setembro 20, 2021
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Araçá+ Resenha #03 – Assim na terra como embaixo da terra, de Ana Paula Maia

By Redação no setembro 28, 2020
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por Renato Cardoso

O livro “Assim na terra como embaixo da Terra” da escritora Ana Paula Maia conta a história de uma Colônia Penal que está prestes a ser desativada. A obra trabalha a ideia de insanidade que a reclusão pode trazer, tanto para os detentos quanto para os funcionários. Temas como: crueldade, esperança, medo, desumanidade e a libertação dos instintos mais profundos fazem parte deste livro de ação.

A psiquê das personagens é desenvolvida lentamente, assim como as ações. Maia escreve o livro com um narrador onisciente e imparcial, mostrando os fatos e os sentimentos como são. Uma obra com um número reduzido de personagens, mas com uma leitura instigante. O desenvolvimento da história a torna interessante, fazendo com que o leitor desperte a vontade de continuar lendo.

O livro inicia mostrando o cenário caótico da penitenciária, já sem diversos serviços como: telefone já cortado, coleta de lixo que não é mais feita, entre outros. O primeiro personagem que aparece é o velho Valdênio (o preso mais antigo da colônia, que passou mais tempo dentro da prisão do que fora dela), um sujeito manco, sem perspectiva nenhuma de vida, que trabalha na cozinha do local. Ele trata de um cachorro doente, alimentando-o com mingau até a morte. Neste trecho podemos ver que existem pouco indícios de humanidade naquela colônia.

Em seguida somos apresentados a Taborda (o agente penitenciário, que não concorda com a administração da colônia, mas nada faz para mudar) um homem medroso, que só quer que a lei seja cumprida. Ele avisa a Valdênio que Melquíades (diretor sanguinário da penitenciária) deseja vê-lo para discutir sobre o banquete que será feito para o tão esperado oficial de justiça.

Quando ambos estão no gabinete da diretoria, somos apresentados ao Índio Bronco Gil (o principal detento da colônia) um homem forte, que foi fruto de um estupro sofrido pela mãe, vivendo praticamente toda a sua infância numa tribo. Aos doze anos de idade foi morar com o pai, onde aprende o trabalho no campo. Lá, ele experimenta o que é matar alguém, quando encomendam a morte de um homem por uma questão de posse de terras. O mesmo perde um dos olhos, quando foi atropelado e deixado para trás. Um abutre achou que estava morte e bicou sua vista, fazendo assim que ele perdesse parte da visão.

Mas voltando para história, Bronco Gil entra na sala de Melquíades com um javali que havia caçado e cobra do diretor o cumprimento do trato, que é a liberação da sala de jogos, ouvir música e, se possível, visita íntima. Melquíades ordena que Taborda empalhe a cabeça do javali para que possa coloca-la como prêmio em sua sala.  Na local havia um armário cheio de arma, mostrando assim a periculosidade dele.

Nos capítulos posteriores, Ana Paula dá ênfase a chegada de Bronco Gil a colônia, assim como sua vida antes de ser preso por matar um prefeito. Já no capítulo cinco, a narrativa mostra de vez o perfil insano do diretor Melquíades, que ao chegar lentamente à sala de jogos, observa os detentos se divertindo e pede para que dois os acompanhem. Os demais foram recolhidos. Todos os presos usam tornozeleira eletrônicas, que só podem ser desativados pelos agentes públicos, e acreditam que se tirá-las sem permissão as mesmas explodem.

Melquíades leva os dois detentos escolhidos para fora da colônia, retira deles as tornozeleiras, e os pergunta se lembram como e o motivo pelo qual chegaram ali e se estão arrependidos. Entre as árvores Bronco Gil expiava tudo. Nesse momento, a real face do diretor vem à tona, ele manda os detentos correrem e dá trinta segundos, antes de começar a caçá-los. A metáfora com o javali, presente na capa do livro, fica evidente a partir de então. Em duplas, os detentos eram caçados pela mente insana do diretor, que sempre fazia questão de lembrar que nenhum preso havia fugido da colônia.

Os dois homens são mortos e no dia seguinte enterrados por Pablo e Bronco Gil. Todas as vezes que os detentos são selecionados para a morte, Melquíades trata como uma ação socioeducativa e podemos ver que a colônia fica em um lugar totalmente afastado da civilização. A escritora Ana Paula, ao longo da história, não cita o local onde a penitenciária está e nem o tempo em que tudo isso ocorreu. Talvez, seja um modo de mostrar que a história possa ser atemporal e que a mesma possa acontecer em diferentes locais.

A partir da morte dos dois detentos, a narrativa passa pela discussão dos demais detentos de como fugir da colônia sem serem pegos. A esperança fica em torna da chegada, cada vez menos provável, do oficial de justiça. Valdênio, Pablo e Bronco Gil sabem que podem morrer a qualquer momento e que para uma possível fuga é necessário matar tanto Taborda (que mesmo não concordando com tudo, fazia valer as leis) quanto Melquíades.

Pablo começa a estudar um método de fugir dali. Os muros da colônia são imensos e com cerca eletrificadas. Num dado momento, ele observa um abutre que posa na cerca e não morre. Então, ele percebe que naquele local a cerca está danificada e que ali pode estar a liberdade dele. O mesmo se cala e volta a fazer seus afazeres. A narrativa começa a contar o passado do local onde a colônia foi construída, que desde o período da escravidão até um momento anterior a colônia, onde era uma fazenda, mortes e atrocidade aconteciam.

A história começa a focar no passado de Melquíades e na construção da Colônia Penal, que nasceu para ser abrigo de criminosos hediondos e o lugar onde seriam mortos. Melquíades chegou à penitenciária no início da carreira, ficando mais tempo recluso do que a maioria dos detentos. O que nos leva ao debate: seria ele tão criminoso quanto os presos ou devido ao tempo de reclusão a sua insanidade foi afetada? Ou aquilo de que fato ele era só foi despertado pelo meio onde ele estava?

Pablo começa a observar o céu e sente que de repente é o seu momento de morrer. Ele dopa Bronco Gil para que não atrapalhasse seus planos. Melquíades o chama junto a Jota (outro detento) e fala para que ele que chegou a hora de parar de fazer covas. Como de costume, tira as tornozeleiras dos presos, conta até trinta e começa a persegui-los. Pablo vai direto para a parte danificada da cerca, enquanto o diretor caça por Jota. Pablo consegue fugir e Melquíades vai atrás dele após matar Jota. No meio caminho, dirigindo o jipe, ele sofre um acidente procurando Pablo e desmaia. O detento vendo que o diretor está desmaiado, troca de roupa com ele e foge. O suspense fica, pois, ao amanhecer, Taborda não encontra Melquíades e nem Pablo, somente Jota morto.

A reviravolta da história começa. O tão esperado oficial de justiça, enfim está a caminho, o nome dele é Heitor. Podemos dizer que a figura de Heitor, representa o retorna da humanidade ao local e a esperança que tudo pudesse melhorar. Antes da chegada de Heitor, Bronco Gil tenta convencer Taborda, que é o momento ideal para fuga e que eles não são inimigos, mas o agente penitenciário não faz o que o índio pede e se tranca no alto da torre da prisão com medo de morrer.

Passado algumas horas, Taborda observa uma caminhonete chegando à colônia e ordena ao velho Valdênio que abra as portas da prisão. Enfim chega Heitor, trazendo com ele Melquíades, que estava confuso, sujo e com as roupas de Pablo. Taborda, Bronco Gil e Valdênio se mantêm calados quanto a identidade do “fugitivo” que estava com Heitor. Eles pegam Melquíades e o prendem numa cela afastada. Na hora do almoço, Bronco Gil leva uma marmita para Melquíades, que ainda atordoado pensa se chamar Chico. Bronco Gil percebe que o olhar de Melquíades continuar endurecido como antes. Nessa parte, nos questionamos se Melquíades estava de fato confuso ou fingia estar.

Na sala da direção Taborda mostra o local a Heitor, que pede para ver o diretor. Sem revelar a verdade, Taborda fala que Melquíades havia se licenciado. Heitor se admira por não saber da baixa e começa a examinar os papéis dos detentos, chegando a conclusão de que ali haviam quarenta e dois presos, mas só conhecera três (ainda acreditava que Melquíades era uma deles). Queria saber onde estavam os outro trinta e nove. Taborda tenta explicar a ausência dos demais, dizendo que uma epidemia havia matado todos. O verdadeiro destino deles ainda estava obscuro.

Concluindo o livro, Ana Paula traz um tom de mistério e terror a história. Melquíades, acompanhado por Heitor, vai tomar café da manhã e depois some. Taborda e Heitor passam a conversar, quando o agente quase conta a verdade, mas com medo de ser acusado como cumplice, fica quieto. Já na cozinha, Valdênio conta toda a verdade para Heitor, quando eles escutam um barulho de tiro. Bronco Gil chegam ao Outeiro e vê Taborda morto. Enfim Melquíades está de volta.

No derradeiro capítulo, os detentos percebem que a história da tornozeleira é falsa. Podemos concluir que é o medo que corrige as pessoas. Ao se verem fora da colônia, pensam estar livres até que ouvem um disparo e Valdênio cai morto. Heitor e Bronco Gil vão à caça de Melquíades, que consegue acertar o oficial de justiça, porém é morto por Bronco Gil com um flechada na garganta.

Heitor, em um ato de agradecimento ou por entender que Bronco Gil já havia cumprido sua pena, o liberta e o deixa ir. Em um último ato, Bronco Gil enterra Valdênio e segue. Finalmente ele escuta o barulho de um veículo e pede carona. A redenção de Bronco Gil havia chegado. Ele conhece Milo, dono de uma fazenda, que mesmo sabendo que Bronco Gil era um detento, o oferece um emprego de capataz. Bronco Gil aceita e eles rumam para a fazenda.

Além de mostrar a vida conturbada e sanguinária dentro de uma penitenciária, Ana Paula aponta a questão da esperança, na chegada do oficial de justiça Heitor, e do recomeço, quando Bronco Gil encontra Milo. Um livro de linguagem simples e direta. Vale a pena ler.

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Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

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