junho 20, 2021
  • junho 20, 2021
Novidades
  • Home
  • Edição Atual
  • Edição 04 – Artigo: “O manifesto dos tautoindrisos” – Suplemento Araçá

Edição 04 – Artigo: “O manifesto dos tautoindrisos” – Suplemento Araçá

By Redação no setembro 9, 2020
0 117 Views

O manifesto dos tautoindrisos

Por: Daúde Amade e Norek-Red, Maputo, Junho de 2020 (actualização do manifesto de 2015).

O que a dúvida, incerta do nome, veicula de modo latente é que o que terá ocorrido é, ao final do poema, a verdade do desejo, tal como a Arte, o próprio poema, a capta e fixa. – Alain Badiou

Método, Método, que queres de mim? Bem sabes que comi do fruto do inconsciente. – Jules Laforgue

É defensável para os conservadores das artes reduzir ad absurdum as criações hodiernas, assumindo que da Antiguidade até ao fim da Modernidade criaram-se estruturas sólidas dos conceitos e práticas que delineavam o fazer arte (e do não fazer arte, por consequência), e que, portanto, os contemporâneos negligenciam essas bases visto que não têm a habilidade de criar dentro dos limites propostos. Muita ferramenta lhes falta, dizem os conservadores, o Homem hodierno falta-se a si mesmo, vive num ambiente de caos, de histeria social que não possibilita um momento de concepção de um genuíno projecto artístico. E como a ferramenta primordial falta-lhe, que é ter-se – na dimensão de Ser de razão e emoção – para a Criação do artístico, nada dele se pode esperar senão o fim da arte.

Firmo-me sob um ponto de vista genericista do que tem sido o debate conservador nas variadas Artes. É comum anunciar-se tratados tendo como base a ideia de que o Homem contemporâneo vive tempos históricos em que está ocorrer a consumação do fim ou a morte da Arte. Entretanto, como aventa Arthur Danto em seu ensaio “O fim da arte”publicado em 1984 na revista The nation, reflectir sobre as criações artísticas hoje, como o espaço-tempo em que se dá a morte da arte, não deve significar a trivial ideia de que a arte deixará de existir, como querem acreditar os conservadores. Porém a noção de fim da arte está vinculada à maneira de como foi entendida a história das artes, isto é como sendo linear, uniparadigmática, metafísica e violenta, o que convocava que, os que estivessem a criar, tivessem por dívida histórica, uma espécie de obrigatoriedade, de manter a sequência de fazes de uma narrativa das artes tal e qual em desdobramentos temporais diferenciados (Danto, 2013, p.4).

Ao que se pode depreender dessa concepção do fim da arte em Danto, é que por detrás do que se anuncia está a construção livre, depreendida dos moldes clássicos da ditadura do fazer arte, o demónio dos conservadores. A época em que estamos representa o fim de uma narrativa universal do conceito de arte. Os tempos pós-modernos quando o voo planou trouxeram em suas maletas o fim das metanarrativas, legitimando o local e o epocal das construções momentâneas como experiência própria do fazer arte. É isso que Danto reconhece ao fazer uma leitura desenraizada da ideia do fazer arte caminhando para o reconhecimento da existência de Artes, plurissignificações, democratização se quisermos. Nesse sentido criar novas formas de construção poética significa, mais do que resistir ao aniquilamento do artista pelos Sistemas violentos e ditatoriais a possibilidade de passar por cima deles – criando algo novo – ou reinventando-os, pois a época é, em sim, pós-histórica.

Ainda que se diga, pois palavras voam por aí e ninguém as segura, que o pós-moderno não é o Homem das invenções, pois surgiu numa época em que tudo já foi inventado, não se disse porém que ele não vive uma época em que não pode mais reinventar, o que é, no fim, criar. É certo que já não podemos inventar palavras, demoramos chegar, mas podemos inventar novos modos de usá-las. Os Tautoindrisos colocam-se nesse contexto, com o objectivo de revolucionar a arte poética sem quebrar os imãs do artístico que há nelas. A palavra tautoindriso, segundo Norek-Red, escritor e poeta moçambicano, foi criada em 2014, tendo derivado de uma aglutinação de dois outros géneros poéticos, o tautogramae o indriso.

Antes de abordar propriamente acerca do Tautoindriso é imprescindível mostrar o caminho com que a criatividade, a engenharia da concepção poética percorreu até chegar ao destino, a funsão de dois em um para a criação do poema. O que é um tautograma? Hellmann (2014, Prefácio), explica que um tautograma é um texto poético que é iniciado com todas as palavras com a mesma letra. Dados históricos indicam que há uma tradição por detrás da construção poética. As mais recente datação remonta à catedral de Lima, no Perú, em 1756, onde leu-se a seguinte oitava do senhor Arcaya em umas cerimónias fénebres:

¡Cielos! ¿Cómo canciones cantaremos/ Con corazones casi consumidos?/ Con causa conveniente callaremos/ Congojados, confusos, convenidos,/ Constante compasión conservaremos;/ Corran copiosos cauces comprimidos,/ Considerando cumbre combatida,/ Caído cetro, corona convertida (Crystal apud Teruel, 2005, p.35).

Assim, através desse jogo de palavras que tomam uma repetição de som e ritmo incial, constrói-se poesia, possibilitando expandir os horizontes criativos da intelecção, incentivando a pesquisa e domínio de novos vocábulos para que não seja somente um emaranhado de palavras que bailam ao vento ou forçam o poético a estar onde a priori se recusou de estar.

Se o tautograma é o que acabamos de ver acima essa brincadeira que se faz com os palavras de mesmo som no início, então o que seria um indriso?

Ao contrário do tautograma que tem uma história já sedimentada ao longo de gerações de criadores palavreiros, o indrisoé uma modalidade poética actual. Isidro Iturat (2012, p.3), professor de literatura de nacionalidade espanhola, foi quem criou o indriso, tendo criado o primeiro texto em 2001. Segundo defende, o indriso é um poema constituído de dois tercetos e duas estrofes de verso único, isto é, encontra-se organizado segundo o padrão seguinte: 3-3-1-1. O indriso é uma redução de versos de um soneto tradicional, visto que a forma canónica é de 4-4-3-3, o indriso é um processo de reconstrução do soneto tradicional através da condensação de suas estrofes. Enquanto os dois quartetos do soneto passam a ser tercetos no indriso, os dois tercetos do soneto reduzem-se a duas estrofes de verso único. Exemplificando, leia-se o indriso Lua minguante:

O centauro se assoma à janela/ e a mulher adormecida está falando em sonhos./ Chora e ri, porque um centauro a rapta.// Cavalga em seus sonhos a mujer adormecida,/ Cavalga em seus sonhos, e é cavalgada./ Na selva, ninguém a escuta quando grita.// Chora e ri como nunca em sua vigília.// O centauro a observa… pela janela (Iturat, 2012, p.4).

O indriso expresso de forma condensada, caminho curto, mas não menos trabalhoso o poético. Não é uma criação trivial, há bases que o sustentam, há uma estética apetecível em lê-lo, justamente porque está nessa quebra de regras, nessa ideia de ir em contramão ou reformular o que o classicismo poético legou-nos.

Chegados aqui é o momento de referenciar a nossa proposta, o tautoindriso. Como havíamos anunciado, é do tautograma e do indriso que o Tautoindriso ganha fólego. Através de um entrosamento entre as dimensões estruturais das referidas modalidades poéticas, faz-se um tautoindriso. Norek-Red inspirou-se na unifonia do tautograma e na estrofação do indriso para construir um tautoindriso. Mas, mais do que isso, porque o tautograma não tem uma métrica definida ou número de sílabas a constar em cada verso, podendo variar segundo a livre criação poética; diferentemente do soneto tradicional que tem a norma rígida na sua construção diante do uso da métrica habitualmente regular, o indriso Tolera qualquer tipo de medida no cômputo silábico, o que faz dele uma forma ao mesmo tempo fixa e dinâmica: no eixo vertical, a disposição não variável da estrofe; no eixo horizontal, as variações na quantidade. Ademais, admite todos os graus e géneros de rima (Iturat, 2012, p.4). O tautoindriso, então, para além de se escrever através de unifónicas palavras e simplesmente da rigidez normativa da estrofação do indriso, traz como proposta a inclusão de, no máximo, até três palavras em cada verso dos tercetos e libera o número de palavras para as estrofes de único verso. Tenhamos como exemplo o texto de Norek-Red intitulado Triste tautoindriso à minha Tânia:

Teremos tempos tenros,/ tempos tranquilos também,/ trilhando tumbas temporais,// transcendendo tristezas./ Todavia, tristezas triviais./ Tempos tristes teremos.// Todavia, tranquilamente toleraremos, Tânia.// Temíveis tristezas trovejantes, trespassaremos.

Com o exemplo acima, esclarece-se que ainda que se esteja a quebrar as regras do soneto tradicional, não é ao todo que ocorre a anarquia na construção dos versos. Note-se, quando os tercetos são governados por versos de somente até três palavras, há uma certa regra, porém menos absconsa que a do soneto, visto que admite usar menos número de palavras e não se fia à ideia da contagem da sílaba métrica verso à verso e também não se faz forçosa a busca pela rima, apelando a expressão unicamente necessária da liberdade de criar e fazendo-se novo, portanto, como sugerem as criações modernas do verso livre.

Dentro daquilo que são os tautoindrisos há uma filosofia simbólica que, talvez, será tomada como profana por aqueles que se querem fiar sobre determinados estudos desses símbolos na arte, os que assim esperam nesta dissertação fadar-se-ão ao fracasso pois este manifesto pauta-se como a pedra angular para expor às claras o que o simbolismo-filosófico dos pitagóricos tem a ver com os tautoindrisos. Para tanto, assumindo nós em plena consciência que se pode vincular a arte de tautoindrisar aos fundamentos numéricos dos pitagóricos, iremos ousadamente lançar a pedra.

Sob a concepção de que para os pitagóricos, assim como para variadas ceitas o número 3 perfaz a essência da natureza, de que há um significado oculto por detrás da realidade (o úno) que é composto de opostos (bom e mau, trevas e luz, etc.); que todas as coisas existentes contêm a base numérica na sua constituição, pois a Natureza é coberta de perfectibilidade para além do que se pode ver, então o número 3, que é o número de versos das duas estrofes e também o número máximo de palavras que devem ser contidas nos tercetos do tautoindriso denota, nesse contexto, adjectivos como criatividade artística, autoexpressão, imaginação. Assim os dois tercetos do tautoindriso e as três palavras de que no máximo aceita cada verso destes é a representação de três forças (a activa, a passiva e a neutralizante) que actuam no universo da arte poética para a expressividade. A terceira força (a neutralizante) é fruto da razão e emoção que interactuam como forças criadoras, onde o tautoindriso assume a intelectualização dos sentimentos (sintetizando razão e emoção) para a construção do universo poético.

Por seu turno, o um que se refere as duas estrofes de verso único e que servem de síntese do tautoindriso, na série matemática pode ser compreendido como representação da força, de poder explosivo da ideia a que se tomou como leitmotiv para a Criação. Os dois monósticos (versos de estrofação única) de que se compõe o tautoindriso representam a capacidade de liderança semântica do conteúdo poético, por isso são dotados de coragem de ir além do que permitiam os tercetos, isto é, para além de só três palavras de que obrigatoriamente o artífice devia usar em cada verso, a estrofação de único verso conduz a liberdade do tautoindricista expressar-se podendo quebrar o limite das três palavras. Portanto, como podia-se aludir através da ideia de Meneghetti (2017), porque não se pode chegar ao número três  dos tercetos sem se passar de um, que é a origem dos demais números, tendo-se corrompido essa ordem começando, na estrutura mãe de tautoindrisos, de tercetos para os monósticos, esses assumem a tarefa da objectividade poética expressiva para a realização do poema.

Retomando a descrição sobre a estruturação gráfica do tautoindriso tornou-se evidente que acima somente havíamos descrito um tautoindriso com a estrutura básica ou mãe, a que também pode ser denominada de tautoindriso em sístole (3-3-1-1), no entanto a modalidade admite que ocorra uma alternância da estrutura mãe podendo-se gerar, inspirando-se no modelo ituratiano do indriso (2012, p.10), as seguintes estruturas:

Podemos constatar através das estruturas acima apresentadas que os movimentos realizados pelas estrofes pertencem aos dois principais movimentos, ou seja, enquanto umas expandem-se de pequeno/menor para grande/maior, outras contraem-se da posição de grande/maior para pequena/menor. E, também, temos a posição central em que as estrofes se expandem ou contraem-se para o centro seja em movimentos de expansão no caso dos monósticos que se movimentam para o centro, seja no movimento de expansão quando os tercetos movimentam-se de fora para dentro (centro).

Para terminar, salientamos que o tautoindriso tem em si a base poética, não querendo forçar que se encontre lá algo de poético, há poesia como criação através da palavra, diga-se. Acima de uma concepção conservadora do que sejam os modos clássicos do fazer poesia propomos uma ruptura ao paradigma das formas legadas pelo Ocidente (como o normativismo do Soneto). Ainda, que a estrutura mãe de um tautoindriso é de 3-3-1-1 (dois tercetos e dois monósticos), podendo porém subverter-se em mais estruturas possíveis. Os tercetos mantêm os versos compostos por, no máximo, até três vocábulos e os monósticos rebentam com a escala imposta nos tercetos, servindo de síntese da ideia que se quer transmitir. Os veros podem ser medidos de forma regular ou irregular, assim como apresentar ou ausentar as rimas na composição.

Bibliografia consultada

Danto, Arthur. C. (2013). “Crítica de arte após o fim da arte”. Tradução de Miguel Gally, Clarissa Barbosa e Leandro Aguiar. In:Viso: Cadernos de estética aplicada, v. VII, n. 14, p.1-17.

Hellmann, Ruth. (2014). “Prefácio”. In: Fernandes, Rogério. Tautogramas temáticos. Dourados: MS, Biblio.

Iturat, Isidro. (2012). Sobre o indriso [última actualização]. Disponível em: http://www.indrisos.com.

Meneghetti, Diego. (2017, Fevereiro 7). “A simbologia oculta por trás de 31 números”. In: Mundo Estranho. Disponível em: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/a-simbologia-oculta-por-tras-de-31-numeros/.

Teruel, Tomás Motos. (2005). Juegos creativos de lenguaje. 1ª ed. Santiago de Compostela: Meubook, S.L.

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *