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Edição 04 – Crônica: “A Vendedora de Enciclopédia” – Suplemento Araçá

By Redação no setembro 9, 2020
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A VENDEDORA DE ENCICLOPÉDIA
Oswaldo Eurico Rodrigues

Não conhecíamos Internet. Os computadores eram enormes e presentes somente em bancos e repartições públicas. Os livros reinavam como veículos de cultura. Era praticamente nossa única mídia. Pelo menos a mais respeitada. Quando recebíamos a incumbência de pesquisar sobre algum assunto, nossa fonte era o livro. Nele acreditávamos encontrar a verdade. Nas páginas impressas; o mundo, a certeza e a razão. Ler era, por excelência, indispensável. O saber não termina e não ocupa lugar (na nossa cabeça). O mesmo não digo de nossas estantes. Agora mesmo estou com três delas desmontadas e com os livros empilhados em torres sobre a mesa devido a uma reforma. Valerá a pena dar conforto aos eternamente grandes amigos de papel. Livros ocupam sempre grande espaço (físico ou virtual), imensuráveis, renováveis, em constante expansão. Como então armazenar tanta grandeza?

Talvez a enciclopédia tenha sido uma forma de condensação do saber. Nela acreditávamos encontrar tudo. Era uma Internet de papel. “Tem na enciclopédia? Não? Então não existe!” (Qualquer semelhança será mera coincidência?).

Não havia ninguém vendendo modem e nem provedores disputando consumidores. Havia sim gente de porta em porta vendendo enciclopédia. A Barsa era o sonho de consumo de todo estudante. Nunca tive a minha. Mas tive outras menores. Uma delas era a Enciclopédia de Pesquisas Escolares, uma coleção interessante onde se lia sobre animais, plantas e minerais entre outros assuntos. Pesquisei bastante. Infelizmente não tenho nenhum um simples volume mais. A manipulação infantil de meus descendentes colaterais acabou por despedaçar meus exemplares. Uma lástima! Felizmente a biblioteca sem a coleção continua intacta. Enfim…

Estou sozinho. A vendedora está na porta esperando para ser atendida. Não há nenhum adulto em casa. Espere um pouco. Vou atendê-la.

— Posso falar com a mamãe?

— Ela não tá!

— E o papai?

— Num tá!

— A vovó?

— Tá na casa dela…

As grades separam morador de não morador.

— Posso entrar e esperar a mamãe?

— Ela levou a chave.

— E se a casa pegar fogo?

— Eu pulo o portão, ué!

Eu tinha a chave. Eu tinha trazido a chave. Não podia é abrir para qualquer um. Muito menos para uma bruxa magrela. Se ela me prendesse dentro do livro, viraria personagem no papel. Talvez existisse para sempre preso num corpo infantil. Mentir foi a solução. (Coisa que não faço sempre. Só quando a história não anda. As vezes torço um pouco a existência, fantasio, exagero, mas não minto. Aumento um ponto, avanço, desando, desfaço, retiro o ponto… e ponto final. Agora tenho a chave e não deixo entrar. Agora tenho a senha e não dou acesso. Tenho o cartão de crédito e não deixo comprar. Abri um parêntesis e não deixo fechar. Tenho a chave e assim vou permanecer prendendo quem não me interessa do outro lado. Fora da minha história!).

Era uma tarde nublada como a de hoje. Uma mulher de colete cinza de diretor de cinema cheio de bolsos põe uma sacola no chão, uma pasta embaixo do braço e a outra entre as pernas de calça jeans. Bate palmas. Meus pais atendem.

— Já sei. Papai vai mandar ela embora e mamãe vai ficar com vergonha, mas vai gostar porque também não queria atender ninguém.

Milagrosamente aconteceu tudo contrário ao pensamento do Oswaldinho. Como era extremamente educada e sabia esperar a oportunidade, ganhou a confiança do Oswaldo Velho e da Dona Eni. O portão foi aberto e ela entrou. As cabecinhas apareciam atrás da parede da varanda e recuavam para cochichar.

— Ela entrou! Mas não vai vender nada.

— Vão conversar com ela, dar um refresco e ela vai embora.

— É…

Dessa vez não só o Oswaldinho estava enganado. Osnizinha e Zezinho também. Pois a mulher entrou. Conversou com meus pais, ofereceu o produto e combinou o pagamento. Meu pai foi embora para o serviço e ela continuou conversando na varanda dos fundos com mamãe, que me chamou para mostrar o material. Fiquei radiante porque queria ser cientista. Estava ali meu passaporte. A vendedora de enciclopédias era uma jovem senhora negra linda. Parecia com a minha mãe. As duas conversando pareciam duas chefas de estado africanas fechando um acordo entre seus países. Eu e meus irmãos – o povo – aguardando o resultado das negociações de sua primeira-ministra.

Depois que a vendedora foi embora o dia mudou. Continuou nublado, mas diferente. Havia ilustração nas páginas. Eram fotografias sépia. Coisa séria. Texto de gente grande. E eu entendia tudo. Minha tarde seguiu iluminada. Posteriormente viria saber dos enciclopedistas por intermédio da Dona Vilma, professora de História e de Geografia. Ela foi a mesma que me fez ler Rousseau e Voltaire ainda na adolescência. Aprendi e aprendo muito com minha família, amigos, professores… O conhecimento me chegou por várias vias e suportes. Ainda hoje é assim. Meus velhos livros estão sempre comigo. As revistas também. Até os recortes de jornal! As ofertas continuam via televisão e Internet. Mas onde está a vendedora de enciclopédias? Anda por aí nas feiras de livros ou nas livrarias virtuais. Agora enfrentando a concorrência de outros produtos mais sedutores. Ela amadureceu. Mas continua em forma. Veloz em todo lugar ao mesmo tempo todo o tempo oferecendo conhecimento nos portais.

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Oswaldo Eurico Rodrigues é professor de Língua Portuguesa, Literatura e Produção de Texto na Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC) e no Colégio Adventista de Itaboraí. Também é artista plástico e o seu trabalho está voltado para pintura abstrata e manipulação de imagens. Costuma publicar seus textos em sites de Literatura no Brasil e em Portugal.

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

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