junho 20, 2021
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Edição 04 – Crônica: “Velhice” – Suplemento Araçá

By Redação no setembro 12, 2020
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VELHICE
Gilvan Carneiro da Silva

Algo me aconteceu, ou com a minha cabeça. Algo que eu não sei, difícil de exprimir, de explicar, principalmente depois que eu fui perdendo a memória ou, de outra forma, memorizando uma série de coisas, lembrando de minha vida, misturando coisas, lembrando de tudo ao mesmo tempo, o que, na prática, é não lembrar de nada, e ainda, me lembrando mais de fatos remotos que recentes, perdendo a capacidade de raciocinar.

Deve ser a velhice. Dizem que é assim. Sempre me diziam, mas como a velhice era algo distante, eu não costumava dar muita atenção a isso, mas o fato é que envelheci e comigo a minha cabeça, embora ela tenha envelhecido menos do que eu. Mas aquela sensação de perda, de que minha cabeça era uma coisa independente de mim mesmo, algo à parte, que até se opunha a mim, começou a ser algo muito real conforme eu fui envelhecendo, e ainda mais quando, não sei como nem por que, um dia quando eu jogava sozinho uma partida de xadrez, como costumava fazer, minha cabeça pareceu jogar de forma totalmente independente de mim mesmo. O mais curioso, porém, é que essa partida parecia uma disputa de verdade, não apenas um jogo, mas uma luta entre a vida e a morte…

De repente (veja que loucura!), sem que eu percebesse, o peão das brancas se moveu sozinho, colocando-se no centro do tabuleiro como se tivesse se colocado no centro de minha vida. No meio do caminho da minha vida, como uma pedra no meio do caminho…

Eu respondi com um cavalo, pois não gosto de sair com peões. Minha cabeça (ou que mais poderia ser?) prosseguiu movimentando as peças, como se essas fossem mais pessoas do que peças. Aí eu respondia, com outros lances e outras peças foram se movimentando. Era como se as peças fossem seres vivos e eu morto, pois, de fato, na medida em que eu envelhecia eu ia morrendo, morrendo… Sentia isso na medida em que tudo o que antes realizava já não conseguia mais: a perna não andava, o braço que doía, a cabeça que não pensava, pelo menos não como antes.

Com o tempo parecia que as próprias peças que eu movimentava se moviam por si mesmas, como eu, com as cabeças delas. Não estava nem aí. Mandava que elas se movimentassem e elas se movimentavam, mas por outro lado, assim como eu às vezes perdia a cabeça, minhas peças vivas também pareciam fazer o mesmo, se movimentando à minha revelia…

“Não, não era isso que eu queria”, pensava eu, às vezes, quando me acontecia de umas destas peças se movimentar sem eu mandar, para onde eu queria. “E agora, o que é que eu vou fazer?” Pior era quando, depois de me desesperar, eu percebia que a peça, embora parecesse realizar um lance ruim, realizava um lance melhor do que o que eu havia pensado, realizado. Por exemplo, um sacrifício que, como se sabe, é a entrega de uma peça com o objetivo de se obter uma vantagem posicional ou uma vitória. Mas uma questão permanece: quem se habilita ao sacrifício?

De fato, cada vez mais a vida parece estar em outro lugar… A vida está em outro lugar, não aqui onde eu estou, mas no tabuleiro de xadrez. As peças estão vivas e eu, cada vez mais, pareço ser apenas um toco de madeira. Foi então, que lembrei de quando eu era criança e ganhara o meu primeiro jogo de xadrez. Eu brincava com as peças como se fossem seres vivos, soldados ou sei lá o quê.

Minha mãe dizia: “Meu filho, cuidado, senão você vai quebrar seu jogo”. Por que você não apende a jogar direito?” E vinha minha mãe pegar as peças das minhas mãos, carinhosamente, mas, sem perceber que, ao tomar de mim as peças, de não deixar com que eu brincasse com elas, era como se me tirasse um pedaço do futuro… do hoje… Como que um adulto ousa dizer para uma criança como é que se brinca de uma coisa? O futuro… Pensava eu!

Xeque! E agora, o que fazer? Posso me livrar do xeque de algumas diferentes formas, mas qual a melhor? Qual a menos ruim? Como o próprio rei encurralado eu me sinto. Encurralado. Em xeque. Em uma sinuca. Um goleiro diante de uma cobrança de um pênalti. Um ladrão furtando pão, mas pego em flagrante, o “homem nu que fora apanhar o jornal mas deixara a porta bater”, um réu, um… um… um velho a jogar xadrez com a vida… Porque a vida é assim mesmo, uma “partida”, pois faça o que se faça, jogue como jogue, o resultado será sempre a morte ou o fim. A perda e não o xeque mate. A vida não é um jogo! A vida é um logro!…

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

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