos até hoje. Podemos dizer que a trova é um pequeno texto poético de 4 versos e rimado. Cada verso tem sete sílabas poéticas e a rima obedece a estrutura ABAB. Mas não estamos aqui para te ensinar a escrever e sim para falarmos dos dois livros” – contou meu tio, deixando claro que algo maravilhoso viria por aí.

Eu fiquei confuso, confesso. Mas ele me deixou intrigado com a trova, queria saber mais.

“’Razões do Encanto’ e ‘No Limiar dos Sonhos’ são livros que deveriam estar na cabeceira de todos. Sabe aquele livro que abrimos só para lermos um trecho e inspirar nosso dia? Então, são esses! Gilvan conseguiu em poucas palavras, mas em muito significado, falar sobre temas que uma pessoa normal escreveria páginas e páginas e, mesmo assim, não diria muita coisa. Obras dignas de um mestre. Nelas encontramos claramente as divisões das trovas em: líricas, filosóficas e humorísticas. Um verdadeiro ensinamento para quem gosta do gênero”.

A curiosidade de ler esses livros bateu. Meu tio sabia fazer isso muito bem. Ele sabia que iria pedir para ler. Mas antes queria saber mais sobre essas divisões e sobre os livros.

“A trova lírica é aquela que fala sobre sentimentos e nisso Gilvan é craque. Nos livros, ele aborda seu principal tema que é o amor, mas também fala da saudade, da tristeza, entre outros sentimentos que povoam os nossos dias. Quer um exemplo? ‘Neste sonhar em que vivo, / da poesia cultor, / o teu sorriso é o motivo / dos meus motivos de amor…’ Linda trova!” – pausou tio José.

Como ele conseguia declamar de cabeça? Sempre achei tão difícil memorizar algo. Ainda tinha muitas perguntas a fazer, mas ele já as sabia (escutara minha conversa com a vovó durante o preparo do café).

“Garoto, se seu avô tivesse vivo, com certeza leria estes dois livros. Primeiro, porque ele amava a poesia e segundo porque ele também era trovador. Depois que ele faleceu, todo mundo ficou quieto por causa da vovó, ela ficou muito triste com a partida dele. Os poemas, que seu avô escreveu, estão guardados com sua mãe. Ninguém nunca mais mexeu. Já tem para mais de 20 anos. Mas vamos deixar de tristeza e voltar a falar sobre os livros e sobre Gilvan Carneiro da Silva” – explicou comovido.

Minha mãe nunca me disse nada sobre. Ela deve ter seus motivos, não irei questioná-la. Um dia, quem sabe, ela resolve me contar. Meu tio pediu uma água para nós. Fazia calor no dia e continuou:

“Já nas filosóficas, as que eu mais gosto, Gilvan soube explorar bem a questão do pensar, do refletir nos dois livros. Ele une mensagem com um tom metafórico, chegando àquilo que os trovadores chamam de preciosidades. Um dia, se sua professora de Língua Portuguesa ou Literatura trabalhar metáfora e te pedir um belo exemplo, já sabe onde buscar. Neste tipo de trova, podemos falar sobre Deus, sobre a humanidade, sobre a fé, a razão, enfim… Vou te dar um exemplo: ‘Que lição no exemplo belo / das atitudes tomadas / por quem constrói seu castelo / com pedras lhes atiradas!… Está vendo que lindo exemplo? Cumpre-se aqui o dever da trova filosófica: ensinar. Quem não se inspiraria em construir uma bela vida com as injurias que lhes cometem?”

Meu tio estava, além de falar dos livros, dando uma aula sobre poesia. Uma vez, ele me disse que a poesia pode estar em todos os lugares. Arrisco-me a dizer que está nos livros do Gilvan. Pensa que acabou? Que nada! Ainda tinha uma última parte para me dizer.

“Para finalizar, temos também a trova humorística. Nem preciso dizer que é aquela que nos faz rir. É um humor diferente do usual, pois não é depravado e sim nas entrelinhas, digamos que trabalha o sarcasmo, a gozação, mas com um tom de ingenuidade. É claro que encontramos grandes exemplos de trovas humorísticas nestes livros, certo? Vamos ao último exemplo: ‘Uma sogra o que é? Respondo / com certeza “confirmada”: / Picada de marimbondo / sobre ferida inflamada…’… Fantástico! Coitada das sogras, são alvos fáceis para os trovadores. Então, viu como “No Limiar dos Sonhos” e “Razões do Encanto” são verdadeiras cartilhas para quem quer se tornar um grande trovador. Leituras suaves, que nos tiram um pouco deste mundo caótico”.

Duas horas se passaram. Já estava na hora de voltarmos, ainda íamos passar no supermercado e na casa de uma tia da vovó. Quando chegássemos em casa meu tio havia me prometido falar sobre “Outras histórias”. Fiquei curioso.

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Sobre o autor:

Graduado em Letras pela UERJ FFP. Pós-Graduado em Educação à Distância – Uninter. Atua como professor desde 2006 na rede privada. Leciona Língua Inglesa e Literatura em diversas escolas particulares e em diversos segmentos no município de São Gonçalo. Coordenou, de 2009 a 2019, o projeto cultural Diário da Poesia, no qual também foi idealizador. Editorou o Jornal Diário da Poesia de 2015 a 2019 e o Portal Diário da Poesia em 2019. É autor e editor de diversos livros de poesias e crônicas, tendo participado de diversas antologias. Apresenta saraus itinerantes em escolas das redes pública e privada, assim como em universidades e centros culturais. Hoje, editora a Revista Entre Poetas & Poesias e o Suplemento Araçá. Contato: professorrenatocardoso@gmail.com

 

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Redação

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