setembro 20, 2021
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Edição 04 – Artigo: “Narratologia” – Suplemento Araçá

By Redação no setembro 9, 2020
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Narratologia
Kauã Geddes

Introdução ao conceito

Na antiguidade, especialmente na região onde hoje é a Grécia, os primeiros ramos de sociedade primitiva seguiam se estabelecendo. A democracia estava surgindo e as definições de certo e errado se moldaram. Então, aos líderes da época se fez necessário arranjarem um método para a disseminação destas ideias, aparentemente democráticas, no intuito enunciarem propagandas para o entendimento do povo sobre alguns ideais. Decidiram narrar histórias e construir os primeiros teatros, para que (de forma lúdica) a população entendesse conceitos básicos acerca da importância do pagamento de impostos ou de não cometimento de crimes.

Essas histórias, apresentadas nos teatros, tiveram inicialmente dois gêneros: Tragédia e Comédia. Ambas apresentavam de forma sombria e melancólica algum acontecimento ficcional ou atração mais alegre, burlesca e alegorizada, respectivamente. Todas elas sempre passando adiante algum ensinamento.

Um dos grandes estudiosos sobre assuntos de dramaturgia e narrativa se chamava Aristóteles, este foi quem definiu diversos conceitos que hoje nós conhecemos. Um dos mais relevantes nós o chamamos de peripécia e que pode ser caracterizado como um “movimento da narrativa”, onde tudo muda na disposição enunciativa dali por diante. A peripécia é a “mãe” do que hoje referimos por plot twist, mesmo que esses termos sejam coisas um tanto distintas. Outro conceito aristotélico é o de protagonista, além do que chamamos de narrativa clássica, ambos serão elucidados mais adiante

Narratologia: características de uma boa narrativa

Para determinada narrativa ser considerada boa, não é necessário seguir todos esses preceitos, basta ser agradável ao público. Porém, a partir dos vários séculos de estudo, foi-se encontrando um padrão entre as melhores narrativas de todos os tempos. Essas foram estudadas e ensinadas aos especialistas do meio e escritores de modo geral.

Inicialmente, é importante oferecer uma introdução à narrativa clássica. A narrativa conhecida como clássica provém de uma época de aderência católica à maior parte da Europa e foi influenciada (junto a vários outros elementos da arte) pelo conceito de fixidez, unidade e simetria; termos derivados do cristianismo na época. Esses elementos cristãos motivaram o nascimento de grandes obras de arte que seguem, vez ou outra, este mesmo padrão, até os dias de hoje, como a Monalisa (La Gioconda), de Leonardo da Vinci, por exemplo. As obras dramatúrgicas da época tinham começo, meio e fim, tudo bem definido e claro, para deleite do espectador. Suas bases seguiam os arquétipos de cunho: homem x natureza; homem x homem; homem x Deus.  

Também vale destacar o conceito clássico que se tornou mais utilizado e conhecido até hoje nas artes de representação: o protagonista, cuja etimologia aponta como “o principal no conflito”. Nesse sentido, protagonistas se caracterizam por serem os personagens principais de qualquer narrativa, sendo o foco central da história o desenvolvimento e a evolução das ações que constituem a trama. Além do protagonista, torna-se necessário a participação de pessoas, entidades ou coisas, dentre as quais ajudem ele a conseguir o seu objetivo, bem como a sua evolução. Mas há também aqueles que o impedem de realizar tal feito, os antagonistas.

Atualmente, é impossível falar sobre protagonista sem mencionar os estudos de Joseph Campbell, que em seus livros analisou as várias narrativas de diversos séculos e descobriu mais um padrão nas melhores delas: “A Jornada do Herói” ou “monomito”, que é a explicação sobre uma característica das melhores narrativas; tanto antigas quanto atuais. Pois ela consegue engajar qualquer ser humano na história, desperta o interesse e o faz compreender a narrativa de modo mais claro. O “monomito” ou “A Jornada do herói”, de Campbell, tende a atrair a atenção do espectador de forma que ele mergulhe no universo narrativo e seja atraído pelas “aventuras” de que esses personagens principais participam. Embora sabemos que não é necessário seguir a “jornada do herói” para termos uma boa narrativa aclamada pelo público. O monomito, inicialmente, apresentava dezessete passos a serem seguidos pelo protagonista e que, com o tempo, esses passos foram se tornando irrelevantes (ou fundidos) a outros e se tornaram, atualmente, apenas doze passos, com dois lineares. O protagonista tem sempre uma problemática de caráter a ser provado — e que é apresentada logo no inicio da narrativa, junto ao seu objetivo pessoal, mas ambos estão interligados, fazendo com que o objetivo do protagonista seja a resolução para a sua problemática. O protagonista é chamado para alguma aventura ou vivência que irá mudar a sua vida. Inicialmente, ele pode recusar a possível ação. Porém, assim que encontra com “o mentor” (aquele que vai ensinar e motivar a jornada), o protagonista então atravessa o primeiro linear. Na sequência, indo para o segundo linear ele defrontará um mundo desconhecido, o qual o fará vai passar por provações, desafios, conhecerá aliados e rivais, até se deparar com o seu maior antagonista, quando o vencerá, talvez duas vezes. Assim realizada a ação, ele retornará para o mundo comum com sua problemática plena ou parcialmente resolvida — neste último caso, se o autor desejar dar continuidade à narrativa noutro momento, claro.

Uma grande característica das obras é o conjunto dos arquétipos de personagem, ou seja, características de determinado personagem que definem a função dele na narrativa. Talvez a mais conhecida e clara delas seja o vilão. Na trama, é aquele que deseja a todo custo impedir o protagonista de conseguir o que ele quer, não importa o motivo, e não importa o meio do qual ele vá usar. O antagonista é tudo ou todo aquele que impede o personagem de atingir o seu objetivo. O vilão sempre é o antagonista, porém, o antagonista nem sempre é um vilão. Em algumas obras, podemos observar grandes amigos do protagonista agindo como antagonistas, simplesmente porque não sabem que estão atrapalhando o seu crescimento pessoal. Há também os aliados que podem ou não atuarem como mentores dos personagens. Chama-se de aliado todo aquele amigo do personagem que o ajuda a conquistar o “elixir” (objetivo). Aliados também podem ter a função de apresentar o mundo desconhecido ao protagonista, explicando como aquele mundo funciona e, indiretamente, esclarecendo também ao expectador. Há casos cuja apresentação é feita pelo mentor, o personagem para o qual a função de dar suporte ao personagem se revela absoluta. O mentor prepara o personagem para os desafios e lutas que surgirão no mundo desconhecido. Também temos (em determinados casos) o interesse amoroso do personagem que, dependendo da trama, pode contar com o surgimento do homem ou da mulher amada e que venha ou não exercer papel antagônico. Os arquétipos apresentados neste parágrafo são os mais comuns nas narrativas, porém, nem todas as obras lançarão mão desse artifício discursivo — e eles não são os únicos aparentes na trama, vários outros tipos de personagem podem surgir, de acordo com a necessidade da narrativa em questão.

O Melodrama

Durante a revolução francesa, algumas peças teatrais começaram a ser apresentadas fora de qualquer teatro, mais recorrentemente em praças públicas. Deste modo, as apresentações ficaram acessíveis para qualquer um, sejam os sans-cullotes (não aristocratas)ou os nobres. Porém, houve um problema na logística das apresentações. As exposições eram extremamente lotadas, causando dificuldade no entendimento daqueles que ficavam mais distantes do palco. Além disso, as pessoas dali apresentavam níveis intelectuais diferentes, logo, nem todos entendiam as mesmas interpretações.

Por conta disso, os organizadores destes eventos precisavam encontrar uma maneira para que, independente da distância e do nível de educação da pessoa, fosse possível a todos entender o que estava se passando na cena. Então, a solução foi pedir aos atores que exagerassem na demonstração representativa dos sentimentos em cena. Gritando, berrando, pulando e correndo, tudo isso serviu de método para que demonstrassem, ao máximo, as emoções dos personagens em cena. Compreensão melhor para todos os públicos, e assim surgiu o melodrama.  

O melodrama é um recurso artístico utilizado até hoje, principalmente em obras como novelas e peças de teatro, onde a ideia de democratização contextual da narrativa por meio do melodrama é muito aplicada, justamente pelos considerados “não aristocratas”, ou seja, pessoas provenientes de países emergentes, e que nem sempre conseguem entender ou se identificar com personagens e emoções mais complexas. Também podemos achar o melodrama em alguns elementos mais atuais, séries e filmes populares, por exemplo. Atualmente o recurso melodramático se caracteriza por mostrar os personagens tendo emoções mais intensas, de forma que todo o ser humano entenda; geralmente por meio de brigas de família, traição amorosa, dentre outras estratégias. Tais características são encontradas, não raro, nas famosas novelas mexicanas. Porém, não se restringem a algo tão fútil ou banal assim. O melodrama pode agir de forma bem sutil e, mesmo assim, é capaz de prender a atenção do espectador, fazê-lo entender completamente as ações que denotam os possíveis sentimentos dos personagens. 

Deste modo, havendo assim alguns desses elementos apresentados durante o texto, vimos que é possível construir uma narrativa concreta, compreensível para o público espectador ou leitor. Contudo, vale ainda informar, a obra não precisa necessariamente se prender a todos estes quesitos acima elencados.

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Kauã Geddes é aluno do nono ano do Ensino Fundamental da Rede Adventista de Educação.

Redação

O suplemento literário Araçá é um projeto da Revista e Editora “Entre Poetas & Poesias” e foi criado com objetivo de divulgar e propagar a arte a todos os cantos do Brasil e do mundo. Um periódico cultural que nasceu para tornar o cotidiano dos leitores mais suaves com mensagens líricas, filosóficas, entrevistas, poesias, artigos acadêmicos, debates educacionais, entre outros.

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