junho 20, 2021
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5ª edição – Conto: “A história do Helânio”

By Redação no outubro 16, 2020
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A história do Helânio

Essa história não foi exatamente na escola que eu ouvi. Na verdade, o protagonista dela era meu colega de curso de francês. Você deve estar se perguntando, se eu sou fera em francês, não é? Claro que não… Fiz o curso somente por um ano e confundia tudo com Latim, pois já havia estudado na faculdade, uma loucura total. Mas, voltando ao foco da história, o Helânio, esse é o nome dele mesmo, resolvi não trocar, pois ele é uma daquelas pessoas que a vida separa da gente e o cara nem deve lembrar que me contou isso, porque já faz um milhão de anos. Bem, não exatamente um milhão de anos. Enfim, eu sei que você entendeu, meu leitor exigente.

Lembra que eu disse que só fiz um ano do curso de francês? Então, quando se está bem no finalzinho do ano, todo mundo pensa em fazer um amigo oculto certo? Não foi diferente nesse curso. O povo se animou e resolveu começar a escrever os nomes em papeizinhos, aqueles papeizinhos mesmo, meu leitor inquieto, aqueles do tipo rasgado do caderno, para fazer o sorteio do amigo oculto. Foi a partir daí que ele começou a ficar incomodado na cadeira e resolveu sair para beber água. Quando ele voltou, o pessoal ainda estava naquela de escrever os nomes para fazer o sorteio. Então, saiu novamente, com a desculpa de ir ao banheiro, demorou um tempão e ele retornou. O grupo estava aflito, pois queria sortear o tal do amigo secreto. Helânio chegou desconfortável e percebeu que todo mundo estava esperando por ele para poder iniciar. Acredite ou não, caro leitor, ele disse que precisava ir novamente lá fora. Eu nem lembro mais qual foi a desculpa da vez. Só que naquele momento, como todos estavam esperando por ele, o povo reclamou muito e o dito cujo acabou ficando. Antes de começar o sorteio, nosso personagem pediu para retirarem o nome dele da brincadeira.

Sério, ninguém entendeu e perguntaram o motivo. Helânio se esquivou, enrolou e, no final das contas, falou que era melhor pra todo mundo que ele não participasse, melhor acreditarem no que dizia, enfatizou, e estava visivelmente muito envergonhado por ter que fazer aquilo e ser o centro de todas as atenções.

As meninas que organizaram o evento tiveram um trabalhão em retirar o nome dele, já que todos os papéis já haviam sido dobrados cuidadosamente para que todos estivessem do mesmo tamanho. Mas, nosso amigo foi incisivo, percebia-se que não iria participar mesmo. Não disse exatamente o motivo e logo saiu, de novo, da sala. O sorteio aconteceu e todo mundo foi embora satisfeito, mesmo que fosse claro que estavam muito chateados com o Helânio. No caminho, a pé até a faculdade, comentei que todo mundo ficou surpreso por ele não participar do amigo oculto.

Foi então, que ele falou com a maior naturalidade do mundo: já estava acostumado. Todas as vezes que alguém tinha a ideia de fazer um amigo oculto, ele passava por essa situação constrangedora, porque não participava mais desse tipo de confraternização. Confesso que a primeira coisa que passou pela minha cabeça era que ele tinha problemas de socialização. Pois, dinheiro não era o problema, Helânio tinha uma família bem rica.  Assim, ele continuou explicando, parte porque minha cara de curiosa deve tê-lo deixado disposto a falar, parte porque já devia estar acostumado a contar a história completa.

Fique calmo, meu leitor curioso, vou falar de uma vez tudo que aconteceu. Não precisa ficar agitado, sossegue aí em sua cadeira.

Durante o Ensino Médio, quando Helânio era mais novo, os colegas da escola resolveram fazer o tradicional amigo secreto da turma. Nesse dia, acordou como se tivesse levado um tapa na cabeça, sabe quando você acorda assustado? Assim, ele estava, desse jeito mesmo, porque o despertador não precisou tocar para levantar da cama correndo, Helânio lembrou que era o dia de levar o presente para escola. Tudo era muito simples, deveria ter ido a uma loja comprar um presente não muito bonito, não muito interessante e, simplesmente, entregar a Juliana. Geralmente, ganhamos uma coisa na qual não gostamos muito. Porém, isso é completamente normal, acontece com todo mundo. Já aconteceu comigo, com você e também já tinha acontecido com o pobre do Helânio. Só que, dessa vez, as coisas não iriam por esse caminho. Nosso personagem não comprou o presente para dar a Juliana e já estava quase na hora de ir para a escola, faltava menos de uma hora, seria impossível comprar um presente àquela hora da manhã.

Foi nesse momento que ele ficou em pânico e resolveu vasculhar a casa toda em busca de um presente perdido. Só que ninguém fica guardando presentes por aí, a não ser que você compre para dar a alguém. E, por esse motivo, na casa não existia presente algum para dar a Juliana na referida brincadeira do amigo secreto. Nenhum. Opa, foi quando ele lembrou que seu pai, piloto de avião, havia trabalhado em uma empresa de transporte aéreo e, possivelmente, teria algum brinde guardado. E não é que ele realmente tinha? Várias caixas de bombons, por volta de umas quinze, só um detalhe, é que na hora do desespero, e para não chegar a escola com a mão vazia, Helânio não percebeu. Essas tais caixas, estavam com o logotipo de uma empresa, que já havia falido há pelo menos cinco anos. Sendo que, na pressa, o rapaz nem prestou atenção nisso. Pegou uma das caixas e saiu correndo para a escola todo animado, pois tinha resolvido o seu problema matinal.

Não demorou muito até que fez a prova de recuperação e começaram o amigo oculto. Logo no início, Juliana contou a todos, super feliz, que havia tirado o menino mais bonito da escola, que todos sabiam ser seu crush. Bem, leitor, ela não disse exatamente crush, até porque essa gíria não existia na época, mas você pode traduzir para algo do tipo.

Ela deu a ele um boné super caro, de uma marca muito famosa e um chinelo. Mas, não era um chinelo qualquer, daquele de marca barata. Era um Airbus dos chinelos. Daquele tipo de presente que só de ver a embalagem você percebe que o negócio é caro demais.

Helânio engoliu seco, seu presente nem era um presente, era um brinde. Ele poderia falar que não teve tempo de comprar um presente e compraria depois, mas ele não fez isso.

No impulso do momento entregou a caixa de bombons, assim sem embalagem nem nada. Estava apenas em uma sacolinha de mercado.

Pegou seus presentes, não falou nada com ninguém. Correu para sua casa. Deitou na cama e ficou olhando por horas os presentes que havia recebido. Fechava os olhos e tentava imaginar Juliana, que há poucos momentos havia se declarado pra ele na frente de todo mundo. Dizendo que era o cara mais bonito da escola. Mil coisas passaram em sua cabeça naquela hora. Será que ela tinha falado sério? Será que a menina mais gata de todo o mundo era realmente afim dele? E todo o carinho na escolha do presente, ou melhor, dos presentes. Imagina ela abrindo a caixa de bombons. Lendo na caixa que ele nem se deu ao trabalho de comprar um presente pra ela. Ela ficaria muito chateada com ele. Foi então que o rapaz ficou com muito medo.

Saiu correndo pela casa e foi até o armário do seu pai, pegou outra caixa de bombons e abriu. Todos eles estavam com larvas.

Provavelmente, os bombons que estavam com a sua mais nova, e a essa altura, ex- crush Juliana, estavam estragados e com bichos também.

Jogou todos no lixo e chorou. Chorou. Contudo, não foi ao shopping comprar um presente decente para ela. Resolveu esquecer e seguir em frente. Sentou a frente do computador. Abriu uma antiga rede social e deparou-se com os bombons da Juliana cheios de bichinhos. Ela postou no seu perfil com a legenda: pior dia da minha vida. Presente de amigo oculto. Ele engoliu seco e desligou o computador. Agora era tarde.

No dia seguinte, reuniu toda coragem do mundo e foi pra escola. Todos estavam contra Helânio e com razão, sabia.

O nosso personagem já estava querendo finalizar o papo, quando perguntei: por que não foi lá e se desculpou? Sei lá? Algo do tipo.

Não. Ele disse que não adiantava. Todos já tinham feito seu julgamento.

E depois disso tudo, querido leitor? Você deve estar se perguntando? O que houve com o rapaz? E a Juliana? Não sei… Mas acabei de olhar seu perfil na atual rede social, ele está casado com uma moça linda chamada Juliana. Será que é ela?

Melhor acreditar que sim. Que ambos se encontraram depois de tudo aquilo, resolveram suas diferenças, deram o beijo que não foi dado na adolescência e viveram felizes para sempre.

Melhor acreditar no amor.

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Sobre a autora:

Lorenza Ferreira é mulher, filha do Airton e da Lucimar, esposa do Allef, mãe da Maria Júlia, da Raphaela, do Davi e do Pietro. Além disso, é professora de língua portuguesa e atualmente trabalha na rede estadual do RJ, na rede Adventista e em seu curso de redação. O sonho de escrever a persegue desde a infância, e desde então, ela já publicou duas obras : ” As aventuras de Davi” e “Manual prático para uma boa redação”. É segue por aí escrevendo e vivendo. @cursolorenzaferreira

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Redação

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