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5ª edição – Artigo: “Dois gonçalenses entre poesias e uma polêmica niteroiense”

By Redação no outubro 16, 2020
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Dois gonçalenses entre poesias e uma polêmica niteroiense

Rui Aniceto Nascimento Fernandes[1]

 

Nos últimos tempos estão surgindo vários grupos e espaços culturais, em São Gonçalo, que agregam poetas, trovadores, músicos, artistas plásticos e amantes das artes em geral. A mídias e redes digitais possibilitaram a divulgação dos trabalhos de quem assim o desejar fazer. Há algum tempo, nem tão longínquo assim, o cenário não era esse. Esses espaços eram diminutos e reservados a um pequeno grupo formado, geralmente, pelos membros das tradicionais famílias locais. Os jovens inspirados sempre buscaram espaço para expor e divulgar suas produções em espaços locais e outros tantos fora do município de origem. A proximidade territorial com Niterói sempre foi um atrativo para esses jovens. A antiga capital fluminense possuía, e ainda possui, um intenso movimento cultural constituído de museus, teatros, cinemas, concursos, academias e rodas literárias etc. Nos idos de 1963, dois jovens poetas gonçalenses, iniciantes no universo das letras, participaram de um grupo, de uma antologia e de uma polêmica que marcou o cenário fluminense.

Em 14 de junho de 1963 ocorreu, no Clube Central, o concorridíssimo lançamento do livro 37 poetas fluminenses, do qual participaram os gonçalenses Américo Lopes Fontoura e Jayro José Xavier[2].

Essa iniciativa teria partido de três consagrados intelectuais niteroienses: Lyad de Almeida, Jacy Pacheco e Luís Antônio Pimentel.

Provavelmente, em finais de 1962 ou princípios de 1963, um grupo heterogêneo se constituiu: o Clube dos Lunáticos. O núcleo original teria surgido entre membros do teatro amador do qual faziam parte Lyad de Almeida e Sindulfo Santiago. Para agregar novos e velhos talentos o primeiro convocou Jacy Pacheco e passaram a realizar reuniões literárias onde “apareceram vultoso número” de interessados. Abrigando-se no Museu Antônio Parreiras, faziam “tertúlias semanais, com muita gente boa”. Em dado momento foi proposto que se compusesse um livro do grupo. Lyad de Almeida explicou, no prefácio da obra, que não se tratava de uma antologia:

A tanto não nos propusemos. Simples coleção de trabalhos de poetas nascidos ou radicados na Velha Província, sem uma escolha rigorosa de valores, com o intuito mais de congregar do que de selecionar… O presente livro é um aperto de mão. Um aperto de mão dos Poetas Maiores ao Poetas Menores. Dos consagrados ao que, um dia, irão consagrar-se, ou ao que não irão consagra-se nunca…

Apesar de congregar um grande número de poetas, tantos outros ficaram de fora. O prefaciador justificava afirmando que ficaram de fora:

De fora os que não tiveram ouvidos de ouvir e olhos para ver, ou os que se julgaram inferiores de mais para se ombrearem, ou por demais superiores para se misturarem. De fora os homens concha, os Narcisos embevecidos na própria contemplação. […] De fora os aristocratas do espírito, os oligarcas do gênio, os homens só, os que pensam que iluminam o mundo, esquecidos de que, muitas vezes, o seu mundo é apenas o seu quintal, os seus domésticos…

Não obtendo financiamento público ou privado, os organizadores propuseram a cotização, de 12 mil cruzeiros, entre aqueles que se integraram ao projeto para que o livro pudesse ser impresso. A tiragem foi de 2000 exemplares. Trabalho realizado na Gráfica Falcão, entre 6/03 e 13/06 de 1963, supervisionado por Lyad de Almeida, Jacy Pacheco e Luís Antônio Pimentel, a quem coube a capa. Interessante solução foi dada por Pimentel para a capa, estampando as assinaturas dos 37 poetas.

Fizeram parte da coletânea: Alaôr Eduardo Scisínio, Amélia Tomás, Américo M. Lopes Fontoura, Arthur Dalmasso, Áurea Maria Cruz Ramos da Costa, Brasil dos Reis, Celso Furtado de Mendonça, Dulce de Mello Monte-Mor, Eduardo de Carvalho, Eduardo Luís Gomes, Emmanuel de Bragança Macedo Soares, Ênnio Quintanilha Sanches, Francisco Pimentel, Gercy Pinheiro de Souza, Gomes Filho, Hélio Nogueira, Jacy Pacheco, Jayro José Xavier, João Rodrigues de Oliveira, Leir Moraes, Lia Airosa Castanheira, Luís Antônio Pimentel, Lyad de Almeida, Manita, Marcus de Moraes, Maria Auxiliadora Sodré Gama, Maria Thereza Peçanha, Neusa Peçanha, Paulo Pimentel, Pedro Paulo Gavazzoni, Raul de Oliveira Rodrigues, Sylvio Lago, Torquata de Araújo Souto, Túlio Rodrigues Perlingeiro, Vilmar de Abreu Lassance, Walter Siqueira e Zamith de Siqueira Campos.

O concorrido lançamento no Clube Central contou com a venda de cerca de 300 exemplares e foi considerado um evento como há muito não se via na capital. Foram organizados mais três outros lançamentos: um em Rio Bonito, duas semanas depois; em 7 de julho, ocorreria o “lançamento popular”, na Livraria Ideal, também em Niterói; e, por fim, em Teresópolis, no Várzea Palace Hotel, em 13 de julho.

Antes mesmo do lançamento iniciaram-se as polêmicas em relação a obra. Críticos literários, dos jornais cariocas e niteroienses, lançaram mão de análises – algumas mais sutis, outras mais ácidas – à iniciativa da obra. As críticas gravitaram em torno da seleção dos autores; à qualidade dos textos; e à estratégia da cotização, que teria afastado alguns outros. O primeiro foi o ácido Geir Campos que a chamou de uma “antologia engraçada”, no Última Hora. Seguiram-se Décio Mafra, Iderval Garcia, Ricardo Augusto dos Anjos, Dagobé de Oliveira Júnior, Reginaldo Baptista, Sávio Soares de Souza, nos jornais Diário Fluminense e O Fluminense.

Em sua defesa Luís Antônio Pimentel, Alaôr Scisínio, Francisco Pimentel, Lyad de Almeida, Carlos Ruas, Vera de Vives e J. Celestino escreviam réplicas ou tréplicas no Última Hora, O Fluminense, A Palavra e no campista A Cidade. Suas defesas consistiam na positivação do espaço dado a então jovens escritores, ainda iniciantes; no reconhecimento de alguns consagrados autores à coletânea; à crítica da incompreensão dos estilos/escolas aos quais os poetas se filiavam; e, muitas vezes, na desqualificação dos críticos como críticos literários.

A polêmica estendeu-se de junho de 1963 a outubro de 1964, quando Marcos Almir Madeira, o grande discípulo de Oliveira Vianna, conclamou a paz entre os litigantes. Afirmava que

Estalou em Niterói uma divergência elegante. Toda intelectual. Trinta e sete poetas fluminenses saíram do livro e vieram para o jornal com uma decisão de resposta, ou desafio, aos confrades que haviam ido à imprensa desdenhar ou maldizer as suas letras – sua poesia…. Quanto a mim, devo dizer que vejo, em ambas as margens da controvérsia, pontos claros: razões.

O duelo insuflou no ânimo dos espectadores a reabertura daquele expediente optativo, resumido na indagação polêmico-romântica: passadismo ou modernismo?

[…]

Amigos de Niterói, de toda a província, da inteligência da terra… mais velho que vocês (discretamente, porém mais velho) e agasalhado pela esperança de que haja acumulado maior dose de experiência, venho depor nesta coluna um apelo cordial e cerebral também. Encerrem a escaramuça. Na vida, como na literatura (e literatura é vida), não vale a antítese, mas a síntese. Precisa-se de síntese – de uma síntese integradora para unir, para aglutinar, para congregar, onde quer que estejam, todos os valores do espírito humano. As estrelas são sempre estrela no céu, vistas de qualquer ponto da Terra.

Naquela “briga de cachorro grande” não se meteram os gonçalenses, ou, ao menos não encontramos fontes que o indicassem.  Mas muito provavelmente cerraram fileiras juntos aos outros 35 combatentes.

O primeiro lançamento da obra ocorreu uma semana depois de Américo Lopes Fontoura completar 40 anos. Nascera, às 3 horas da manhã de 07/06/1923, filho do comerciário Gilberto Lopes Fontoura e Almerinda Muniz Fontoura. A família residia à Rua Dr. Porciúncula 11, Venda da Cruz, então distrito de Neves, São Gonçalo.

Na década de 1960, era oficial da marinha e casado com Torquata Souto Fontoura, residentes em Niterói. Vinte anos mais velha que o marido, Torquata era membro de uma família de intelectuais, que, desde a década de 1910, vivia o movimento literário da capital fluminense. Acompanhou seu irmão, Lourenço Araújo, na fundação do Cenáculo Fluminense de História e Letras, em 1923, e na redação de revistas e jornais. Ativa participante do movimento trovadoresco participava dos jogos florais nos anos 1960 e 1970. Foi membro da Associação Brasileira de Imprensa, da Associação Fluminense de Jornalistas, do Ateneu Angrense de Letras e Artes, da Academia Brasileira de Trova e da União Brasileira de Trovadores – Seção Niterói.

Dagobé de Oliveira Júnior considerava que ele “faria sucesso no México com seus dramazinhos. Tem ainda essa monumental reflexão filosófica dos recém-nascidos. Tão grande que cabe uma legião de poetas engraçados”.

Ao que tudo indica, sua trajetória literária ficava marginal à da esposa e não deixou reunidos, em livro, seus versos e trovas dispersos em periódicos e coletâneas. Faleceu em 19/04/2011.

O segundo gonçalense participante do livro foi Jayro José Xavier. A crítica, aos seus versos, foi mais animadora: “Bom. E com Emmanuel de Bragança proporciona alguma coisa aos leitores mais exigentes dessa coletânea”.

Deixemos que o próprio autor narre suas origens: “nascido a 10 de junho de 1936, no Estado do Rio de Janeiro, Jayro José Xavier viveu até os vinte anos de idade no interior – São José de Itaboraí – onde realizou seus primeiros estudos. Filho de operário, operário ele próprio durante vários anos – na Companhia Nacional de Cimento Portland Mauá”. Filho de Antonino José Xavier e de Arminda Pereira Xavier, nasceu no então Hospital de São Gonçalo, atual Hospital Luiz Palmier, inaugurado em 1934, onde sua mãe trabalhou como enfermeira. Cedo a família transferiu-se para São José, em Itaboraí, quando seu pai passou a trabalhar como enfermeiro da Companhia Nacional de Cimento Portland Mauá. Em São José estava localizada a bacia calcária de onde era extraído o material beneficiado na sede da empresa, em Guaxindiba. Estudou o primário na escola Francesca Cary, atual colégio estadual, nessa localidade. O curso ginasial e o científico foram feitos no Colégio São Gonçalo.

Teve a infância e a juventude marcadas pela experiência operária do pai e sua própria, naquela que era considerada uma das principais indústrias do estado do Rio de Janeiro. Ingressou na empresa como auxiliar de torneiro mecânico, aos 16 anos, nela trabalhando por quatro anos. Sobre a continuidade dos estudos, afirma que “fez com sacrifício o curso de Direito na Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense e, anos depois, o curso de Letras (modalidade Língua-Literaturas) do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense”. Por volta de 1956 passou a trabalhar no escritório da Nestlé, em Niterói, como subchefe do setor de vendas. Nesse momento, começou o curso de Direito, participado então de atividades que marcavam o Centro Acadêmico Evaristo da Veiga (CAEV). Tendo deixado a multinacional, passou a lecionar português em escolas de São Gonçalo, contribuindo com a imprensa local. Aos vinte e sete anos, participou da antologia organizada por Lyad de Almeida.

Em finais da década de 1960, ingressa no curso de letras/literaturas, na mesma universidade. Um ano antes de concluí-lo, em 1971, participa de um concurso nacional comemorativo ao quarto centenário da publicação de Os Lusíadas. A comissão julgadora composta por José Galante de Sousa, Domício Proença Filho, Maria Clara da Gama Monteiro, Marlene de Castro Correia e Orlando Fonseca Pires premiou o trabalho “Camões e Manuel Bandeira” com dez mil cruzeiros. Este trabalho foi publicado em 1973, com um estudo crítico de sua professora Marlene de Castro Correia. Sua atuação no curso e a premiação abriram-lhe as portas para se integrar ao quadro docente do curso de letras, na cadeira de Língua Portuguesa, no Instituto de Letras da UFF. O ensaio, publicado em 1973, foi dedicado ao também gonçalense Aluízio Manna, seu professor do curso de graduação.

Considerava seu livro de estreia o Idade do Urânio, de 1974, que reunia “As quatro estações & outros poemas” escritos entre 1966 e 1969 e “as cinco epístolas em tom de elegia” da “Idade do Urânio”, dos anos 1970 e 1971. Contou com o prefácio de Antônio Houaiss.

Além de professor na UFF, lecionou no Centro Educacional de Niterói e em sua faculdade – onde se tornou professor titular de Literatura Portuguesa – e na rede estadual atuando no Instituto de Educação Clélia Nanci, em São Gonçalo, e como responsável pelos currículos de Comunicação & Expressão da Secretaria de Estado de Educação.

Em 1981 lança Enquanto vivemos, livro de poesias prefaciado por Alfredo Bosi. Em 1987, junto com Marilene Gomes Mendes e Deila Conceição Peres, publica uma reedição crítica de Martim Cererê, obra clássica de Cassiano Ricardo. Depois voltou-se para o público infantil lançando Estória de uma Vaquinha, em 1987, e Ulisses – Canto para ajudar um menino a atravessar a noite, em 1989. Este último obteve premiação pela Associação Paulista de Críticos de Arte.

Retorna à poesia lançando, pela UERJ, sua Poesia residual, prefaciado por Antônio Carlos Villaça, em 1993.

O longo jejum de publicações foi quebrado em 2007 ao lançar Poemas, uma seleção dos poemas publicados nas obras anteriores.

Os trechos dos prefácios e das críticas literárias de suas obras demonstram a boa receptividade que elas tiveram colocando-o como “uma das vozes líricas mais densas e límpidas da poesia brasileira”, como afirmou Ruy Espinheira Filho.

Seguindo as trajetórias destes dois intelectuais gonçalenses, podemos afirmar que Lyad de Almeida foi profético no prefácio dos 37 poetas fluminenses, quando afirmou que alguns dos que ali estavam se consagrariam no mundo das letras, enquanto outros não.

Eis alguns dos poemas dos dois autores presentes na polêmica antologia:

 

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[1] Professor do Departamento de Ciências Humanas da FFP/UERJ. Doutor em História Social da Cultura pela PUC-RJ. Coordenador Acadêmico do Memorial da Igreja Matriz de São Gonçalo. Membro do Conselho curador do Museu da Imigração da Ilha das Flores. Conselheiro Municipal de Cultura de São Gonçalo (2019-2021).

[2] Wanderlino Teixeira Leite Netto descreveu a “pendenga literária”, em torno do livro 37 poetas fluminenses, transcrevendo as críticas jornalísticas da imprensa fluminense dos anos 1963 e 1964.

Bibliografia:

Entrevista de Jayro José Xavier concedida a Rui Fernandes em 21/05/2020.

ALMEIDA, Lyad de (Org.). 37 poetas fluminenses. Niterói: Edições Letras Fluminenses, 1963.

EIGENHEER, Emílio Maciel. Lourenço de Araújo. Poeta, boêmio. Notas sobre o Café Paris, o Cenáculo Fluminense de História e Letras e a Revista Noite e Dia. Rio de Janeiro: In-fólio, 2010.

LEITE NETTO, Wanderlino Teixeira. Passeio das letras na taba de Araribóia. A literatura em Niterói no século XIX. Niterói: Niterói Livros, 2003.

MENDES, Marlene Gomes; PERES, Deila Conceição; XAVIER, Jayro José. Martim Cererê. O Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis. Rio de Janeiro: Edições Antares; Brasília: INL, 1987.

Torquata Souto Fontoura. In: Almanaque Chuva de Versos. S/l: Nº 404. s/d. p. 16 a 19. Fonte: https://document.onl/education/almanaque-chuva-de-versos-n-404.html Acessado em 18/05/2020.

XAVIER, Jayro José. Camões e Manuel Bandeira. S/l: MEC/Departamento de Assuntos Culturais, 1973.

_____. Enquanto vivemos. S/l: Achiamé, 1981.

_____. Estória de uma Vaquinha. Rio de Janeiro: Globo, 1987.

_____. Idade do Urãnio. Rio de Janeiro: Livraria Editora Cátedra, 1974.

_____. Poemas. Niterói: Edição do Autor, 2007.

_____. Poesia residual. Rio de Janeiro: Gráfica da UERJ, 1993.

_____. Ulisses – Canto para ajudar um menino a atravessar a noite. São Paulo: Melhoramentos, 1989.

 

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Sobre o autor:

Professor do Departamento de Ciências Humanas da FFP/UERJ. Doutor em História Social da Cultura pela PUC-RJ. Coordenador Acadêmico do Memorial da Igreja Matriz de São Gonçalo. Membro do Conselho curador do Museu da Imigração da Ilha das Flores. Conselheiro Municipal de Cultura de São Gonçalo (2019-2021).

 

 

 

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1 Comentário
  • Renato Bruno 8 meses ago

    Até então, não conhecia o Prof. Rui Aniceto, tão pouco os autores que ele resgata, a partir deste texto, ora publicado, aqui, no Araçá, mas fico muito feliz pela descoberta ter acontecido através deste artigo e não de outro. A razão disso é que sou um estreante, neste espaço. Meu primeiro texto, no Araçá, aparece nesta edição. Portanto, se estivesse vivendo outro momento, talvez outro texto do Prof. Aniceto pudesse me despertar o interesse, mas não aconteceu assim. O interesse casa-se com o momento – que, neste caso, é o meu – e vem daquilo que o artigo proporciona enxergar. Como uma boneca russa, o Araçá, ao publicar esse texto, abriga em si – a meu ver – uma referência que também é sua, pois, falando de tantos outros textos, o de Aniceto fala também do próprio Araçá. Espaço importante da cultura que se irradia a partir de São Gonçalo. Explico: o que eu vejo neste suplemento, graças à luz que Aniceto ergue, ao entrar no mausoléu da história, é uma réplica daquela antiga coletânea, daquele “aperto de mão” entre “poetas nascidos ou radicados na Velha Província”. Isso porque, da mesma forma que ocorrera antes, noto eu – sempre é bom frisar que falo por mim e por ninguém mais – que, neste suplemento, permanece “o intuito mais de congregar do que de selecionar…”. Como se quisessem materializar neste espaço, o pedido de Drummond: “Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. De modo que formamos uma pequena amostra de diversidade, neste suplemento, como sói acontecer, inclusive, com os bairros em que há um alto índice de imigrantes residindo – o Portugal pequeno, em Niterói; ou a pequena Calábria, em Santa Teresa, no Rio. Somos, portanto, muitos e diversos; vindos de outras memórias, para nos encontrar aqui, desfrutando o sabor deste Araçá. Aliás, quem não o desfruta por recusa, e não por desconhecimento, são aqueles que “não tiveram ouvidos de ouvir e olhos para ver, ou os que se julgaram inferiores demais para se ombrearem, ou por demais superiores para se misturarem […] esquecidos de que, muitas vezes, o seu mundo é apenas o seu quintal, os seus domésticos…”.

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