junho 20, 2021
  • junho 20, 2021
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Edição 04 – Conto: “Linha de Frente” – Suplemento Araçá

By no setembro 12, 2020 1 234 Views

RESUMO (Sinopse):

Durante a pandemia que se alastrou no ano de 2020, Stanley, um jovem médico que atua no sistema público de saúde no Rio de Janeiro, acaba sendo agredido por parentes de uma paciente, inconformados com a causa mortis apresentada no atestado de óbito: covid-19. Aparentemente fadado a seguir atuando roboticamente no “entrincheirado” serviço de saúde gratuito, o personagem reflete sobre seu casamento com Clara, ao mesmo tempo em que se dá conta da realidade surreal do país. Tudo parece previsível em meio ao caos, até ele se deparar com um paciente pouco convencional: Nuno, um português de 74 anos, cuja rápida recuperação parece apontar para uma possível cura da doença.   

Linha de Frente
Autora: Lívia Penedo Jacob[1]

  1. Assintomático.

“Ele tomou foi uma pisa de uns doidos fanáticos, mas tá bem”.

Até hoje não me acostumei com certos termos que minha mulher usa. Clara falava pela videoconferência com sua mãe, a irmã e o cunhado, todos em Ananindeua.

Diabo de cidade abafada, a ponto de me agoniar ver aquela gente, mesmo à distância, as gotas de suor escorrendo pela tela, os sons enferrujados dos ventiladores. Será que calor transmite e contamina, como vírus? Capaz!

Era engraçado que àquela altura o sotaque de Clara me incomodasse tanto, quando foi justamente isso que achei bonito nela, de princípio, tão condizente com seus cabelos retintos, escorridos pela cintura, a pele parda, os olhos castanhos…

‒ Você devia se chamar Jandaia.

‒ Égua! Jandaia é nome de pássaro. E tu, qual teu nome?

Nos conhecemos de maneira bem clichê, em pleno Carnaval carioca. “Amor de verão só dura uma estação”? Depende. Vai ver conseguimos driblar a má sorte quando não nos preocupamos demais com o dia seguinte. Entre idas e vindas, cinco anos se passaram até que eu me desse conta de estarmos ocupando a mesma casa: eu, ela e Chico, o gato paraense. E nem sequer posso dizer que nosso casamento tenha sido propriamente “motivado”. Do dia pra noite aconteceu.  

“Não, Mãe, o Stanley não quer aparecer. Tu viste ele na televisão, foi? Em qual programa? Mas credo!”.

Durante toda a minha vida escolar fui o nerd da turma, quando ser nerd, aliás, tinha um quê de pejorativo. Vivi metade da vida com a cara enfiada nos livros e a outra metade discutindo política nos bares. Me cerquei de sociólogos, artistas, pessoas das humanidades. Sim, sou do tipo que lê Dostoiévski no boteco. Existimos. E meio a tanta “filosofia”, nem sei mais como aprendi que jandaia é um pássaro com três subespécies: a verdadeira, a de testa vermelha e a amarela. Só sei que das três variantes, nunca entendi bem a “verdadeira”. Devia ter a ver com as cores das penas – o amarelo no peito e um pronunciado verde nas asas, as cores da bandeira. As outras seriam “mentirosas” ou “falsas” porque menos “nacionalistas”?

‒ Tu sabes que aratinga é como os índios chamam essa ave? – Clara me surpreendia, sem fazer esforços.

‒ Sim. É o nome científico dela – respondi, pensando que se eu fosse uma ave emplumada talvez tivesse mais sorte com as fêmeas. Estava ruim de papo e minha interlocutora dominava a cena:

‒ Os primeiros naturalistas que chegaram no Brasil aproveitaram muito das nomenclaturas tupis. Jandaia, por exemplo, significa “águas limpas” e aratinga é a “ave clara”.

 ‒ Ué, mas ela não é colorida?

‒ Então, “tinga” significa “branco”, “ara” é “ave”, mas todas as línguas formam palavras por analogia. “Branco”, nesse caso, pode se referir ao amanhecer, quando esses pássaros iniciam sua revoada, ou talvez às “águas limpas”, onde se banham as jandaias. Uma boa tradução seria: “a ave que anuncia a alvorada”.

‒ Branca, ou seja: Clara! Você se chama Jandaia mesmo.

Julgava ter acertado algo, quando estava sendo só mais um babaca. Pra ver a banda passar, cantando coisas de amor.  

  • Surto.

 Inacreditável que em pleno Carnaval aquele diálogo estivesse acontecendo. A banda tinha passado há tempos, e nós dois esticávamos num boteco, eu fingindo que gostava daquela cachaça barata, ela entornando todas as garrafas de cerveja que via. Torcia pelo desatino: a garota tombando bêbada nos meus braços em algum motel do Largo do Machado. Pensamento espiralado que sumia e reaparecia em átomos, bombas atômicas de ideias necrosadas. Eu, um cretino que não bebeu quase nada de propósito. Canalha, e daí? Quem nunca? Sim, só queria mesmo comer a garota ou “me aproveitar” ou as duas coisas, você escolhe. Acontece que ela se mantinha sobre-humanamente sóbria. Sóbria e inteligente, não me restando outra escolha senão mostrar também ser dono de um cérebro.

Tempos depois, nós dois já namorando, Clara disse, me achou “bem boçal”, modo como as pessoas lá na Amazônia chamam quem “adora uma pavulagem”, traduzindo: “um exibicionista metido a besta”. Nunca assumi pra ela a minha própria escrotidão. “Um lance babaca passageiro”, disse várias vezes pra mim mesmo porque, no íntimo, meu sonho era poder manter uma partícula ridícula do que um dia já fui, me conservar dentro daquele pequeno universo másculo de armaduras, um corpúsculo das mentiras que outrora me compuseram. Viver de certezas é viver pela metade, fato.

Depois que o dia raiou, vimos maracanãs gritando no alto das paineiras do Aterro do Flamengo, nós dois sentados à beira do meio-fio…

  ‒ É. Aqui no Rio de Janeiro nunca vi jandaia. Só o Maracanã, as maracanãs e você.

Por um segundo, esqueci que antes buscava nada além de uma trepa. Fantasias de Carnaval… Procurava a minha máscara, caída em alguma esquina. Antes pilantra, eu era agora um feliz abstêmio, fantasiado de bobo, um anti-rei Momo, vestido como o próprio, no sentido de portar cetro, coroa e faixa, mas sem a barriga característica daquele personagem bonachão. Pelo contrário, andava com a escassez exposta, minha magreza hereditária indisfarçável tão bem ressaltada, a compleição atlética de pele-osso à vista do povo. Fosse como fosse o ridículo da situação, todas aquelas negativas faziam de mim um bufão muito digno do Carnaval, enquanto Clara vinha sem maquiagem, nem brilho, nem traje típico ou adereços, flutuando por dentro de um vestido longo, todo branco, visivelmente reciclado do Réveillon, as sandálias rasteiras, os cabelos compridos amarrados numa trança… “Deve estar homenageando Iemanjá, vestida de orixá”, pensei, até entender que ela estava nua, se endereçando a si mesma. Ignorar as fantasias dos outros é uma estrada pra liberdade, e era isso que ela fazia, mostrava suas impenetráveis quimeras, se desnudando. Cheguei a vê-la completa, por debaixo daquelas roupas, a coxa, os seios, as nádegas, aquela mulher iluminada no meio da multidão, uma visão epifânica. Não posso contrariar que eu fosse, por natureza, um tarado, mas a coisa ia além. Vi até manchas roxas sobre as pernas, umas que os antigos chamavam de “mágoa” e os livros de Medicina nomeiam “púrpura simples”. “Pessoa interessante”, me ocorreu, chegando sozinho à conclusão de estar possivelmente louco, pois os que não saíram das suas fantasias eram incapazes de notá-la em meio às plumas. Eu via algo que ninguém mais enxergava, uma imagem pura, cena bíblica, e nem por isso virei abóbora ou contei histórias da carochinha. Era Clara quem me enredava com programas de índios, os bororos, os guaranis, os caiapós, os corubos, as lutas entre eles e os madeireiros, o governo a lhes dar flechadas. Tantas coisas sobre as quais eu nunca soube! Aprendia. Sexo era, afinal de contas, apenas um detalhe, dizia a mim mesmo, dono daquela verdade, sem precisar nem de convencimentos nem de consolos de terceiros. Agradeci. A quem? Isso que não sei, pois não acredito em Deus.

   “Tens que me passar o número da Bia, tá, mãe? Vixe, olha a presepada! Com licença, minha gente, a conversa tá boa, mas já me vu.”.

Depois que saiu da videoconferência, Clara veio com uma bolsa de gelo na mão que pôs desavisadamente sobre meu olho machucado. Deitado, eu tinha passado cinco minutos me revirando até achar a melhor posição pro notebook. Esquecido da vida e até de onde estava, senti um baita susto com aquele troço gelado pousando na minha cara e involuntariamente empurrei tudo com os braços: Clara, a bolsa de gelo, meu notebook…  

    ‒ Égua, Stanley!

Aquela palavra, mais usada pelos nortistas do que vírgula, podia significar muitas coisas e dita daquele jeito, eu já tinha aprendido, era sinônimo de zanga.

Com a cara amarrada, Clara sumiu, indo se trancafiar no banheiro. Estropiado, levantei do leito pra repetir uma cena tão cafona quanto corriqueira nas telenovelas:

‒ Clara, escuta, foi sem querer. Abre, vamos conversar!

‒ Dá um tempo!

  • Isolamento vertical/horizontal.

Era pra ter sido one-night-stand, mas acabou não sendo.

Nós dois sentados no meio-fio do parque, ao som dos berros das maritacas, ela me dizendo que tinha vindo ao Sudeste pra cursar um mestrado e eu ouvindo tudo atento, enquanto segurava o cu na mão, temeroso de que aparecesse algum sujeito armado. A cidade é, afinal de contas, muito violenta, a morte por aqui parece que nos espreita, especialmente no Aterro do Flamengo de madrugada, mas ela, sendo do Norte, não deve saber, pensei. Migrar da Amazônia pro Sudeste é uma forma de desterro até pras aves. Às vezes, o que move a natureza, inclusive a da gente, é o desespero. E Clara, dizia, vinha por amor às línguas, ia estudar as indígenas no Museu Nacional. Até que ela me beijou, e a terra se abriu e me engoliu, e acordei sonâmbulo num quarto de hotel. Amanhã tudo volta ao normal. Deixa o barco correr.

Tão tarde. Tão cedo. Putas, virgens e Viagra, confesso: nunca experimentei! Estava, pela primeira vez da minha vida adulta, inseguro com sexo. Era o quê? Orgulho de macho ferido. Pavulagem? Não, a palavra certa me ocorreu: seboso. Tudo muito complexo, eu carregando o peso daquela imagem de mulher bonita flutuando dentro de um vestido que só existiu na minha cabeça, algo muito divino. Antes de tudo, fui ao banheiro, a bexiga cheia. Me olhando no espelho, vi que estava nu, sem fantasias, perdido nas minhas perplexidades. Cismei que na hora H ia broxar. Não broxei. E isso importa? Tenho autocrítica e reconheço minha mediocridade.

‒ Abre a porta, Clara.

Depois daquela foda mal dada, Clara se mandou. Saímos outra vez, quando fui eu que sumi, pra depois reaparecer. Num dia qualquer, nos reencontramos. Mas agora, eu estava pondo tudo a perder, sendo o mesmo escroto daqueles tempos, irritado por não conseguir continuar a minha leitura porque o sotaque paraense me atrapalhava.

‒ Escuta: eu já tinha colocado a bolsa de gelo no coágulo. O arroubo não tem nada a ver com você.

Mas tinha. Era desgastante lidar com o excesso de cuidados dela para comigo, o estranho orgulho da minha sogra por eu ter aparecido na televisão. Da noite pro dia, virei uma celebridade ao contrário, o epítome da loucura em que se transformou o país. “Médico é agredido por familiares de paciente que rejeitam covid-19 como causa mortis. Profissional de trinta e dois anos passa bem”. Como os caras da imprensa sabiam até a minha idade? Filhos da puta! Não autorizei nada. Disseram que fui “agredido”, quando na verdade tomei uma baita porrada. Sentia raiva de mim mesmo, daquela fraqueza exposta nos hematomas, os receios transmitidos em telejornais. A morte porque solitária nunca é solidária, e isso talvez explicasse a revolta dos irmãos daquela paciente, a recusa em aceitar que o fim de tudo sempre está à nossa espreita.

‒ Amanhã volto ao hospital, bem cedo.

Clara abriu a porta e me abraçou, sem dizer palavra, me puxando, em seguida, pra dentro do banheiro, arrancando as roupas e se pondo nua quase que imediatamente. Transamos ali mesmo, em cima da privada, ela me cavalgando por cima, chegando os dois ao gozo muito rápido. Era a catarse de qualquer coisa que não fazia sentido, a síntese do nada ou o esvaziamento mútuo de nossos medos, mas que não deixava de ser bom.

Já no chuveiro, ela vinha mais relaxada ao fazer as sujeiras dos pensamentos descer ralo abaixo, sorrindo pouco pra uma boca acostumada a risos largos, os olhos apertados de descendente dos tapuias já sem verter lágrimas.

  • O corpo e o anticorpo.

Eu dando banho na Clara era uma cena bonita, dessas que gostaria de ter podido olhar de fora. Seu cabelo agora estava mais curto que o meu, um corte moderno, tudo feito por ela mesma durante a quarentena. Não é que tenha ficado bom, mas também não ficou nenhum desastre. Afinal, uma nuca é uma nuca é uma nuca… é uma nuca!

Depois de cinco anos de pura “enrolação”, eu me via aboletado na casa da Clara, sem que tenha exatamente pensado em me casar com ela. Quer dizer, já havia pensado sobre o assunto, claro, mas não exatamente naquelas circunstâncias. Do dia pra a noite, me vi tateando as escuridões daquela mulher, tentando me fazer caber no seu apartamento sala-e-quarto, onde não havia espaço pros meus discos, meus livros e minhas excentricidades.

Na minha vez de ir pra debaixo da ducha, Clara se adiantou a falar, se secando do lado de fora. Como uma motosserra, descambou a vomitar suas agruras amazônicas, os indígenas morrendo mais do que todos com a pandemia, o fim dos povos, das línguas, dos seus amigos… ela recém-doutora e desempregada, o que ia fazer dali pra frente?  

‒ Minha mãe andou com depressão. Agora tá medicada – Clara falou, me olhando do lado de fora, já seca e vestida.  

‒ O que Dona Ruth tem feito pra se distrair durante a quarentena? – Perguntei.

‒ Absolutamente nada. Parece que passa todo o dia em frente à televisão assistindo àquele programa mundo-cão, o Linha de Frente.

‒ Impossível ficar bem vendo aquilo.

‒ Foram eles que noticiaram o que te aconteceu.

Minhas excursões à Amazônia tinham sido escassas, apesar de Clara ir lá com frequência. Nunca me adaptei ao clima, nem morri de amores pela cultura, apesar de nutrir simpatia pelas pessoas. As incursões me pareciam exageradamente traumáticas, como daquela vez, em Altamira, quando fomos gravar depoimentos que serviriam de material pra pesquisa de doutorado dela. Junto das “línguas indígenas” vinham relatos de violência, mortes, hidrelétricas… A coisa me incomodava. Justo eu, que tanto gostava de discutir política e futebol no bar quando isso ainda era possível… Justo eu, que cheguei a me filiar a partido político pra depois me desentender… Justo eu, que me achava tão justo…

  • Imunidade de rebanho.

No dia seguinte, acordei tarde de propósito porque tinha que chegar no hospital ao fim do segundo turno.  Almocei qualquer coisa enquanto assistia a televisão. O novo normal… é preciso se reinventar… a crise… vamos achatar a curva… porque os médicos que estão na linha de frente… a natureza tá retomando o seu espaço… fica em casa… a máscara salva… vai passar…  O turbilhão de clichês me fazia pensar se não estávamos dentro de um filme de mau gosto várias vezes reprisado na Sessão da Tarde. Todos os dias são o mesmo. Inferno.

Me despedi de Clara e, quando fechei a porta, ainda a vi sentada no sofá, o gato no colo, as pernas cheias de nódoas, as tais “manchas púrpuras”. Sim, ela sofria com aquela estranha condição, tal como imaginei da primeira vez que nos vimos: marcas secretas subindo pelo corpo, tão bem coberto pelo vestido longo branco a lhe tapar as carnes. Eu devia ser um bom médico, do tipo intuitivo, ou aquilo era premonição, a única que tive por toda a existência. Sempre pensei que a vida tá cheia de coincidências boas ou más, e esse caso apenas comprovava minha teoria.  

Desci de elevador, não sem antes me limpar com álcool em gel, e ainda na garagem do prédio, antes mesmo que eu abrisse o carro, de dentro do telefone celular ouvi apitar o aplicativo da prefeitura. Eu tinha sido multado, a mensagem avisava. Porra! Não pensei em nada. Liguei o rádio e não pensei nada. Eu só queria me distrair, precisava, me esquecendo que a vida já não era mais uma via de mão-dupla. Ao invés de música, me deparei com os mesmos chavões da TV: “Estamos entregues aos abutres”. O locutor noticiava a negação da pandemia por parte do presidente – “tudo parece surreal, mas circo vive é de ilusão, centenas de pessoas foram protestar na capital, pedindo a volta da ditadura. No meio da confusão, jornalistas foram espancados. Séquito de fanáticos”. O cenário narrado se assemelhava a um pesadelo. Me olhei no espelho: os hematomas do rosto tinham sumido. Restavam algumas manchas marrons, leves, sobre meu rosto já usualmente encovado, ainda mais abatido pelas circunstâncias. Agradecia pelo bom funcionamento dos meus olhos, mas não pude deixar de zoar comigo mesmo, como faço desde a adolescência: “ser feio tendo olhos azuis é uma merda, cara”.     

O sinal ficou verde. Distraído, fui acordado pelo buzinaço dos que me sucediam. Nos hospitais, não havia mais os equipamentos individuais de segurança, os EPIs, “perdemos mais enfermeiros mortos pelo SARS-Cov-2 do que Espanha e Itália juntas”, o locutor continuava, para em seguida relatar o sofrimento nas comunidades periféricas, as pessoas proibidas de sair depois das sete da noite pelo próprio tráfico sob pena de morte. Vai passar.

As rádios esqueceram de noticiar que a caminho do hospital havia uma carreata pró-governo:

 ‒ Queremos trabalhar, reabre o comércio! A culpa é da imprensa, covid-19 é o caralho! Volta AI-5!

Meu carro não podia ultrapassar e, pra todos os efeitos, eu fazia parte da turba de paspalhos, com cornetas e vuvuzelas nas mãos, camisas com as cores da bandeira do Brasil, protestando em frente a um centro médico. Anacrônicos, era gente vinda do passado, ainda descontentes com o placar de 1 a 7, Brasil x Alemanha. Me perguntei se não pensavam nos doentes, no incômodo provocado pela barulheira, pra enfim entender que não. Eu estava diante de um exército de acéfalos movidos por ódio, suástica, racismo, machismo e homofobia. Para alguns, o coronavírus era uma criação do Oriente.

‒ Morte aos chineses!

“O Brasil não é pra amadores…” ainda ouvi o locutor dizer, antes de desligar o rádio. Consegui furar a barreira e chegar ao hospital, onde estacionei o carro sem grandes delongas. Tão logo pus os pés ali, me deparei com um cenário de guerra, os corredores substituídos pela sombra da morte, pessoas doentes, apinhadas, algumas falecidas.

‒ Já não temos espaço no necrotério.

Suei dentro da roupa de astronauta como se estivesse sob o clima equatorial de Ananindeua, o ar condicionado quebrado. Foi quando me ocorreu que o Sistema Único de Saúde já há muito estava colapsado. Eu, o SUS e a Constituição havíamos nascido em 1988, e esperávamos todos pela Democracia, deitados eternamente em leitos nada esplendidos. Leitos, aliás, faltosos, em salas que precisavam urgentemente ser esfriadas, nem que fosse em nome da Vigilância Sanitária, e não dos doentes e nem dos mortos apodrecidos no necrotério.

O conserto veio.

Com ele, o barulho insuportável do ar-condicionado, os monitores cardíacos, as bombas de vácuo, as ligações telefônicas, o burburinho desconcertado das pessoas, os respiradores. Enfim, os respiradores.  

  • Saturação.

Os livros de Medicina não ensinam que doença pode ter partido. Isso é coisa que os médicos precisam aprender na universidade da vida e, no meu caso, como falei: no bar fiz escola, mas nem por isso me sentia preparado pra tudo que via. É que não foi apenas uma vez que os “partidários do Covid” foram à porta do hospital pra protestar. O fato se repetiu no dia seguinte e no outro e no outro sem que se tomasse nenhuma medida legal. Lutavam contra quem? Contra eles mesmos.

‒ Vamos reabrir o comércio! O país precisa caminhar.

O Presidente da República foi convidado a comparecer àquele programa de TV, o mesmo que expôs meu nome, imagem e idade. Linha de Frente. Aquele homem não tinha partido, não era membro de nenhum grupo legalmente formado, fazia política por si mesmo e pra si mesmo. Mas, à semelhança dos antigos coronéis latifundiários, tinha seus apadrinhados, filhos, sobrinhos e enteados. O vírus era letal.  

‒ Presidente, estamos liderando o número de infectados no mundo – mencionou a jornalista numa coletiva de imprensa.

‒ E daí?

O vírus também não tinha partido, andava desfiliado, passando de mão em mão e de boca em boca. O inimigo não tem rosto, nem cara, nem cu. Ele não defeca. É só um filete de DNA, que se reproduz à permanência e à impermanência, trocando, por vezes, a ordem das palavras, dos códigos, pra recrudescer, infectando mais e mais corpos e cabeças, matando centenas, milhares, milhões. Desfilando sem máscara, descarado, assim era a doença. Nem todo terrorista anda com o corpo cheio de bombas, o maior deles nem tem corpo. Nenhum lugar é mais seguro do que nossas casas, justamente porque esquecemos de construir casas pra toda a gente, metade vivendo empilhada pelas ruas, aqui, em Bogotá, em Bombaim.

E daí?

Pirataria. Holding. Trusting. Ford. Foda. Nunca na história do país, elegemos um estadista que tão bem nos representasse, o sangue nos olhos esbravejando preconceitos. O homem eleito alegorizava todas as nossas feridas expostas, nossas bocas espumando contra nós, pretos, índios, putas e pobres. A gente se odeia.

E daí?

Eu, completamente afetado e envolvido, nunca desejei tanto pode tirar a roupa, ficar novamente nu de fantasias como quando estivesse pela primeira vez com Clara, todos os desejos em suspenso. Quem sabe eu pudesse, enfim, voltar a dormir sem remédios, sonhar sonhos tranquilos de estar dentro da mata, fumando ervas proibidas, inalando novos ares…

‒ A enfermeira tirou todos os equipamentos de segurança, teve um surto de burnout e foi embora pra casa. Não estamos mais aguentando passar oito horas sem beber água nem fazer xixi, simplesmente porque não dá pra desperdiçar máscaras, toucas, avental. Ela mora na favela, lá tem toque de recolher.

O mesmo, esqueceram de dizer, valia pro porteiro, faxineiro, entregadores de comida. Todos se autoimolavam em nome de nós, os outros, sem pensar que podíamos estar contaminados, sabedores que não havia O inimigo. O combate pela pátria requeria não o autosacrifício de se expor em prol dos estadistas, mas o de se impor racionalmente frente ao egoísmo que nos caracterizava enquanto cidadãos. Era o tempo de enterrar os velhos mitos, a cordialidade brasileira, o jeitinho, mas mudar dá trabalho. Vamos nos adaptar aos tempos, ao “novo normal”. Lembrei da voz da apresentadora na TV. Vai passar.

‒ A punção da veia. Reposiciona o tubo. É preciso medir os níveis de açúcar no sangue do paciente. O ventilador, ajeita. Nesse caso, vamos prescrever um remédio mais forte, talvez um coquetel de antibióticos.

Inspirei fundo. Os exercícios respiratórios são bons preventivos, a população está sendo ensinada. Expirei. Vai passar.

  • Vacina.

Após uma semana de protestos na porta do hospital, os manifestantes se dispersaram. E eu, já acostumado com os gritos, a tensão e a loucura, não sabia o que fazer com tanto silêncio. Parecia um dia de trabalho atípico, mais calmo do que o habitual, embora tivéssemos tantos pacientes quanto sempre. Nos decretamos superlotados. O cenário era o mesmo de alguns dias antes, quando retornei. Só que pior.

Na trincheira, o caos às vezes se transforma em pasmaceira. Um paradoxo! Até que encontrei a calmaria que tanto desejava num caso que me pediram pra analisar. Nuno, 74 anos, estava há menos de 48 horas na UTI, onde chegou com febre alta, anosmia, insuficiência respiratória, cansaço. “Suspeita de covid-19”, dizia o prontuário. O quadro clínico era prodigioso: o idoso se recuperou sem nenhuma medicação diferente daquela que vínhamos administrando em outros pacientes. “Era possível que estivéssemos diante de uma pista pra cura da SARS-Cov-2?” – eu me perguntava, ansioso pelo fim do inferno. Quando cheguei, o paciente estava acordado, olhos serenos. Comecei uma entrevista clínica padrão, procedimento de praxe, na expectativa de encontrar uma resposta concreta para aquele caso:

‒ Além de omeprazol e hidralazina, faz uso constante de alguma outra substância?

‒ Sabes que dia é hoje? – Ele perguntou e respondeu ao mesmo tempo, ignorando meu questionário – Aniversário da Revolução dos Cravos, 25 de abril.

Não era. Já há muito tínhamos passado do mês de abril, mas nada falei a respeito, sabendo que a falta de oxigenação do cérebro causada pelo coronavírus comumente abalava a memória imediata das pessoas, por vezes até o senso de localização, sintomas passageiros. Logo percebi que era um lusitano, pelo sotaque.  

‒ Sou de Trás-os-Montes, duma aldeia que não achas no mapa.

Aquela conversa sem pé nem cabeça confirmava minhas suspeitas: o homem delirava. E logo deu pra recitar poemas, Sophia de Mello Andresen, Fernando Pessoa, Cesário Verde, perguntando se eu conhecia aqueles versos. Logo eu, um nerd, melhor aluno da escola, melhor aluno da faculdade, aquele que todos sabiam que “vai dar certo na vida”, “o que devia ter ido embora do Brasil, esse país de merda”.

‒ Por que não vai morar em Portugal?

Era a lembrança da voz da minha mãe falando, ela que há tantos meses eu não visitava. Na “linha de frente”, fui privado de ver meus próprios parentes, preservar o “grupo de risco”. Não conheci meu sobrinho recém-nascido, não pude examinar meu avô por causa do seu quadro oncológico. Sentia como se tivessem arrancado o meu passado. “Proibido olhar pra trás!”. 

Mas eu sempre olho e naquele instante olhava, lembrando da minha viagem à Lisboa, uma única vez, a congresso. Como todo brasileiro “classe média”, aproveitei que estava lá pra conhecer uma parte do continente: Espanha, França, Alemanha, Inglaterra… Mas nada disso cabia ao Seu Nuno saber. Fingi desconhecer a tal revolução, o país, livre da ditadura por influência de uma ala militar liberal, coisa que a gente almejava tanto tivesse acontecido por aqui… De todo modo, como só estive em Portugal a passeio, eu sabia apenas do que andava à superfície.  

Insisti com o Nuno, que continuava sem responder nada a respeito das medicações. Compartilhou trechos esparsos, significativos, de suas mais emocionantes experiências, a participação na Revolução dos Cravos, a posterior vinda ao Brasil, logo visto com desconfiança pelos militares daqui porque, afinal, um “tuga” devia estar a planejar algo de mau. Os livros de Carlos Marques. Eu não era nada de ‘errado’, não era um ‘subversivo’, como me apontavam, apenas traduzia o que aqui não se fazia, goste-se ou não, obras de extrema relevância para a intelectualidade europeia. Prenderam-me por equívoco, isto asseguro, pois ia a um sítio onde estava um tal Francisco, cuja procedência eu desconhecia. Haveria uma festa, em certa casa afastada, o António a me esperar. Interceptaram-me à porta, que vens fazer aqui, os soldados perguntaram. Por sorte eu não trazia comigo os livros, falei apenas a verdade, encontrar-me com um editor. És português? Eles logo suspeitaram, era no ano de 1976. Que fazias lá em vossa terra? Era militar como vós, um soldado. Deves pensar que sou estúpido, mas fui honesto. Até porque se tratava de livros sobre Santa Teresa d’Ávila e uns outros poucos textos ibéricos. Um desertor, percebes – eles disseram, rindo, enquanto mencionavam aquele Francisco e outros tantos meus desconhecidos. Pronto. Deviam estar na festa, pois lá não estavam, toda a gente fugiu antecipadamente, avisada por membros do próprio exército. Para que vejas: também aqui havia dissidências, militares contrários ao regime, mas não deu em revolução. Tomamos eletrochoques. Encontraram minha mulher com quem eu trabalhava, revisora. Que vieste fazer no Brasil? Casar-me com Dira e cuidar do Dinho, nosso filho. Nunca acreditaram – éramos comunistas, subversivos, pois assim viam à gente que pensava. Queriam que déssemos nomes. Mais choques. Se calhar, passei a gostar da coisa, acostumei-me. Porque não havia nada que eu soubesse, me torturam só por vinte dias, trancado-me em uma espécie de banheiro onde havia uma pequena latrina, os braços amarrados, um pano a tapar-me a cabeça. Por vezes ligavam o ar condicionado no volume máximo, o frio nos ossos, a fim de nos fazer aceder. Sabias que aqui também tivemos o Estado Novo? Carlos Marques, é assim que chamam o marxismo por lá, seu português imundo! Mais choques. Minha mulher posta em pau de arara sofreu toda sorte de violências, já o miúdo, o mandaram à Lisboa graças à diplomacia, onde ficou por mais de ano com meus pais. Exilado não de meu país, mas daquele onde escolhi viver, um estrangeiro, estigmatizado. Hoje olho adiante e vejo a sombra de tudo que matamos, vejo vosso passado sair da tumba, agonizante. A gente a pedir a volta dos anos de chumbo. Escreve: as máscaras são vossas novas mordaças. Tivemos um governo à esquerda que não socorreu o povo como se imaginava, é facto, porém descambamos por caminhos obscuros, por onde todos os sonhos de liberdade resvalam. Valeu a pena? Nem tudo paga a pena, pois, nem sempre a questão é a alma ser ou não pequena. As miudezas são impostas por governos, pelo Estado. Esses sim têm espíritos de porcos! Sabes quem ganhou o prêmio Camões este ano? Pois o tal Francisco que procuravam era o Buarque de Hollanda.

Foi quando me lembrei de Clara, a gente se conhecendo num bloco de Carnaval comandado por uma banda feminina, Mulheres de Chico, um estranho chamado Francisco, que também era autor premiado e, sem saber, havia determinado a vida de um imigrante português. Não, bobagem. Obviamente tudo aquilo não passava de “ladainha”, bela “história de pescador”, coisas de um velho senil. A conclusão médica era uma só: aquele homem jamais contraiu o vírus. Tratava-se, pois, de um caso inédito, um indivíduo acometido de delírio ou histeria que desenvolveu um quadro psicossomático semelhante aos dos contaminados. Registrei minhas impressões no prontuário, dando alta hospitalar ao Nuno, pleno conhecedor das dificuldades que enfrentaria pra convencer meus pares daquele diagnóstico. Demandaria uma investigação neuropsiquiátrica. Que alguém fizesse. Notei, no histórico do paciente, que tinha lúpus. Em menos de 2% dos casos, a doença está atrelada a psicoses, o que podia ser uma explicação. Não me interessava. O importante era liberar ele o quanto antes, mandar de volta pra casa, deixando vago um respirador, àquela altura muito necessário pra uma gestante em idade materna avançada. Foi feito.

Após aquele breve momento lúdico, o dia voltou às turbulências. Um paciente, revoltado com o diagnóstico de coronavírus, retirou o acesso venoso e a máscara de isolamento. Gritaria, sangue escorrendo pra todos os lados. Me tirem daqui! Mais sangue. Um colega me informando que as gavetas já estavam vazias de remédios, que chegou uma ambulância. Havia leitos nos hospitais de campanha construídos às pressas pelo governo, ele dizia, mas estava tudo jogado às traças, pois não tínhamos médicos. A imprensa insinuava sobre um superfaturamento naquelas obras, favorecimento de milícias. E onde atuávamos, o material às mínguas, esmolávamos. Eu, que sempre andei tão envolvido com política, reavaliava minhas próprias alienações, me questionando se o mundo andava contra o Brasil ou se era o Brasil que andava contrário ao mundo, quando seguimos, à imagem e semelhança dos Grandes Impérios, os parâmetros inventados pelas elites burguesas. Ao menos conforme o pensamento de alguns, não todos, graças a…. a…. Bem, Deus, se existisse, acharia tudo uma desgraça.

Senti minha cabeça latejando, devia ser cansaço. Caí. Recebi uma massagem cardíaca, acesso venoso, oxigênio, enfiaram morfina em minha veia. Fui pra casa dopado.

Permaneci meio inconsciente até a manhã subsequente, quando acordei com dois olhos imensos me observando. Era o gato.

– Velho Chico!

Eu gostava de chamá-lo assim, em homenagem a São Francisco, o rio. O bicho quase sempre me ignorava, coisa que não faz nem aos desconhecidos. E naquele dia, pela primeira vez em meses, me respondeu:

– Rrrrrrrrrrrrrrr

Era meu telefone celular, vibrando sobre a cômoda do quarto. Aquele colega, o mesmo que me socorreu, queria saber como eu estava. Bem. Perguntei sobre Nuno.

– Quem?

– O português. Deixei tudo escrito no prontuário.

– Stanley – ele respondeu – sei que foi difícil. Também tá sendo pra nós. Mas não tínhamos escolha. Acabaram os respiradores. Juramos salvar vidas e, por hipocrisia talvez, ninguém fala que pra fazer isso, às vezes precisamos empreender sacrifícios. A gestante que pusemos no respirador tá bem,  o bebê foi salvo. A cesárea foi um sucesso. 

Finalmente, entendia que o devaneio havia sido meu, quadro de covid-19 paranoide, a negação de minha própria realidade e de tudo que me vinha acontecendo. Cambaleante, fui caminhando até a sala, onde Clara, lânguida, esparramada no sofá, o laptop sobre o colo, fingia ver TV. Chico veio atrás, roubando a atenção da dona: recebi um mero “bom dia”, ao contrário de meu rival a quem ela encheu de beijos e carinhos. 

– O que tá fazendo aí? Teleconferência? – Perguntei, imaginando se tratar de algum telefonema da mãe. É… de pessoas “surtadas” minha mulher andava bem servida.

– Tô escrevendo uma história – ela respondeu. – É sobre a pandemia, a quarentena, nós dois, a crise política.

– E eu te autorizei a me colocar nessa história?

– Fica frio, tá tudo ficcionalizado. Você, por exemplo, não vai ser médico, mas um professor de artes, e eu não devo me chamar Clara.

– E vai fazer isso pra quê? Escrever dá dinheiro desde quando?

– Tô escrevendo pra sobreviver, mas não desse jeito. Tô enganando o tempo, entende?

Olhando minha mulher refestelada, senti novamente uma epifania, tal qual aquela que tive no dia em que nos conhecemos, e a imaginei grávida, os seios cheios de leite, nós três no bloco de Carnaval que aconteceria no próximo ano ou no ano seguinte ao próximo. Lembrei, de súbito, a música que a banda tocava quando vi Clara pela primeira vez. “Uma ofegante epidemia, que se chamava Carnaval, Carnaval, Carnaval. Vai passar”.

Senti duas lágrimas transbordarem dos meus olhos, lágrimas quentes como o ar que evapora das terras amazônicas todos os dias, após as chuvas da tarde. Qualquer coisa dentro de mim nublava e eu estava prestes a precipitar fazia tempo.        


[1] Doutora em Teoria da Literatura e Literatura Comparada (UERJ), trabalha com educação, revisão e produção textual na área de Letras.  Blog: www.cidadelaliteraria.wordpress.com

Redação

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