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Edição 04 – Crônica: “A história do Alexandre” – Suplemento Araçá

By Redação no setembro 9, 2020
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A história do Alexandre
Lorenza Ferreira

Sabe aquele garoto inconfundível na sala de aula? Carismático e que, ao mesmo tempo, parecia não pertencer àquele local. Seu nome era Alexandre. Não era bonito, sua cabeça era um pouco maior que o normal, tinha por volta de vinte anos. Era alto e não se mostrava exatamente um cara inteligente. Contudo, sempre fazia a alegria dos amigos de turma. Só que, naquele dia, ele não foi pra aula de português e não comentou sobre a leitura das crônicas de Veríssimo. Logo, foi impossível não notar sua ausência. No dia seguinte, perguntei porque ele havia matado a aula. E foi aí que ele começou a narrar.

Primeiramente, esse meu aluno perguntou se eu conhecia um aplicativo de encontros românticos. Sinceramente, não pensei que eu aparentava ser tão velha assim para receber essa pergunta. Já que todo mundo conhece o tal aplicativo. Enfim, disse ao Alexandre que conhecia, sim, já ouvira falar. Embora nunca tivesse instalado a referida tecnologia em meu smartphone. O jovem sorriu envergonhado, não acreditava, ele mesmo não punha fé no que acabara de falar. E prosseguiu assim, não se importando muito com minha explicação e foi além. Contou que havia conhecido uma menina moradora da Rocinha. Por esse aplicativo, resolveu encontrá-la. Coisa muito normal, até então. Mas o impressionante foi que ele relatou que a menina não era exatamente a garota mais linda que algum dia lhe dera confiança. Então, curiosamente perguntei, porque ele foi tão longe para ter o tal encontro romântico? Desconfiado, Alexandre sorriu, daquele jeito maroto de quem tem segundas intenções com o seu futuro par. Foi então que entendi, ele buscou encontrar a menina, pois se interessava por “algo mais” com ela.

Geralmente, os garotos que residem em comunidades como a dele (em São Gonçalo) não costumam sair a “caça” de meninas que moram tão distantes. Mas ele foi, porque havia combinado, deveria chegar ao lugar marcado ao meio-dia, em ponto. Contudo, atrapalhado e inexperiente, claro que não conseguiu organizar o tempo, já passara de uma hora da tarde, quando a encontrou.

A menina se mostrava desesperada de tanto aguardar o Alexandre, ela precisava trabalhar, tinha hora. Na cabeça do rapaz, ficariam juntos até o dia seguinte. Aliás, somente por esse motivo nosso personagem se deslocou para lugar tão longe. Só por isso pegou três conduções, levando mais ou menos duas horas de percurso. A moça nem bem deu tempo a ele. Levou-o para o quarto dela na comunidade da Rocinha. Exatamente. O dormitório se revelou bonito e limpo, preenchido por móveis aparentemente caros. Havia lâmpada gigante a iluminar todo o entorno. Por um momento, apenas um momento, Alexandre pensou: “Isso deve ter custado uma grana”. Deitaram, sim, se esticaram na cama. Ela confidenciou que trabalhava em um shopping famoso no Rio. Mas precisava ir, seu turno começaria em meia hora. Prometeu retornar rápido, tão logo fechassem a loja. Voltaria mais cedo se a gerente liberasse, embora fosse consciente da impossibilidade de tal fato acontecer. Saiu, sim, teve que sair, mas sem antes dar no Alexandre um beijinho carinhoso. Nessa hora recomendou: “não saia, hein, em hipótese alguma, saia deste quarto!” Que bom, era tudo que o jovem queria, descansaria na residência limpinha e arrumada. Uma cama enorme, até Wi-Fi para distrair tinha lá. Não pense você, caro leitor, que isso é pouca coisa. Só quem não tem sinal de internet em casa conhece a situação. E a alegria foi tamanha naquele dia.

O tempo foi passando e já era tarde. A bexiga estava repleta, chegava ao limite da sua restrição urinária. Necessário ir ao banheiro o quanto antes. Foi só nesse momento que Alexandre abriu lentamente a porta do quarto, no intuito de ir ao encontro do banheiro salvador. Sem barulho algum, lembrou prontamente da recomendação. E conseguiu, vitória! Gritaria de alegria se pudesse. O banheiro que lhe proporcionado alívio. Pronto, tudo certo, necessidades satisfeitas. Quer saber se ele lavou as mãos? Não, de fato me confessou não ter se dado ao trabalho, devido ao medo decorrente da escuridão que envolvia o ambiente. Verdade, ninguém acendeu lâmpada alguma. Até eu tive medo quando ele me contou. Admito. Só sei que, ao sair do banheiro, o nosso já assustado protagonista deparou com um senhor, nem novo nem velho, totalmente careca. Sim, a careca do homem brilhava no escuro. Ou seria a testa oleosa daquele desse mesmo senhor bem ali à sua frente? Importante ressaltar que o susto não aconteceu por causa da presença de alguém vivendo também na casa. Mas pelo fato daquele senhor de cabeça reluzente se apresentar em uma cadeira de rodas. O coração disparou, sensação de que saltaria pela boca. Queria gritar e correr. O jovem narrou que poucos segundos lhe foram suficientes para perceber que havia uma tornozeleira eletrônica na única perna que homem possuía. Tornozeleira piscando, exatamente, luz bem pequena a emitir feixes vermelhos e brilhantes. Tudo horripilante, sombrio.

Bem, o caso é que Alexandre correu desesperado para o outro corredor e entrou de volta no quarto da garota. Desespero enorme. Empurrou o guarda-roupas para trancar ainda mais a porta do cômodo. No entanto, tão logo percebeu que havia um porta ao lado do armário. Exato. Uma porta não muito grande e resolveu abrir: era um banheiro. Que coisa, hein! Durante todo o tempo, havia um banheiro ali, embora não tenha se dado conta do fato. Talvez por isso a menina lhe recomendara horas antes: “não saia do quarto!”. Incrível, um banheiro dentro do cômodo sem o jovem saber, um cara fora do quarto com uma perna só e uma luz vermelha piscando na tornozeleira do cara. Nosso protagonista se manteve ali sufocado, suando frio. Pensava na possibilidade de o careca empurrar a tal porta e assassiná-lo. Seria o coitado do Alexandre morto com um tiro na testa ou faleceria devido ao pavor extremo?

O certo é que, por mais que os segundos passassem, ou melhor, se arrastassem, a hora da moça chegar do trabalho deu os ares da graça. Justamente, retornando da luta. A garota então adentrou o quarto. Isso mesmo, já chegou furiosa, de cara feia mesmo, o semblante denunciava fúria enorme. Alexandre não desejava mais estar envolvo em seus braços. Por outro lado, a primeira atitude da jovem foi perguntar ao rapaz o motivo do descumprimento da recomendação: “por qual motivo você saiu do quarto?” O jovem não soube explicar direito. Difícil esclarecer a situação do banheiro. Missão complicada afinal, desistiu, sabia que apontar a confusão com os banheiros seria inútil. Todavia, decidiu abrir o jogo, desnecessário mentir dali por diante. O olhar de reprovação da garota denunciou o perigo que ele havia passado. “Você poderia ter morrido”, afirmou. Segundo ela, uma tragédia só não aconteceu porque o tio careca achou esquisito alguém desarmado trancado ali no quarto. Não poderia ser algum maníaco, jamais um invasor estaria de mãos vazias. Tarados não andam sem arma. Por isso o tio de tornozeleira piscante ligou para ela perguntando. E tudo aparentemente se tranquilizou. Bem, melhor dizer que o acaso não se revelou tão tranquilo assim, pois o careca passou a mão no fuzil reluzente de estimação e montou guarda do lado de fora da casa. Nesse meio tempo, a explicação sobre a tornozeleira eletrônica surgiu: o tio era o maior traficante das redondezas, isso mesmo, o chefe do tráfico dos arredores da Rocinha.

Depois da explicação medonha, o toque macio dos dedos suaves da jovem dona tentava acalmar o coração do rapaz, mas não funcionou. Alexandre parecia entrar em parafuso, suava sem parar, mais e mais suor lhe empapando a camisa. Lembrou ter saído de casa sem se despedir da mãe e da irmã mais nova. “Iria morrer”, pensou apavorado. Aquele senhor constituía um ex-presidiário e cujos conflitos na penitenciária lhe provocaram a mutilação. Correto, amputação decorrente dos ferimento causados pela explosão de uma granada. Sim, exatamente desse jeito perdeu uma das pernas. Bem, está claro que se o já apavorado Alexandre não tivesse feito xixi minutos antes, decerto o líquido quente já teria lhe escorrido pelas pernas. Mas não, por sorte não aconteceu. Só assim, com tudo sob o controle, a jovem morado da Rocinha continuou a explicar. É que o tio se recuperava muito lentamente e necessitava de alguém para ajudar. Conclusão óbvia, o ex-detento levou suas trouxas e decidiu morar junto da sobrinha. “Quer dizer que aquilo lá é mesmo um fuzil que ele guarda no quarto?”. Resposta verídica, teve que ouvir. Sim, mas não havia somente uma arma daquela, não, havia mais. Eram variados os modelos de fuzil usados no comando do tráfico. O homem nunca deixou de comandar o movimento da comunidade. Nem quando preso.

Pois bem, ficou visto que naquela noite o coitado do Alexandre de maneira nenhuma conseguiu dormir. Não é pra menos, já pensou? Não se alimentou com a janta que a moça trouxera do shopping com tanto zelo, tampouco conseguiu namorar. Pânico era a palavra mais adequada, manteve-se assim até o raiar do dia. Necessário voltar correndo para São Gonçalo. Você acredita que ainda perguntei se ele havia desistido da garota? Enfim, após uma risada demorada, confidenciou que, de agora em diante, só namoros próximos. De bem perto.

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Lorenza Ferreira é formada em Letras pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pós-graduada na área de Prevenção de Drogas nas Escolas. Também formada em Pedagogia pela Unirio, atualmente ela leciona na Rede Estadual de Ensino do Rio de Janeiro e na Rede Internacional de Ensino Adventista.

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

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